Resenha: Forrest Gump, de Winston Groom

sexta-feira, janeiro 13, 2017

Em comemoração aos 30 anos do lançamento do livro Forrest Gump, a editora Aleph fez uma edição especial, ilustrada, com capa dura, com todo o looosho que a gente gosta. A obra alçou um grande sucesso após a adaptação para o cinema, com Tom Hanks no papel que lhe rendeu um Oscar de melhor ator. Mas vamos com calma nessa caixa de chocolate da vida, porque estas são obras distintas.

Este livro foi uma cortesia da Editora Aleph




O livro
Forrest é o que as pessoas chamavam de idiota. Seu QI é de quase 70, o que o encaixariam nessa definição tão arbitrária. Mas é o próprio Forrest que nos diz que prefere achar que é um pateta e não um idiota. Muita gente acharia que por ser assim, por ver a vida de maneira diferente, por ver as pessoas de maneira diferente, sua vida seria simplória, insípida, sem significado. Mas logo vemos que não é bem e assim. E Forrest não está muito preocupado se você vai achar a história dele fantásticas demais, mas que sua vida foi interessante, ahhh, isso foi.


Forrest é lento em sacar algumas coisas, mas muito ligeiro para outras. O problema é que as pessoas, geralmente, o subestimam. Sua cabeça age rápido, mas ao falar ele se enrola. Quando nasceu, sua mãe deu-lhe o nome de Forrest em homenagem ao general Nathan Bedford Forrest, que lutou na Guerra Civil, que apesar dos grandes feitos no front, foi também fundador da Ku Klu Klan.

Talvez eu seja idiota, mas pelo menos não sou burro.

Página 45

Até o ensino médio, a vida de Forrest era correr dos valentões do colégio. Muito alto e veloz, ele acabou indo parar no futebol americano e a partir daí pegamos a estrada através das ações e dos olhos de Forrest, já que o livro é narrado em primeira pessoa. Sei que muita gente deve pensar em Tom Hanks quando pensa no personagem, mas no livro ele é bem diferente do ator. Aliás, esqueça o filme ao ler este livro. Nas páginas, embarcamos em situações surreais, às vezes até demais, mas é como Forrest avisa, ele não acha que você vai acreditar em tudo o que aconteceu em sua vida, mas ele não liga.

Jenny está em sua vida desde que Forrest se lembra e volta e meia ela entra em sua vida. Em outras, ele se mete em confusão por causa dela. Quando ele vai parar na cadeia, dificilmente consegue entender porque tudo acabou daquele jeito. Mas não pense que ele é de todo inocente, este Forrest aqui tocou em banda e ficou fissurado em maconha a ponto de Jenny ter que pedir para que parasse com aquilo.

Além das situações irreais, existe um forte componente geopolítico do livro. É possível reconhecer as diversas fases histórias dos Estados Unidos, como o bizarro encontro dele com o presidente Nixon, que esbraveja a respeito do caso Watergate. Ou quando Forrest salva a vida de Mao Tsé-Tung e ficam puto com ele por ter salvado o "comunista". E a forma insólita em como ele acaba nas situações é o que torna a leitura divertida e interessante. Você não consegue acreditar em como ele se mete nas roubadas e depois sai delas da mesma maneira. Temos temas como racismo e capacitismo sendo tratados aqui também e as visões peculiares do protagonista sobre diversos assuntos, em especial sobre a guerra.


E essa edição da Aleph, o que dizer dela? Não é um livro, é uma obra de arte. Capa dura branca com uma capa protetora por cima e você ainda pode escolher se quer deixar o laranja, com o capacete de futebol americano ou se quer a capa azul com a raquete de pingue-pongue (eu adoro azul, então virei). As letras foram impressas em azul e ilustrações em fortes tons de Rafael Coutinho enriquecem a narrativa, dando um passo vibrante para as ações de Forrest. No final, ainda temos uma ótima análise de livro e filme, que explica muito do estranhamento de alguns leitores que se disseram decepcionados com o livro.

Ficção e realidade
Quando terminei de ler, fiz a bobagem de ver o que as pessoas estavam comentando sobre o livro no Skoob. E muita gente, não era pouca, xingava o livro, dizendo que o filme era muito melhor, com uma história mais concisa, que fazia mais sentido. Acho que elas pularam o capítulo final, que faz uma excelente análise sobre as duas obras e que salienta que é de se esperar que eles sejam diferentes, já que são mídias distintas. Outro fato importante é que Winston Groom ODIOU o filme. Há claras diferenças entre os dois Forrests. O do livro tem mais malícia, não é tão ligado à mãe e viveu muito mais aventuras do que aquele do filme.

Em suma, o Forrest do livro é tudo menos o idiota passivo, inocente e intrinsecamente gentil do filme, que nunca fala nenhuma palavra rude, nem comete qualquer ação egoísta.

Página 386

Forrest Gump é uma jornada do herói. Um herói atípico, diferente das outras pessoas, mas ainda assim possuidor de uma sabedoria única. É a mensagem deixada por todas essas páginas que torna o livro imprescindível: todo mundo tem uma trajetória que vale à pena ser contada e que a vida vale à pena ser vivida. Ninguém deve deixar de viver por seu QI, ou comportamento, ou altura, ou para se encaixar em padrões. Padrões delimitam as pessoas, empobrece e nubla o potencial das pessoas. E Forrest nunca quis se encaixar num padrão. Ele foi com a maré da vida e teve uma vivência incrível, conheceu pessoas fantásticas, ajudou muitas delas a ver a vida da mesma forma. Então por que tanta gente ainda preferiu o filme, quando os dois trazem tantas mensagens positivas?

Você vai encontrar erros gramaticais propositais ao ler este livro, por isso não estranhe, pois é o jeito tacanho de Forrest falar e narrar o mundo à sua volta.


Pontos positivos
É ilustrado
A vida de Forrest
Foi adaptado para o cinema
Pontos negativos
Leitura devagar


Título: Forrest Gump
Título original: Forrest Gump
Autor: Winston Groom
Ilustrações: Rafael Coutinho
Editora: Aleph
Páginas: 392
Ano de lançamento: 2016
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Subestimar Forrest é subestimar a capacidade das pessoas. Podemos ver por ele como as narrativas importam, até mesmo das pessoas que muitos julgam como "incapazes", como "inferiores". Forrest e seu jeito especial de ver o mundo teve uma vida muito mais intensa e colorida do que muita gente que luta para se encaixar em padrões. É daqueles livros para ter na estante e revisitar de tempos em tempos para perceber as sutilezas perdidas na primeira leitura.

Run, Forrest, run!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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3 comentários

  1. Nunca tinha me tocado de que havia o livro, como muita gente só conhecia o filme. ´
    Pela sua resenha, o livro deve ser bem mais interessante!
    Abraços
    Marina

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  2. Quero ler há tempos, mas estava esgotado e caríssimo nos sebos... Mas parece que por tudo que esse edição contém, tbm não saiu mt barato, né? Mas quero ler =)

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  3. Eu não gosto do filme Forrest Gump, por isso fiz careta para o livro e ignorei SOLENEMENTE, nem as resenhas li kkk essa foi a primeira e que grata surpresa saber que o autor do livro não gosta do filme também RÁ! Deu vontade de ler o livro agora! Fiquei curiosa!

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