A Doença de Ali MacGraw

domingo, janeiro 08, 2017

O casal está apaixonado. A música de fundo é emocionante, o vento sacode as folhas, eles se beijam calorosamente e então ela revela a bomba: tem uma doença mortal, dolorosa e morrerá em pouco tempo. O apaixonado homem se desespera com a perspectiva da perda de seu amor, mas fica ao lado dela até o fim, em uma jornada de autoconhecimento e de aprendizado que o tornará um homem melhor. Enquanto isso, aquela doença mortal e dolorosa torna seu amor cada dia mais bonita, forte e perseverante, dotada de uma sabedoria que ensina ao seu amor a superar sua perda e a viver a vida o melhor que puder... Esse estereótipo é conhecido como A Doença de Ali MacGraw.




Ali MacGraw é atriz que protagonizou o filme Love Story (1970). Foi graças à sua personagem que esse estereótipo surgiu. A Doença de Ali MacGraw estipula que a mulher tenha uma terrível doença (câncer, insuficiência renal, tuberculose, problema de coração, Parkinson, Alzheimer, entre outras), tenha pouco tempo de vida, mas fica cada vez mais bonita (sério), mais sábia, mais forte, tudo para resgatar o amor de sua vida. Muitas vezes o parceiro é viciado em trabalho, mulherengo, tem ficha criminal, algum vício, ou todos eles juntos e ele se regenera para cuidar da amada. E a amada, mesmo tendo uma doença horrível e tendo pouco tempo de vida, aparece com um pó compacto mais claro antes de morrer e pronto, nosso intrépido e apaixonado personagem masculino está salvo e agora pode viver sua vida.

A história dessa mulher, geralmente, é irrelevante. Ela está morrendo e pronto. Mas é gata, sensual, mesmo cuspindo sangue. O que importa mesmo é o que o parceiro aprenderá com essa experiência de ter que acompanhar a decadência física da amada, mesmo que seu rostinho bonito não mude uma mancha. Os tratamentos, a progressão da doença, a luta contra ela, nhaaaa, nada a ver, quem aprende com isso tudo é o cara. No caso de Outono em Nova York (2000), a personagem de Winona Ryder tem um grave problema cardíaco, mas o que importa mesmo é que ela reaproxime o bofe (Richard Gere) da filha que ele nunca conheceu. Aí ela morre. Nem vamos levar em consideração aqui o fato de que sua personagem tem a mesma idade da filha do amado, né?

A forma como as doenças são tratadas também é bizarra. Às vezes, a única diferença é um pó compacto, uma sombra para simular olheiras e voilá, temos a doente terminal. Quem já teve que conviver com pacientes acamados sabe do risco de escaras. Há também os vômitos, a perda de cabelo e as súbitas mudanças de humor em pacientes que fazem quimioterapia. Nos cinemas, a morte e a doença são tão maquiadas que o estereótipo prevalece com força e a doente terminal fica linda quanto mais doente ela fica.

Charlize Theron em Doce Novembro - "Ahh, amor, eu tô morrendo de um linfoma não-Hodgkin que não te contei, mas o que importa é que você vai ser um cara melhor na vida, neam?"

Doença pode sim ser um evento transformador. Não são poucos os casos de gente que mudou radicalmente de vida ao passar por uma doença séria ou por ter que cuidar de um paciente terminal. Pacientes com doenças terminais, muitas vezes, também se afastam da família, pois não querem que parentes acompanhem sua decadência física e mental. Essas histórias valem à pena ser contadas. É preciso derrubar os tabus sobre morte e doenças. No caso de Para Sempre Alice (2014), vemos a personagem, a progressão de sua doença, em como é difícil lidar com ela no dia a dia, mas como ela buscou forças para apoiar outros pacientes e até para palestrar a respeito. Não temos um homem sendo salvo pela paciente com Alzheimer.

Em Forrest Gump (1994) temos outra bela paciente morrendo. E aqui o estereótipo da doença de Ali MacGraw é bem pior, pois Jenny Curran levou uma vida complicada, envolveu-se com drogas, tentou se matar, foi molestada pelo pai quando criança e precisa deixar o filho com o pai, Forrest, já que ela tem uma "doença desconhecida, que os médicos não sabem o que é". Pela época do filme, é óbvio que ela tem AIDS, mas quem se importa? A doença foi colocada no filme como uma punição pelo estilo de vida de Jenny. E que gata ela ficou, não é mesmo?, porque afinal o que importa é manter o corpinho e a aparência. #sqn

Morrendo com leucemia, mas gata, flertando e ensinando algo pro boy. Um Amor para Recordar (2002)

A doença não pode ser vista como uma punição pela vida que a personagem levou. Meio óbvio isso. Porém ainda hoje ouço pessoas falando que se fulano ou fulana está doente, aí tem, vai saber a vida que levou? Aí quando levam para as telas, esses preconceitos são potencializados. Todo o processo da doença cai no esquecimento e as possíveis boas coisas a se tirar de algo tão delicado de se falar, como doenças terminais, ficam lá trás. Geralmente, esse estereótipo recai sobre as mulheres, já que suas narrativas no cinema costumam ser irrelevantes, então bota aí uma doença na dita-cuja e faz com que seu amado amante aprenda algo para mostrar o cara massa que ele é. É 2016 e ainda vemos isso rolando por aí.

Há exceções? Sim, A Culpa É das Estrelas (2014) e Tudo por Amor (1991) são bons exemplos em que o drama da doença e suas partes desagradáveis - porque elas existem sim e não dá para maquiar isso - são tratadas com mais humanidade e realismo. E o mais importante disso tudo: que as pessoas não são as doenças que carregam. São seres humanos, com sentimentos, que cometem erros, que se apaixonam, que muitas vezes têm problemas de autoestima devido à doença. Que precisam lidar com dores, com queda de cabelo, com esquecimento, cirurgias, tratamentos dolorosos e cansativos. Essas são histórias que queremos ver, que precisam ser contadas. Mulheres doentes não podem ser usadas para ensinar algo ao bofe nem resgatá-lo de sua vida infeliz. Já deu.

Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Eu lembro quando li o livro Love Story, as cegas, não fazia ideia de qual era o proposito do livro, achava que era mais um dos meus romances açucarados, ai encontrei uma protagonista independente, capaz cuja prioridade não era o mocinho, uma das coisas mais marcantes no livro é que ela tinha uma lista de coisas que mais gostava e o mocinho não estava no topo dela... Ai está tudo lindo, tudo indo as mil maravilhas e ela em vez de engravidar... descobre que está com câncer... e daí eu me derreti... Nunca parei para pensar muito sobre essa história até hoje, no final o filme é só a história do menino branco que aprendeu com a menina latina que "Amar é nunca ter que pedir perdão" e se reconciliou com o pai \o/ Concordo com você que mulheres não podem ser usadas como professoras ou barco salva vidas... ou personagens coadjuvantes da história de vida de um homem ruim que ficou melhor.

    Para mim que ADORO um drama, esse é o tipo de post que modifica meu olhar! Vivendo e aprendendo e melhorando o olhar!

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