Computadores esquecidos

domingo, janeiro 15, 2017

Antes da Apple, da IBM e antes da definição moderna de uma unidade de processamento central provida de memória eletrônica, a palavra "computador" simplesmente se referia à uma pessoa que computava. Alguém que com lápis, papel e borracha calculava vetores, resolvia longas equações com números sobre impulso, combustível, carga. A indústria espacial, em seus primórdios, com uma Segunda Guerra Mundial batendo às portas, se valia do trabalho destes computadores humanos. E a grande maioria destes computadores eram mulheres.




Com os esforços durante a Segunda Guerra Mundial e com a ida de um grande contingente de homens para o front europeu, muitas empresas se viram obrigadas a contratar mulheres. Para o cargo de computadores, onde não era exigido formação, elas eram contratadas em massa, devido ao enorme esforço de conseguir mísseis balísticos, especialmente pelo recém-formado JPL. Quando crianças e adolescentes, essas pioneiras tinham aulas extras de matemática, por pura diversão, mas sabiam que o mercado para mulheres era muito restrito. Os empregos disponíveis, geralmente eram de professora, enfermeira, bibliotecária, secretária e muitas nem mesmo iam à faculdade. Elas se casavam assim que terminavam o ensino médio. A ciência ainda era um mundo muito distante para a maioria.

Enquanto isso, na Caltech, um grupo de jovens inconsequentes apaixonados por foguetes criaram um grupo chamado Suicide Squad no final dos anos 30. Eles faziam misturas perigosas de propelentes e oxidantes para fazer com que seus foguetes subissem o máximo possível. Chegaram a destruir um túnel de vento nessa brincadeira. Foguetes eram muito mal vistos na época, algo relegado às histórias de ficção científica das revistas. Falar que estudava foguetes era arrancar risadas até mesmo dos mais renomados cientistas. Mas esse grupo se empenhou tanto e obteve testes bem sucedidos que acabaram conseguindo financiamento militar para criar foguetes capazes de levar armas. Um dos membros da equipe era Barbara Canright, Barbie, que junto de outras pioneiras mulheres apaixonadas por cálculos, compunham o setor de computadores da empresa formada pelo grupo. Essa empresa se tornaria, futuramente, o JPL - Jet Propulsion Laboratory - da NASA.

O que é curioso de ir a fundo nesse assunto é como as mulheres que colocaram os astronautas e satélites em órbita foram apagadas da história da agência. John Glenn, famoso astronauta e que faleceu recentemente, se recusava a sair em missão se os cálculos não fossem revistos por Katherine Johnson. Elas preenchiam dezenas de cadernos, com linhas e mais linhas de números, símbolos e equações, fornecendo as informações necessárias para a construção de foguetes. O que hoje nós levamos poucos segundos para fazer com uma calculadora científica ou em um programa de computador, essas mulheres levavam dias, com calos nos dedos, fazendo à mão os cálculos. Algumas começaram a escrever linhas de programação desta maneira, antes de qualquer computador valvulado chegar ao JPL.

Lembro de assistir Apollo 13 pela primeira vez e achei estranho só ter homens trabalhando no comando da missão. As únicas mulheres eram as esposas e namoradas dos astronautas. E pensei "bem, as coisas estão mudando, mas naquela época...". Esse pensamento ainda é muito presente, mas em muitos casos onde imaginamos que as mulheres não estejam presentes é porque seus nomes foram apagados ou esquecidos. O Efeito Matilda mesmo. Várias mulheres computadoras trabalharam junto dos homens para trazer os três astronautas da missão são e salvos. E elas não apareceram em nenhum momento no filme.

A bioquímica Nathalia Holt resgatou a história de várias dessas mulheres em seu livro Rise of the Rocket Girls e a escritora Margot Lee Sheeterly tratou as mulheres, especialmente as mulheres negras, da NASA em Hidden Figures (Estrelas Além do Tempo). Desde o grupo Suicide Squad até os anos recentes de missões da NASA, elas contam sobre as dificuldades que muitas delas enfrentavam, especialmente com o machismo. Leis retrógradas na Virgínia colocavam placas em banheiros e no refeitório, para separar brancos de negros. Em uma época em que era raro ter mulheres em posição de destaque dentro de empresas, ainda mais na área de ciências como o JPL, os administradores acharam que seria ~maneiro~ fazer um concurso de beleza, o Miss Guided Missile 1952, para valorizar suas funcionárias. Pois é. A imagem abaixo é com as ganhadoras.

Miss Guided Missile 1952. Fonte: NASA JPL-Caltech

Barbara Paulson (à esquerda, de vestido preto) foi chefe do departamento de computação do JPL no início dos anos 60. Aos sete meses de gravidez, ela pediu uma vaga de estacionamento mais próxima do prédio para não ter que andar tanto sob o sol quente da Califórnia. O chefe do RH disse que ali não era lugar para grávidas. E ela foi mandada embora por pedir isso. Várias delas eram mandadas embora e ficavam vários anos em casa apenas cuidando dos filhos e eram chamadas de volta para o departamento. Licença maternidade era um conceito inexistente. Muitas mulheres com graduação em áreas de exatas aceitavam o emprego de computadores no JPL, que requeria apenas conhecimento avançado em matemática, pois sabiam que não conseguiriam emprego em outras empresas e até mesmo em sua própria área.

O filme Hidden Figures (Estrelas Além do Tempo, em português) tenta sanar a obscuridade na qual essas mulheres foram jogadas pelas próprias empresas para as quais trabalhavam. Nele, Taraji P. Henson, Janelle Monáe e Octavia Spencer interpretam Katherine Johnson, Mary Jackson e Dorothy Vaughan, matemáticas e engenheiras aeroespaciais da NASA, responsáveis por calcular as missões Apollo e vários projetos da agência, como o Projeto Mercury. Por serem negras, elas ainda sofreram com a segregação racial, trabalhando em uma área segregada no complexo industrial, chamado de West Area Computers. Elas eram chamadas de "computadores de cor" e eram obrigadas a usar banheiros, ambientes de trabalho e refeitórios diferentes dos colegas brancos. Mas isso não se deu sem resistência delas. Todos os dias, as placar eram removidas do refeitório e dos banheiros, até que alguém misterioso se cansou de colocá-las.

Eu mudava o que podia e o que não podia, eu suportava.

Dorothy Vaughan

Enquanto a NACA (National Advisory Committee for Aeronautics), que viria a se tornar a NASA, acabou com a segregação de banheiros e departamentos nos anos 60, o estado da Virgínia ainda se valia de escolas públicas segregadas e famílias brancas começaram um boicote às escolas, que acabaram fechadas por cinco anos, a chamada Geração Perdida. Para os políticos da época, acabar com a segregação era se igualar aos "comunistas" e desfavorecer os "valores das famílias americanas". As mulheres que começaram como computadores na NACA viriam a se tornar engenheiras da NASA e lá trabalharam por muito tempo, mesmo com o racismo e com o machismo de alguns colegas.


Sempre que alguém disser que mulher não gosta de ciência, explique a respeito dessas mulheres computadores. Toda a ciência aeroespacial do século XX e XXI teve a matemática e a engenharia dessas mulheres. Elas apenas foram esquecidas pelas próprias empresas para as quais trabalhavam e você não aprendeu sobre elas nas aulas de história ou nas aulas de engenharia da faculdade. Felizmente temos escritoras audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve para resgatar seus nomes, seus feitos, suas lutas e trazer para nós.

Vida longa e próspera!

Leia também:
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The first computers were women – these top 8 women shaped space exploration and propelled us beyond the Moon

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Eu só comecei a ler o "Estrelas Além do Tempo" há pouco e já estou lendo cada coisa ainda no início do livro me dando nos nervos a respeito da segregação... deosdoceu.

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