Resenha: O Perfuraneve, de Lob, Rochette e Legrand

quarta-feira, dezembro 28, 2016

Quando assisti a O Expresso do Amanhã fiquei impressionada com o filme. É perturbador, é intenso, com um tema pesado e muitas semelhanças e críticas à realidade e ao nosso momento atual. Quando pesquisei, qual não foi minha surpresa ao descobrir que era baseado em uma série de quadrinhos?

Este livro foi uma cortesia da Editora Aleph




O livro
Quando uma drástica mudança climática acontece, o último refúgio da humanidade é um trem. A composição era, originalmente, um cruzeiro de luxo, que fazia uma volta ao mundo sobre trilhos. Com mil e um vagões e com a confusão que marcou o embarque, mais pessoas do que o permitido acabou vindo à bordo. E assim como nossa sociedade, no trem ela está segmentada de acordo com poder e dinheiro. Lá trás, os vagões apinhados de gente; na frente, pessoas vivendo com conforto. O trem precisa se manter em movimento perpétuo para não ser engolido pelo gelo que acabou com o mundo.


O livro em si contém três volumes, mas o filme é baseado apenas no primeiro. Nos outros dois temos uma melhor visão da composição e de como ela acaba se tornando uma figura mitológica para algumas pessoas. Há uma clara mudança nos traços do primeiro para o outros dois, ficando mais sombrio. O início é uma invasão aos vagões da frente da parte de alguém vindo do fundo, que acaba preso.

O trem é a nossa sociedade em uma situação extrema, fisicamente estratificada, pressionada pelas paredes visíveis do trem e pelas invisíveis da divisão social. Confinados e em rota perpétua, os atritos acabam sendo inevitáveis. Quem assistiu ao filme vai encontrar similaridades com o volume, mas acredito que no filme a ideia ficou melhor amarrada, melhor contada e interpretada.

O que realmente incomoda é que o volume fica apenas na promessa. Os autores não souberam criar os personagens, não souberam desenvolvê-los e suas tomadas de decisão foram péssimas. Enquanto eles acertam muito nas críticas que fazem à sociedade, o desenvolvimento do enredo e dos personagens se perdeu. Completamente. Para quem quiser estereótipos negativos sobre mulheres, aqui temos os três mais usados, mais batidos e mais danosos para a imagem feminina: a namorada do herói, a mulher que morre para incentivar o herói e os objetos de cena. É a isso que se resume a função das mulheres na série.

Em uma sociedade cujo poder reside na mão de poucos, as injustiças se multiplicam. É assim aqui, também é assim nos trens (sim, tem mais de um). Mas os personagens tomam algumas decisões inesperadas, como se a ideia fosse tentar chocar e no fim ficou apenas uma ação sem nenhum sentido. As falas muitas vezes são burras, como quando uma mulher quer ouvir o relato de uma testemunha de como está o mundo lá fora e o cara fala "Como você é linda...". É, bem pertinente mesmo. #sqn

A edição da Aleph é bonita, com papel nobre. É desconfortável de ler por ser grande e pesada, mas isso acomodou bem os quadros nas páginas, o que aumentou o nível do detalhe.

Ficção e realidade
O Perfuraneve não fala de um trem. Ele fala de nós. Que rodamos em círculos, tomando as mesmas decisões equivocadas, que não saímos do lugar, vivendo dia após dia tentando resolver os mesmos problemas, que no dia seguinte voltam. Fala de uma sociedade que não evolui já que ela não vai para frente. Como isso se refletiria nos sobreviventes?

Não é à toa que um determinado grupo lá dentro acredita que eles não estão em um trem, mas sim em uma nave espacial. Há um distanciamento da realidade da parte de alguns personagens que se recusam a ver o trem pelo o que ele realmente é: uma prisão que mantém a todos eles vivos e salvos do frio e do gelo no exterior. Mas isso é vida? Sobreviver é o bastante? Devemos deixar os poderosos com o poder de decidir por nós, mas que decidem por si próprios, até quando? Este é o maior mérito de O Perfuraneve.

Pontos positivos
Distopia
O trem
Foi adaptado para o cinema
Pontos negativos
Leitura devagar
Estereótipos femininos
Violência

Título: O Perfuraneve
Título original: Le Transperceneige
Autores: Jacques Lob, Jean-Marc Rochette e Benjamin Legrand
Editora: Aleph
Páginas: 270
Ano de lançamento: 2015
Onde comprar: Amazon (não se assuste com a capa, pois ela está por baixo da capa extra do filme)

Avaliação do MS?
Gostaria de ter tido mais prazer em ler esta imensa HQ. As críticas são bem pertinentes, não há nada de diferente, com exceção do trem, nela, pois é tudo muito familiar. A execução poderia ser melhor, os personagens poderiam ser mais críveis, as mulheres com menos estereótipos. Três aliens para o trem de movimento perpétuo.


Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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2 comentários

  1. Eu confesso que não comprei essa história tão bem quanto as outras pessoas parecem ter comprado... (No seu caso, o filme.) Eu só assisti à adaptação da obra, mas achei tão inverossímil aquelas pessoas naquele trem de loop eterno que, mesmo a minha suspensão de descrença, que ocorre tão facilmente, não conseguiu admitir essa. Mesmo sabendo que é quase uma fábula, metafórica e tal. Acho que achei demais. E ficava o tempo todo perguntando: quem faz manutenção nesse tanto de trilho? kkk

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  2. Vi sua resenha d'O Expresso do Amanhã,também não sabia que era originário de quadrinhos. Gosto da objetividade e sinceridade em tuas resenhas!

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