Resenha: Exorcismo, de Thomas B. Allen

sábado, novembro 05, 2016

Influência de espíritos? Possessão demoníaca? Esquizofrenia? Em que acreditar quando uma criança assume comportamentos estranhos e diversas denominações cristãs têm opiniões diferentes sobre o assunto? É o que Thomas B. Allen tenta explicar em seu livro Exorcismo, publicado pela Editora DarkSide.

Este é mais um livro do Desafio Literário 2016!



O livro
Primeiro aviso: não pegue este livro para ler esperando um romance sobrenatural, um livro de terror, com monumentais reviravoltas no enredo, sangue, tripas e sopa de ervilhas. Este é um livro documental. Thomas B. Allen nos leva à uma jornada histórica sobre o significado do exorcismo, tanto para protestantes quanto para católicos e faz uma narrativa analítica sobre os relatos de um suposto exorcismo de um garoto, no final dos anos 40. Se você espera uma narrativa sobrenatural e ficcional, está perdendo seu tempo.


Robert Mannheim é um nome fictício para o garoto de vida provinciana, em St. Louis que, após uma brincadeira boba com um tabuleiro ouija que sua tia Harriet trouxe, passa a ter um comportamento bizarro. A tia se dizia uma espiritualista e explicou que os espíritos podiam mover a planchette para se comunicar com os vivos.

A família começa a perceber que o corpo do garoto apresenta marcas estranhas. A casa tem barulhos persistentes, quadros chacoalham nas paredes. E Robert sempre estava por perto quando esses eventos aconteciam. Depois de buscarem ajuda com médicos para socorrer o garoto, eles acabaram procurando um pastor luterano, que conversou várias vezes com a família, conversou com Robert, testemunhou os fenômenos, mas não deu resposta para o que estava acontecendo.

Luteranos e católicos possuem visões diferentes sobre possessão demoníaca, tanto que o pastor procurado pela família não podia ajudar no caso. O exorcismo em si é longo, burocrático, um trabalho exaustivo que dura vários dias e que os luteranos entendem como apenas uma ação exibicionista do diabo. Thomas explica com bastante propriedade a diferença entre as filosofias e resgata a história por trás do exorcismo.

A fonte da crença cristã no exorcismo foram as descrições de Satã em uma luta titânica contra Jesus no Novo Testamento. Sob essa teologia, uma maneira que Satã tinha de demonstrar seu poder era possuir pessoas e uma maneira que o Messias tinha de demonstrar seu poder era exorcizá-lo.

Página 35

Thomas tinha em mãos o diário de um dos padres católicos que realizou o ritual do exorcismo, coisa que o autor do livro O Exorcista não tinha. Por isso alguns detalhes são repetitivos e cansativos, o que demonstra também como o ritual em si é burocrático até mesmo para a igreja. O autor ainda discorre longamente sobre outras causas para o comportamento do adolescente, como problemas mentais, autismo, até esquizofrenia.

Algumas coisas para mim foram risíveis. Como a parte em que o padre quer converter Robbie para o catolicismo de forma a aumentar a força que combatia a possessão. Sério? Eu morri de rir nessa parte. Me pareceu um detalhe absolutamente insignificante para o trabalho que vinham fazendo. Em outras partes, o tom é mais racional, explicando problemas de tradução na Bíblia, erros de interpretação e a opinião de estudiosos e padres sobre o exorcismo. Nesse sentido o livro guarda uma grande riqueza, pois percebe-se que a pesquisa foi primorosa.

A edição da DarkSide está impecável. Capa dura, com tabuleiros ouija nas contra capas e duas panchettes, se você quiser se arriscar a falar com os espíritos. Poucos erros de digitação e uma arte primorosa estão no interior. No final está a transcrição do diário do padre que executou o ritual e uma extensa bibliografia citada por capítulo.

Ficção e realidade
O livro O Exorcista não foi totalmente baseado no caso de Robbie, são vários casos mesclados em um só, usando inclusive relatos do exorcismo de Robbie para compor a obra de ficção. Segundo Thomas, um dos padres do caso de Robbie estava nos cinemas quando O Exorcista estreou e achou que a ficção estava bem longe da realidade que ele acabou presenciando, saindo horrorizado do local.


Um dos questionamentos de Exorcismo é se Robbie realmente estava possuído. Opinião pessoal: não. E o próprio autor dá várias possíveis respostas para o que o afligiu naqueles dias. Não bastasse o comportamento bizarro dele, explicado pela psiquiatria, a mente humana é facilmente influenciável. Qualquer barulho estranho poderia ser aumentado pelos espectadores de forma a parecer muito maior do que realmente era. Um triste episódio psiquiátrico pode ter desencadeado todo o sofrimento que a família presenciou.

Pontos positivos
Relatos precisos
Análise histórica e religiosa
Anotações do autor e do padre
Pontos negativos
Leitura flui devagar
Não é ficcional

Título: Exorcismo
Título original: Possessed
Autor: Thomas B. Allen
Tradutor: Eduardo Alves
Editora: DarkSide
Páginas: 270
Ano de lançamento: 2016
Onde comprar: Amazon


Avaliação do MS?
Este é um livro bastante denso, com muitas informações. Há momento em que é preciso parar e absorver todos os dados mostrados. Mas também pode ser bem chato, como nas idas e vindas dos padres e seus sermões sobre o garoto e nas intermináveis orações e toda a burocracia do ritual. Se essa era a ideia do autor, parabéns, ficou chato mesmo entender toda essa complicação. No mais, o mérito do livro é pela pesquisa histórica, pelo cuidado no tratamento das informações e nas explicações adicionais para o evento. Três aliens para Exorcismo.


Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Engraçado que demorei pra saber que esse livro era sobre o caso de exorcismo que inspirou o Exorcista. A princípio me interessou muito. Mas desanimei imaginando que seria uma ficção disfarçada, com exageros e sem registros do caso.

    Bom saber. Mais um pra lista.

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