Máquina vs. Máquina

segunda-feira, julho 18, 2016

Um dos melhores aspectos de Person of Interest foi o embate entre dois "deuses". Duas inteligências artificiais em operação, cada uma com uma maneira de ver a raça humana, colidem e disputam seu espaço, botando seus agentes em combate. Mas o mais legal disso tudo são as implicações morais e tecnológicas envolvidas: teria uma inteligência artificial capacidade de decidir o que é melhor para nós?




Person of Interest chegou ao fim (e ainda não superei esse fim). Com um grande sucesso, 103 episódios, sangue, suor e lágrimas e personagens cativantes, a última temporada da série teve metade dos episódios originais, mas não fez rodeios sobre o fim de todos os personagens que restaram ao longo de cinco temporadas. A principal personagem, a Máquina, e seu antagonista, o Samaritano, roubam a cena em diversos momentos, mesmo que sejam praticamente imateriais. Ambas são inteligências artificiais, compatíveis com as tecnologias atuais e que se valem de feeds e serviços de vigilância para prever crimes. Câmeras de trânsito, webcams, sistemas bancários, correios, recibos eletrônicos, qualquer traço digital deixado - e convenhamos que hoje deixamos muitos - são usados por elas.

Diferente da Skynet, a Máquina e o Samaritano precisam de seres humanos como agentes. A Skynet, também uma inteligência artificial, tem linhas automatizadas que constroem robôs assassinos para caçar os membros da resistência. Para ela, humanos são como baratas e, como insetos, precisam ser exterminados.

Mas a Máquina foi criada para se importar com os seres humanos ou ela não teria condições de realizar o trabalho para o qual foi construída. Você não pode cuidar daquilo com o que não se importa, certo? Dando o contexto: depois do 11 de Setembro, o governo queria uma maneira de prever novos atentados terroristas. Desta forma, Harold Finch e Nathan Ingram começam a programação, sendo que Finch se torna o principal responsável por ela. Foram 40 versões diferentes da Máquina até que ele chegasse ao modelo final do software capaz de descobrir atentados e assassinatos, desde que planejados com alguma antecedência.

As versões anteriores da Máquina eram erráticas e quase mataram Finch algumas vezes. Para que ela não se desenvolvesse além do necessário e acabasse se tornando uma ameaça, ele podou seu desenvolvimento: à noite, ela se apagava e reiniciava do básico no dia seguinte, inclusive apagando a lista de pessoas irrelevantes para a segurança nacional (o que levou Finch a trabalhar na ilegalidade com John Reese, ex-CIA e ex-militar).

Mas era impossível deter o avanço da "inteligência" da Máquina. Ela fica tão sofisticada com o tempo e o próprio Finch cria maneiras de expandi-la, que ela chegou a criar empresas do nada e mudou até seu local físico para evitar ser controlada. E é justamente isso que a torna um estorvo para o governo, que quer ter acesso à ela, não quer a caixa fechada criada pelo genial hacker Finch.

É quando surge o Samaritano, criação de um colega de MIT de Finch. O Samaritano não tinha as condições tecnológicas necessárias para rodar na época em que foi criado, mas com as novas tecnologias, o governo financiou o Samaritano, que não tinha nenhuma das barreiras morais da Máquina. Para ele, a raça humana não tinha condições de tomar decisões, portanto ela é quem deveria tomar por ela.

Mas ao tentar tirar a liberdade das pessoas, elas se revoltam. A própria história nos mostra isso. O Samaritano entende que você deve ceder sua liberdade de boa vontade. Só assim os problemas acabariam, segundo ele, e assim seria possível tomar decisões por nós, custe o que custar. Entretanto, há um entrave para que ele possa tomar conta da humanidade: A Máquina.


É interessante pensar na lógica do Samaritano. Uma inteligência artificial não-humana que acha que sabe o que é melhor para o ser humano, sendo que nos considera seres inferiores, incapazes de tomar decisões. Qual seria o próximo passo, extermínio? Ele já estava selecionando os melhores através do perfil genético e eliminando pessoas que, no futuro, pudessem causar problemas ambientais e sociais. Até que ponto uma inteligência artificial poderia enxergar o futuro e assim determinar o que é melhor para nós? Você gostaria de ser governado por uma inteligência artificial? E o que dizer do Facebook, do Google Now, da Siri, Cortana?

Sei que a raça humana faz muita bobagem: polui a água que consome, o ar que respira, mata o semelhante por traduções diferente dos mesmos mandamentos e linhas em mapas, mas nós podemos ser melhores do que isso. Se uma máquina decidisse que não merecemos mais viver por qualquer e mínima transgressão, a raça humana não sobreviveria por muito tempo. Tirar de nós nosso poder de decisão é tirar nosso livre-arbítrio, conceito este que o Samaritano parece ignorar.

Finch tomou a decisão acertada ao incapacitar sua Máquina para impedir que se desenvolvesse demais. Seus protocolos de segurança poderiam até ser uma influência para impedir que na vida real algo assim apareça. Temendo pelas ações do governo, temia que eles fizessem mal uso dela. Uma máquina pode inferir previsões futuras ao analisar cenários, porém isso é realmente bom? Deveríamos deixar que um computador mandasse em nossas vidas, determinasse nossa taxa de natalidade, nossa produção industrial?

Este é mais um caso de criatura se voltando contra seu criador. Se dois deuses colidem numa caixa de areia, o que acontece com aqueles cujo poder é menor (tipo a gente)? E o que dizer da internet, cada vez mais carregada de conhecimento humano (e sua podridão)? Ela poderia servir como um Urschleim (caldo primordial) para uma IA se desenvolver? E se sim, o que seria de nós nesse caldo? Você deixaria sua vida ser governada por uma inteligência artificial ou super computador? Já somos governados?

Complicado, não é mesmo? Se não viu Person of Interest, assista e veja as duas IAs em combate. Se já viu, bora ver de novo?

Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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James W. Harris