Por que Person of Interest é uma das melhores séries de ficção científica?

segunda-feira, fevereiro 22, 2016

Person of Interest é um dos grandes sucessos da televisão. A série trata de uma Máquina, uma inteligência artificial capaz de prever crimes, um dos resultados da paranoia adquirida com os atentados de 11 de Setembro. A série não apenas conta com uma inteligência artificial, como também faz duras críticas ao governo, utilizando-se de uma ciência plausível e de um confronto de emoções e de tecnologia.




A série
Criada por Jonathan Nolan e produzida por J. J. Abrams, ela é transmitida, originalmente, nos Estados Unidos pela CBS, tendo estreado em 22 de setembro de 2011. No Brasil é transmitida pelo Warner Channel. É uma série que é parte policial, parte uma distopia, carregada de momentos tensos, emotivos e de um humor ácido muito bem colocado. Os personagens não são rasos, ao contrário, apresentam vivência prévia, sempre demonstrada nos episódios. O mais interessante é que a personagem principal, a Máquina, é imaterial. Nós não a vemos em nenhum lugar.

A Máquina está em todos os lugares.

Finch

Harold Finch é um bilionário recluso e gênio da computação. Após os atentados que destruíram as Torres Gêmeas, ele e seu sócio, Nathan Ingram, dão início a um projeto audacioso: criar uma máquina que seja capaz de prever crimes contra o país. Foram anos codificando e ensinando à inteligência artificial a enxergar os eventos e conexões que levam aos criminosos para prendê-los antes que seja tarde. Utilizando-se de acesso irrestrito às câmeras de vigilância, documentos pessoais, registros policiais, acadêmicos, multas de trânsito, a Máquina exerce um olhar vigilante sobre qualquer ação suspeita.

A série apresenta flashbacks constantes, mostrando como foi a codificação, como a máquina foi treinada, como foi difícil inicialmente para que ela agisse de forma segura. Finch precisou podar sua própria criação para que a IA não desenvolvesse uma personalidade vingativa ou descontrolada. Já existem casos documentados de robôs que perderam o controle, como o da Toshiba, que encurralou uma pesquisadora do laboratório e não queria liberá-la antes que ela lhe desse um abraço, em 2009. Isso na vida real. Se contarmos a Skynet e HAL, veremos que Finch tinha uma preocupação genuína.

Mas a Máquina apresenta um efeito colateral: não apenas vê os casos relevantes para a segurança nacional, como vê casos tidos como irrelevantes também. Pessoas comuns que planejam matar outras pessoas comuns. Como a Máquina só enxerga os CPFs das pessoas, é preciso um trabalho de investigação sobre eles antes de impedir as ameaças. Mas e as pessoas da lista irrelevante? Bem, Harold programou a máquina para se apagar todos os dias, à meia-noite. E com isso ela apaga também a lista irrelevante.

Nathan Ingram não podia viver com isso e criou uma porta secundária de acesso aos dados irrelevantes antes de entregá-la ao governo. Ele tentava salvar as pessoas da lista em segredo. Quando Ingram morre, Finch fica sozinho com essa tarefa. Como sozinho ele não poderia cuidar de todos os casos, acaba recrutando um ex-militar e ex-agente da CIA, desiludido com o sistema depois de perder o amor de sua vida, John Reese. Os dois são como MasterBlaster de Mad Max 3: um é o cérebro, o outro é a força bruta.

Finch e Reese

A Máquina, no entanto, lida com a dualidade do sistema criminal. Quando um número é liberado, Finch e Reese não sabem se estão lidando com a vítima ou com o perpetrador do crime. Dessa forma, eles precisam de um tempo de observação, espionando as pessoas, para saber quando interferir. No caso de Elias, um chefe do crime que dá muita dor de cabeça para a cidade, ele era tanto vítima quando criminoso.

As ações de Finch e Reese não são bem vistas, logicamente. A detetive Joss Carter quer prender o "homem de terno", o qual julga ser o responsável por diversos crimes pela cidade, quando na verdade ele está tentando pará-los. De dentro da polícia, existe o policial corrupto, detetive Lionel Fusco, que ajuda Reese e Finch, dando informações e dados de fichas policiais. São vários os episódios em que é preciso utilizar a ajuda de gangsters e outros bandidos, até mesmo alianças e trocas de gentilezas entre eles.

As críticas
Assim que o 11 de Setembro mudou a história da humanidade, uma série de acontecimentos se sucedeu e estamos ainda colhendo seus frutos amargos, como o Estado Islâmico. As pessoas estavam tão assustadas com a possibilidade de um novo atentado que estavam dispostas a abrir mão de suas liberdades civis e individuais para que o governo pusesse as mãos em terroristas.

O Ato Patriótico (Patriotic) da gestão do governo Bush (Provide Appropriate Tools Required to Intercept and Obstruct Terrorism) visava gerar ferramentas necessárias para interceptar e obstruir atos de terrorismo. Então, PoI já lida com essa questão logo de cara, quando a máquina é construída e vendida ao governo.

Mas uma das reclamações de quem a comprou é que não é possível controlá-la. Como lidar com uma caixa fechada e inacessível? Finch não queria que ela fosse usada para nada além de prevenir novos atentados, mas os políticos e agentes que a usam para prever atos terroristas gostariam de ter acesso irrestrito à ela. Na busca por controlar a Máquina, eles acabam esbarrando com outro equipamento de grande potencial, criado por um ex-colega de MIT de Harold. Era o Samaritano, um sistema de inteligência artificial semelhante à Máquina, porém sem as amarras que a tornariam segura.

O embate entre duas IAs é algo que não se vê todo dia, ainda mais na ficção científica. As duas se valem da tecnologia de acesso irrestrito a computadores e servidores e se digladiam através de seus agentes. A Máquina foi capaz de criar uma empresa e um presidente fictício para ela e o Samaritano controla uma cidade inteira apenas com emails e manifestos. Quando quis demonstrar seu poder, o Samaritano jogou a cidade num caos e quase destruiu o mercado financeiro.

A série toca em outras questões sensíveis, como a corrupção dentro da polícia, o que custa à detetive Carter seu distintivo e cargo. Temos uma Hannibal Lecter dos computadores, Root, que flerta com Shaw o tempo inteiro, de forma cada vez mais provocante e que queria libertar a Máquina das amarras impostas por Finch. Sameen Shaw entrou na série para ajudar Reese a proteger os números que a Máquina envia e também para substituir o ator Jim Caviezel, de 47 anos, em várias cenas.

Reese e Shaw

A Máquina é uma materialização mais convincente da Divisão Pré-Crime de Minority Report. Enquanto em MR nós temos os pré-cogs, em PoI temos algo material, algo que é fruto da engenharia humana. Finch tentou fazer dela algo benéfico, mas a sina humana motivada pelo egoísmo quer controlá-la. E como Root gosta de dizer, não se controla Deus, certo? Tentaram impedir o Samaritano de ir ao ar, e no máximo conseguiram se camuflar dele.

Outros questionamentos que a série faz são com relação à natureza da privacidade individual. Precisamos perder nossa privacidade para garantir a segurança de todos? O bem-estar do coletivo é mais importante que o bem-estar individual? Qual é a espessura da linha entre segurança nacional e invasão de privacidade? Além disso, que direitos têm os cidadãos de fazer justiça com suas próprias mãos?

Existem casos de violência doméstica, onde a máquina mandava várias vezes os mesmos números de CPF de várias mulheres, o que mostrava que elas viviam com companheiros que um dia viriam a matá-la. Temos casais gays, brigas de gangues e corrupção no governo, além de uma brilhante filosofia tecnológica que nos faz pensar em o quanto queremos ser vigiados. Os próprios protagonistas nem sempre se entendem e Reese chegou a se demitir uma vez. São complexas interações humanas girando em torno de uma inteligência artificial.

É uma série que todo mundo deveria assistir, não apenas pelas críticas, mas para se divertir. Ela está indo para a 5ª temporada, portanto tem bastante coisa pra você ver. Se já assiste ou não, não deixe de comentar.

Até mais!



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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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4 comentários

  1. Cheguei a ver um episódio ou outro uns anos atrás, mas confesso que não me empolgou muito. Vou dar uma segunda chance depois dessa defesa, talvez revendo desde o primeiro eu me empolgue mais com ela!

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  2. sempre quis ver essa série. seu excelente texto, informativo e crítico, foi o empurrão que eu precisava pra começar a assisti-la. agora só não gostei de tomar aquele spoiler da agente carter rs continue com o ótimo trabalho

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  3. Adoro essa série, sempre indico ela para os amigos, e fiquei muito feliz quando vi mais alguém dando a devida atenção e reconhecimento que esta série merece. Vlw Sybylla

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  4. Quinta e última temporada... Infelizmente.

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