Você é viciado em ficção?

quarta-feira, julho 22, 2015

Eu sempre digo que tenho um grande problema em ler qualquer coisa fora da ficção científica. Mas na verdade, acho que meu grande problema é ler coisa que são de não-ficção. Ficção científica é meu gênero principal, seguido dos romances históricos e de thrillers científico-policiais. Comecei a ler não-ficção com mais intensidade apenas este ano (se desconsiderarmos as leituras obrigatórias dos estudos). Será que eu sou viciada em ficção?





O hábito e o hobby da leitura vieram da escola. Estudei num colégio de freiras franciscanas onde tínhamos carteirinha da biblioteca, éramos incentivados a frequentá-la nas pesquisas escolares, tínhamos que retirar livros e escrever resumos sobre eles desde a 2ª série. Sei que tive sorte, pois pude estudar em um colégio particular por boa parte da minha vida escolar, enquanto muitas escolas pelo país, especialmente as públicas, nem ao menos têm uma sala de leitura.

Na adolescência eu já tinha assinatura da Superinteressante e líamos clássicos universais na sala de aula como Dom Quixote, Machado de Assis, além da Coleção Vaga-lume. E apesar de sempre ter gostado de ter e manusear livros, o Kindle me fez perceber que minha paixão não é pelos livros e sim pela leitura. E essa paixão pela leitura também acabou segmentando meu gosto. Ficção sempre foi o meu preferido. Não consigo ler biografias e livros de não-ficção precisam ser bem específicos, em geral sobre ciência envolvida na minha formação - geografia, educação e paleontologia.

O vício
Mas a questão aqui é "você é viciado em ficção?". Poderia ser "viciado em livros ou leitura?", mas acho que você entendeu. Dessa maneira, fui atrás da definição de "vício". Vício vem do latim "vitium", que significa "falha ou defeito". Mas há mais:

substantivo masculino
1. defeito ou imperfeição grave de pessoa ou coisa.
2. qualquer deformação que altere algo física ou funcionalmente.

s.m. Dependência física ou psicológica que faz alguém buscar o consumo excessivo de uma substância, geralmente alcoólica ou entorpecente: vício de fumar.
P.ext. Mania; costume de fazer sempre a mesma coisa.
Defeito; incorreção observada em algo ou alguém: vício de formação.
Toda alteração que prejudica o funcionamento de alguma coisa. Depravação; tendência para provocar o mal ou ter ações contrárias à moral.
P.ext. Falta de correção gramatical ou em outra área: vício de linguagem.
(Etm. do latim: vitium.ii)

Sinônimos de vício: defeito, depravação, mania, pecado e perversão

"Sou viciada e não aguento mais"

Acho que se olharmos por esse viés, vai ficar difícil que falar em "vício em ficção" seja algo bom, não é mesmo? Não é à toa que tantos tabus e preconceitos recaem sobre viciados em drogas ou em bebidas. O vício é visto como algo que não devemos praticar, um pecado, uma abominação. Mas funciona só para algumas coisas. Se você disser que é um viciado em café, capaz que seus amigos digam a mesma coisa. Se disser que é viciado em crack, eles vão mudar de atitude. Para a maioria das pessoas e até para mim anos atrás, o vício era uma fraqueza moral. Como diz um dos sinônimos de vício, um 'defeito'.

O vício como falta de conexão
Teríamos que ver o vício por outro viés então. Johann Hari escreveu o livro Chasing The Scream: The First and Last Days of the War on Drugs. Suas observações e vivências com viciados em drogas e bebidas o fez perceber que o problema de um viciado não é a droga. É muito simplista dizer que o problema do viciado em cocaína é a cocaína em si. Ou a heroína. Ou a maconha. O problema seria a conexão que ele estabelece com a droga, quando na verdade deveria estabelecer uma conexão com outros seres humanos.

A conclusão de que quem usa drogas vai se viciar e pronto, ele tem uma fraqueza moral, advém muito de experimentos usados em campanhas anti-drogas nos anos 80, mostrando ratos em gaiolas. O rato, que estava sozinho, tinha duas garrafinhas de água à disposição: em uma a água era apenas água, em outra ela estava misturada com cocaína ou heroína. O rato acabava obcecado com a água drogada e bebia até morrer. Pronto. Está aí a explicação do porque termos uma guerra contra as drogas. Todos os experimentos mostravam ratos viciados.

Mas Bruce Alexander, um professor de psicologia de Vancouver notou que neste experimento o rato estava sempre sozinho. Sua única ocupação era a de usar a droga. Alexander, assim, criou o Rat Park. É uma gaiola com outros ratinhos, bolas, túneis e comida da boa, além de duas garrafinhas com água, uma drogada, outra não. Os ratinhos tomaram a água das duas garrafinhas, mas pouco tempo depois começaram a desdenhar da água drogada. Eles a consumiram cada vez menos e nenhum se tornou dependente. Ou seja, o problema do vício não estava nos ratos e sua fraqueza moral para a água batizada. E sim na gaiola fria onde ele ficava isolado sem estabelecer conexões afetivas com outros ratinhos.

Foto de Mikael Kristenson

Toda essa discussão de vício e dependência de um mundo de ficção me veio à cabeça depois que li Jogador Número 1, de Ernest Cline. Chega um momento em que o protagonista, um adolescente chamado Wade, se isola completamente do mundo. Pinta as janelas do apartamento de preto, compra tudo pela internet e recebe sem precisar abrir a porta. Usa uma roupa que recolhe seus dejetos para que ele não precise levantar da cadeira enquanto fica conectado ao OASIS, a rede de simulação de realidade onde passa grande parte de seu tempo. Sua pele fica totalmente branca por falta de contato com a luz do sol e precisa tomar suplementos vitamínicos para não adoecer. Para não perder tempo, ele também não tinha mais barba, nem nenhum cabelo pelo corpo. Seus melhores amigos eram todos do OASIS.

Chega um momento em que o personagem percebe que sua vida isolada não é das melhores. Mas ele está tão concentrado em encontrar o ovo, escondido em algum mundo do OASIS, que deixa a vida social e as conexões com as pessoas de lado. Esse enredo todo bateu de frente com o texto de Johann Hari. Faltavam conexões pessoais para a vida de Wade.

Anne Billson comentou na sua coluna no The Telegraph a respeito do vício em mundos de fantasia que levam milhares de fãs para as feiras e encontros vestidos de Daenerys Targaryen ou de Spock, ou de Jim Raynor, Coringa ou Super Homem. Saber de cabeça todos os episódios da série clássica de Star Trek ou usar o robe Jedi na estreia de um novo filme de Star Wars é uma tentativa de escapar dos horrores do mundo moderno? Ou é apenas coisa de fã, de gente que se apaixona por um determinado enredo e quer saber tudo sobre ele?

Tido como o "ópio das massas" (parafraseando Marx com sua ideia sintetizada de que "a religião é o ópio do povo"), os mundos de fantasia - aqui acho que podemos colocar os grandiosos mundos criados pela ficção em geral - seriam um escape e uma diversão intensa para todos aqueles que se vestem, tatuam símbolos e logos, aprendem idiomas alienígenas e até praticam o jedaísmo. Mas seria um vício? Será que nossos gostos tidos estranhos, "gostos nerds" seriam um dos motivos pelos quais tanta gente torce o nariz para eles? Qual nerd nunca foi hostilizado por curtir algo?

Óbvio que é uma visão simplista, mas a falta de conexão com as outras pessoas poderia nos fazer entrar de cabeça em mundos da ficção como se ali pudéssemos encontrar algum conforto. Quantas vezes nós nos apegamos a algum personagem e depois ficamos ressentidos com a morte dele? Quantos fãs não fazem escândalo cada vez que alguma coisa muda no seu mundo de fantasia (sem tom pejorativo) por que era aquilo que lhe dava segurança e prazer por horas seguidas, sem ter que conviver com outro ser humano? Quantos de nós nos isolamos no nosso apartamento com janelas pretas e submergimos nos mundos simulados pela ficção para não ter que olhar pela janela do nosso próprio quarto?

Eu nunca pretendi responder à pergunta "você é viciado em ficção?". Apenas tive vontade de trazer isso à baila diante de tanta insatisfação da parte das pessoas com coisas que não deveriam nos atingir tanto. Quer reação mais desproporcional do que aquela que Os Caça-Fantasmas com um elenco feminino recebeu? Além de toda a misoginia escancarada na questão, quantos fãs não sentiram que estavam perdendo algo muito bom por causa disso, quando na verdade a coisa só mudou para melhor?

Arte de Guy Shield

A reflexão fica aí. Quem quiser trazer o assunto (educadamente, claro), para os comentários, por favor, fique à vontade. Ficção é tão viciante? Ou somos ratinhos sozinhos em gaiolas com garrafinhas de água drogada à disposição?

Até mais.



Leia mais:
Amazing Stories Mag
Addiction in Science Ficton
Are you addicted to a fantasy world?
Descoberta a provável causa do vício. E não é o que você pensa



Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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2 comentários

  1. Puxa!. Creio que me vi retratado nesse texto. Rsrs Acho que o mundo real é tão chato e sem graça, tão cheio de problemas e traumas (e as terríveis "Contas para pagar"), que os livros são uma porta que nos levam para universos distantes, uma válvula de escape que, mesmo com seus terrores e perigos, são mais eficazes que terapia e drogas. Claro, nem toda paixão por leitura se reduz a combater problemas psicológicos, ansiedade ou depressão. Ler, por si só, é apaixonante. O prazer de imaginar uma cena, de ver como personagens lidam com seus desafios, imaginar a descrição de um cenário ou passear pela mente de um personagem são experiências fascinantes que só quem ama ler consegue desfrutar. Mas, sim, também é prazeroso colecionar esses objetos mágicos feitos de papel e tinta (ou apenas pixels). O modo como as palavras se combinam para formar ideias, imaginar oe tempo e espaço, o futuro ou vidas anos-luz além é viciante! As "palavras" escritas são o maior legado da raça humana. Vamos deixar de existir, mas o registro de nossa história como sociedade se perpetuará por gerações graças à escrita. Que histórias sobre nós o povo do futuro lerá? Que características de nossa era serão estudadas pelos arqueólogos do futuro? Que leitor do futuro se tornará um viciado em nossa cultura? (Essas ideias são igualmente viciantes! rsrs)

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  2. Eu já tenho consciência de que meu relacionamento com ficção vai além do gostar faz tempo e não me incomodo. Acho que até chega perto de ser patólogico às vezes, mas ainda é bem funcional esse vício para mim. E acho que vai continuar assim enquanto eu, como você disse no texto, ainda tiver boas conexões com a realidade. Mas sou completamente dependente de ficção e me enxergo muito numa música do The, Mars Volta que diz: "I need sanctuary in the pages of this book"

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"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris