Resenha: Enterrem Meu Coração na Curva do Rio, de Dee Brown

quinta-feira, julho 09, 2015

Este foi um livro extremamente difícil de ler. Quando estudamos a história, em geral, temos a visão do vencedor. Por isso que temos tantos filmes de faroeste com pioneiros inocentes sendo roubados e saqueados pelos vis índios que despontam na paisagem de maneira violenta. Nada podia ser mais errôneo do que este tipo de visão, que além de estereotipada é extremamente danosa. Este livro conta a chegada dos "pioneiros" pelo olhar dos invadidos.




O livro
Normalmente, nas aulas de história, aprendemos que os portugueses chegaram aqui e a colonização começou. Mas a história dos indígenas acaba apagada, como se a era pré-cabralina nunca tivesse existido. Esse é um problema que não é só nosso. Nomes de tribos indígenas dos Estados Unidos se popularizaram como Comanche, Apache, Cherokee, mas os rostos e dramas por trás destes nomes não são conhecidos ou são apagados.


Foi por isso que Dee Brown se esforçou para resgatar os relatos dos povos indígenas e dar-lhe a devida atenção, por tanto tempo negligenciada pelos pesquisadores. Ele passou semanas em bibliotecas e cartórios em busca de registros dessa época e dos dois séculos de luta dos povos indígenas contra o governo das colônias e, posteriormente, dos Estados Unidos, que avançava rumo ao oeste sem piedade.

A colonização do território dos Estados Unidos foi feita não sobre o suor do pobre peregrino expulso da Inglaterra, mas sim por cima do sangue dos povos nativos. O autor resgata tratados e personagens que atuaram nestes tratados, que prometiam segurança e paz para as tribos, mas que eram descumpridos na estação seguinte quando alguém descobria uma nova jazida de ouro ou caso precisassem passar uma nova ferrovia.

Os chefes indígenas como Cavalo Louco, Chaleira Preta, Nuvem Vermelha, Touro Sentado tiveram seus nomes quase apagados da história. Este último foi um dos mais importantes chefes indígenas e escreveu uma carta ao então presidente Franklin Pierce, que você pode ler aqui. Os europeus vinham de um contexto civilizatório totalmente diferente da cultura indígena e não se esforçou para compreendê-la. Os povos nativos não tinham o conceito de propriedade privada e lucro, além de ter somente flechas e pedras para lutar contra canhões e espingardas.

Vários relatos de violência brutal com o escalpelamento de mulheres, idosos e crianças por parte do Exército, morte de cavalos e animais para matar os nativos de fome, confisco de alimentos e cabanas para dobrar os nativos pela fome e pela miséria para confiná-los em reservas estão no livro, quando na verdade eles precisavam de liberdade para caçar búfalos e se movimentar por um território que sempre foi deles.

Touro Sentado, Tatanka Yatanka

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um pedaço de terra é igual a outro. Porque ele é um estranho que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga e, depois de explorá-la, ele vai embora. Deixa para trás o túmulo do seu pai, sem remorsos de consciência. Rouba a terra dos seus filhos. Nada respeita. Esquece as sepulturas dos antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrecerá a terra e vai deixar atrás de si os desertos. A vista de tuas cidades é um tormento para os olhos do homem vermelho.

Chefe Touro Sentado (Tatanka Yatanka)

O livro foi muito bem pesquisado e tem passagens assustadoras e muito tristes. Os relatos de tristeza e confusão dos chefes nativos com as decisões do governo e de como o homem-branco mente para eles são muito fortes. Houve alguma confusão com o excesso de nomes e descrições feito pelo autor, que faleceu em 2002. Em alguns momentos não temos linearidade dos eventos e pulamos de uma década para outra e voltamos de novo. Isso pode confundir o leitor. O livro começa com uma introdução de Dee Brown e logo em seguida ele relata os eventos de 1860, onde houve os massacres das nações Wampanoags e Narragansetts, Iroquois, e Cherokee.

Toda a ação dos colonizadores estava amparada em The Indian Removal Act, assinada pelo presidente Andrew Jackson em 28 de maio de 1830. A lei autorizava o presidente a negociar com as tribos para a sua remoção para territórios federais a oeste do rio Mississippi (onde hoje é Oklahoma) em troca de suas terras ancestrais. É quando surge o Caminho das Lágrimas, que reúne os períodos de remoção, em geral à força, dos povos de suas terras originais para uma reserva pequena que deveria acomodar todos eles.

Ficção e realidade
"Mas o que isso tem a ver com ficção científica?", um leitor pode se perguntar. Pegue qualquer enredo em que alienígenas invadem a Terra, tomam nossas cidades, matam as pessoas e agora transporte o conflito entre colonizadores e povos nativos para essa alegoria. É exatamente a mesma coisa. Povos superiores, com consciência diferente, modos diferentes, chegam em um território novo e ignoram os povos que antes lá viviam. Se não fosse o trabalho de autores como Dee Brown, conheceríamos apenas a visão dos vencedores.

Se você acha que isso está longe no passado dos Estados Unidos, pergunte-se sobre a tribo dos Goyá. O nome da tribo deu origem ao estado de Goiás e a tribo foi extinta ainda no século XVIII e não se tem nem mesmo uma descrição de como seriam ou seus modos de vida. O passado de Enterrem Meu Coração na Curva do Rio não está nem um pouco distante de nós, onde membros da bancada ruralista do nosso governo falam dos indígenas como "meia dúzia de índios e alguns vagabundos pintados". Esta frase é do deputado Alceu Moreira (PMDB-RS).


Pontos positivos
Relatos dos nativos
Eventos reais
Não é um faroeste
Pontos negativos
Homem-branco
Violência
Muitos nomes

Título: Enterrem Meu Coração na Curva do Rio
Título original: Bury My Heart at Wounded Knee
Autor: Dee Brown
Editora: L&PM
Páginas: 396
Onde comprar: Amazon (pocket book)


Avaliação do MS?
Este é um livro de leitura obrigatória. Não tenho como colocar de outra forma, pois genocídios como esse não podem ficar perdidos na história. Eles precisam ser constantemente lembrados para que possamos ver a que ponto chega a estupidez humana. Sei que muita gente acha que era um dever dos povos brancos em vir para as Américas. Acontece que nada justifica massacre e matança indiscriminada. Nada justifica o que ainda acontece com aqueles que pensam de um modo diferente da maioria. X-Men taí que não nos deixa mentir e é um trabalho de ficção.

Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Oi... excelente comentário. Li este livro quando fazia meu segundo grau... fiquei fascinado porque eu também"era" fã dos "mocinhos" soldados brancos. Nada melhor que ler a real história. Li este livro 3 vezes seguidas. Também li Negras Raízes que conta a história de Kunta Kinte, um jovem africano tirado à força de sua terra para ser escravizado na América do Norte. Também li por 3 vezes.os dois livros tiveram filmes ou séries, mas no livro mergulhamos nos detalhes, imaginamos a dor, a luta e sofrimento pela liberdade e pela vida. No Brasil temos "Xingu" que de longe tem o mesmo brilho que os antes citados, mas conta um pouco da história da formação da reserva do Xingu, o empenho dos irmãos Villa Lobos. Abraço

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