Religião e ficção científica

quinta-feira, abril 02, 2015

Ficção científica é um gênero, praticamente, completo. Ele pode tratar (quando bem feito, claro) de temas muito pertinentes, até mesmo polêmicos, quando estão embalados em uma ficção. Sejam enredos distópicos, space operas, livros ou séries de TV, muitas vezes conseguimos filtrar as informações de maneira muito melhor através da lente da ficção do que de outra forma.





Já li, muito tempo atrás, alguns textos de cristãos fundamentalistas, que diziam que suas crianças não deveriam ler Harry Potter, pois os livros tratavam de bruxaria, portanto era coisa do demônio e eles não queria comprometer as almas dos filhos. Nessa mesma época, cheguei a ler algo sobre o "ateísmo" da ficção científica e que cristãos também deveriam evitar, já que a FC, constantemente, se negava a trabalhar com temas religiosos. Isso me parece bem típico de gente que nunca leu, viu ou prestou um pouco mais de atenção, tanto em Harry Potter quanto em ficção científica.

Por tratar de ciência em muitos de seus enredos e por achar que existe uma guerra entre ciência e religião, tem gente que torce o nariz para ficção científica. Além de essa guerra não existir (exceto para os sensacionalistas) a FC consegue tratar com bastante propriedade sobre religião e até fundamentalismo em seus enredos. São tantos os exemplos que tive que refinar a pesquisa para caber no post.

Cena de Believers, décimo episódio da primeira temporada de Babylon 5.

Um dos primeiros exemplos que lembrei foi em Babylon 5. Na primeira temporada, no episódio Believers, um casal de uma raça alienígena leva o filho doente para a estação em busca de tratamento médico. O garoto ficaria curado e se recuperaria rapidamente com uma simples cirurgia. Mas os pais, por motivos religiosos, não deixariam que seu corpo fosse aberto, com medo que seu espírito fosse danificado ou se perdesse.

Dr. Franklin, médico-chefe, ignora os direitos parentais e até a ordem do comandante Sinclair de não operar o menino. Quando os pais o veem, se desesperam, achando que um demônio se apossara do corpo do filho. Em seguida, eles o matam em uma cerimônia para salvar o espírito da criança. Aliás, Babylon 5 é muito rica quando se trata da religião das raças alienígenas que nela aparecem, sendo esta uma série que melhor retratou diversidade religiosa.

O que faz uma religião ser falsa? Se todas as religiões estão certas, provavelmente a deles também está. Talvez Deus não se importe em como você reza. O que consideramos sagrado dá significado às nossas vidas.

Comandante Sinclair, Babylon 5

Quarta temporada de Star Trek Voyager, 12º episódio. Neelix sofreu um traumatismo sério e estava clinicamente morto. Mas Sete de Nove, utilizando-se de nanosondas dos Borg, consegue trazer Neelix de volta à vida várias horas depois da morte declarada. E ele entra em uma profunda tristeza em seguida, quase tirando a própria vida, pois a crença de reencontrar seus parentes mortos no pós-vida não se concretizou. Ele entra em uma espiral existencial por saber que nunca mais estaria junto de seus parentes.

Star Trek: Deep Space 9 tem a profunda religião dos bajorianos, aliada à ciência e até aos humanos. Eles consideram que o comandante Sisko seja o Emissário dos Profetas e que os Profetas (seres alienígenas inteligentes) que vivem no wormhole que liga o Quadrante Alfa ao Quadrante Delta da galáxia são seus deuses. Existe uma mitologia complexa entre os personagens, onde Sisko seria aquele que os Profetas usariam para se comunicar com os humanoides do outro lado da fenda.

Vedek Winn, DS9

Existe todo um debate a respeito de como chamar esses seres. São aliens, são deuses, são divindades? E quando a professora da estação, Keiko, está ensinando para as crianças a respeito do wormhole, uma religiosa de Bajor, Vedek Winn, a repreende e acusa de heresia, dizendo que não era uma formação artificial, mas sim uma obra dos Profetas. No que isso é diferente da insistência irritante de algumas alas de fundamentalistas que tentam empurrar criacionismo nas escolas?

Battlestar Galactica desenvolveu toda uma poderosa mitologia entre as Doze Colônias, politeístas e depois com os Cylons, monoteístas, que acreditavam que eram enviados de Deus. Os cidadãos das colônias viam seus fundadores com um ar místico e tinham várias lendas e mitos que compunham o livro que guiou boa parte da busca por um novo lar que os sobreviventes do holocausto empreenderam. E depois houve todo um descontentamento quando a profecia não se cumpriu. Brigas e até suicídios ocorreram na frota humana.

Battlestar Galactica
A Última Ceia, versão Battlestar Galactica.

Em Star Wars, temos a espiritualidade, baseada na Força, desempenhando um papel central na vida dos Jedi e de muitos dos eventos que ocorrem nos filmes e no universo expandido. E o que dizer dos Na’vi, em Avatar, que acreditavam que todas as formas de vida em Pandora estavam interconectadas e que, portanto, derrubar uma árvore para colher minérios essenciais na Terra era uma heresia? É também uma excelente alegoria a respeito da colonização nas Américas e o modo como uma força hegemônica e mais poderosa belicamente acabou com populações tradicionais, baseada na exploração de bens preciosos e também na religião.

[A Força] é um campo de energia criado por todas as criaturas vivas. Ela nos rodeia e nos penetra. É o que mantém a galáxia unida.

Obi Wan Kenobi

E no filme Contato, baseado no livro de Carl Sagan, um dos embates mais brilhantes sobre religião e ciência (em ficção científica), quando a doutora Arroway é desqualificada para partir em missão para encontrar com alienígenas por não ter religião nem acreditar em Deus. Apesar de o motivo ter sido mais outro, eles resolvem levar outro representante da raça humana, que tinha religião. No fim, o que houve? Fundamentalistas quase acabaram com a missão e mataram o emissário.

Alienígenas considerados deuses, alienígenas tentando se passar por deuses, povos primitivos acreditando que povos avançados são deuses. Tudo isso compõe incríveis debates teológicos na ficção científica. E muitas vezes a pergunta que os enredos fazem não é se Deus ou Deuses existem, e sim o que esse Deus ou Deuses representam ou como eles são. O trecho acima, falado pelo comandante Sinclair, mostra bem a dificuldade de se tratar disso por apenas um viés.

Journey of the atreidae, arte de F. MacManus

Ateus e religiosos abertos à discussão podem muito bem aproveitar esses questionamentos e desfrutar da ficção científica, seja como apenas entretenimento, seja como uma forma de fomentar debates. Não há porque deixar de ver ou ler algo por questões religiosas ou anti-religiosas se o que está sendo exposto pode nos ajudar de alguma maneira. Seja pensando, seja se informando, seja assistindo sua série de TV preferida.

Até mais!



Leia mais:
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The 7 Deadly Sins Of Religion In Science Fiction
Religion and Science Fiction: Asking the Right Questions
The Battle Between Science and Religion – And SciFi Is the Battleground
The Holy Trinity of Sci Fi Storytelling: Science, Religion & Politics

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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James W. Harris