Star Trek e o Teste de Bechdel

quinta-feira, setembro 04, 2014

Essa semana eu vi um texto compartilhado no Tumblr que falava do desempenho de Star Trek e suas séries de TV no famoso Teste de Bechdel, um teste utilizado para avaliar a representatividade feminina em telas. Não me surpreendi com o resultado, apesar de notar que algumas respostas foram dadas com ele a respeito da série e do ódio mortal de alguns ~fãs~ por certas personagens.





O que é o Teste de Bechdel?
O teste foi criado em 1987 pela a cartunista norte-americana Alison Bechdel. Em sua famosa tirinha Dykes do Watch Out For, ela estabeleceu o que ganharia o nome de Teste de Bechdel. E ele é ridiculamente simples:

1. Tenham ao menos duas personagens femininas;
2. Que conversem entre si em alguma cena;
3. Sobre algo que não seja homens.

O teste não implica que um filme ou série de TV seja bom, tampouco feminista. Ele apenas pede que as pessoas analisem o papel relegado às mulheres nos filmes e daí façam sua própria reflexão. E mesmo sendo tão simplista, basta observar alguns poucos filmes e séries que veremos o quão, miseravelmente, poucos deles passam.

Pensando nisso, várias blogueiras e usuárias do Tumblr resolveram se engajar em um projeto audacioso: medir a porcentagem de cada série de Star Trek, desde a clássica até Enterprise que passam no teste. Os filmes não estão bem quando o assunto é representatividade feminina, porém ninguém ainda tinha testado as séries para ver a quantas a coisa andava. E pode não parecer, mas as séries, em geral, pecaram com relação à representatividade de gays e trans*. Foram pouquíssimas as vezes em que o assunto foi abordado e de cabeça lembrei apenas de um episódio em A Nova Geração e outro em Deep Space 9.

Quando o assunto é a representatividade feminina por série, o resultado foi:


E o resultado por temporada:


Não me espantou nem um pouco a supremacia de Voyager como sendo a que mais tem representatividade feminina. Além da presença de uma capitã, temos uma mulher como chefe da engenharia, uma ocampa, Kes, e depois a borg tentando ser humana, Sete de Nove. O elenco feminino interage diversas vezes, com os mais variados temas e por várias vezes dominam completamente os episódios. Não é de se estranhar também que Voyager seja a série mais odiada por muitos talifãs que xingam Janeway e endeusam Kirk.

Se ao invés de ser mulher, Janeway fosse homem, pode apostar que todos o amariam. Mas como mulher os velhos clichês ofensivos recaem sobre ela como "falta de pica", "encalhada", "velha", "arrogante". Muitos disseram que ela arriscou a nave e sua tripulação várias vezes e que foi inconsequente. Mas e se ela fosse homem? Encarariam isso como atos de bravura e ele não sofreria uma crítica sequer. Aliás, as personagens de Star Trek que são mais velhas, como a Dra. Pulaski e a capitã Janeway, e que não andam com um colant brilhante e salto alto pela nave, são as que mais sofrem todo o tipo de misoginia escancarada nos portais de Star Trek.


Quando falo que minha série favorita de Star Trek é justamente Voyager, muita gente torce o nariz. "Ainn, claro, só porque tem mulher no comando". E muitos já emendem com um "Odeio a Janeway". Mas não é apenas pela presença de uma mulher no comando: nós temos um vulcano negro como oficial tático, um segundo oficial que, além de ex-guerrilheiro, é também indígena (que praticamente nunca aparece em séries de TV e portanto Chakotay é um marco televisivo, como Uhura foi), temos uma mulher humana/klingon e ex-guerrilheira como chefe da engenharia e temos uma humana assimilada pelos Borg ainda criança que tenta voltar a ser um indivíduo.

Todas as séries, em especial as mais recentes e sou sincera em admitir que não tenho tanto apelo pela série original, trataram de temas profundos e mostraram que uma humanidade plural, vivendo em comunidade, onde todos possam ter sua chance na vida e possa viver sossegado. ST foi bem sucedida onde outras tantas não foram, retratando um mundo que acabou com quase todos os conflitos e problemas para levar à uma humanidade unida, com representatividade. Onde um cego pudesse enxergar e ser chefe de engenharia. Onde um androide tivesse atitudes mais humanas do que muitos humanos. Onde uma mulher era capitã de uma nave estelar e fez desta nave um lar para mais de 100 tripulantes perdidos numa terra estranha.

O teste de Bechdel tem suas falhas, mas sua simplicidade engana o espectador menos atento. Esta simplicidade mostra o abismo de representatividade nas produções, apesar de apontar melhoras significativas e de mostrar que é sim possível mostrar enredos com mulheres sem cair em clichês óbvios e sem deixar ninguém de fora ou oprimido. Ainda esperamos pelo dia em que gays, trans*, negros e pessoas com deficiência estejam presentes nas produções sem os estereótipos negativos que costumam cair nestes personagens.


Até mais!

Leia mais:
Why film schools teach screenwriters not to pass the Bechdel test
How Does Your Favorite Star Trek Series Fare on the Bechdel Test?
Poderosas até o episódio dois

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





Leia esses também...

1 comentários

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.
O mesmo vale para comentários:
- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.
A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.

Viajantes

Curta no Facebook

❤️


"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris