O Teste Mako Mori

quinta-feira, setembro 11, 2014

Semana passada, saiu um post aqui no Saga sobre Star Trek e o Teste de Bechdel, que mede a representatividade feminina nas produções cinematográficas e de TV. Star Trek Voyager se saiu melhor que outras séries da franquia, porém eu já tinha notado que o Bechdel não contempla todas as produções que existem. Alguns bons filmes, como Gravidade, não passam no teste e nem por isso sua protagonista é uma personagem fraca ou inútil.




Para saber mais sobre o Teste de Bechdel, só ler aqui.

Mako Mori é uma personagem do filme Pacific Rim, ou Círculo de Fogo e que gerou bastante controvérsia depois do lançamento do filme, porque o longa não passa no teste de Bechdel. Um teste simples, mas onde muitas obras são barradas. O teste, criado em 1987, é uma maneira de medir se as mulheres nos filmes e séries são só alegoria ou se realmente fazem parte do enredo. Neste caso, Pacific Rim não passaria, pois não tem (segundo Bechdel):

1. Ao menos duas personagens femininas
2. Que falem entre si
3. Sobre algo que não seja homens

Guillermo del Toro foi bastante ousado no filme. Com um elenco multicultural, com filmagens em Hong Kong e atores desconhecidos no ocidente, o longa não agradou a todos e foi um ponto de controvérsia a respeito de Mako e sua participação no enredo. Ele tem 56 atores e destes apenas 3 são mulheres, com pouquíssimas falas. E muita gente detonou o filme por isso.

Ele, de fato, não passa no teste. Mas como disse acima, isso não quer dizer que o filme é ruim. Podemos apenas elevar a discussão para mostrar que mesmo com sua ridícula simplicidade, nem todo filme passa nele e nem todo filme que não passa não presta. A discussão na internet a respeito de Pacific Rim ganhou ares de controvérsia sobre suas falhas até que uma usuária do Tumblr propusesse o Teste Mako Mori.

1. Ao menos uma personagem feminina
2. Com seu próprio arco narrativo
3. Arco este que não seja para dar suporte à uma história masculina

E por que Mako deveria ser melhor vista? Mako Mori é forte, inteligente, que luta para se livrar da proteção de sua figura paterna, Stacker Pentecost (Idris Elba). Seu objetivo é se tornar um piloto de Jaeger, objetivo este que domina quase toda a narrativa do filme. Além disso, ela não é ocidental, o que é um grande passo para a representatividade de orientais sem estereótipos negativos e fantasias sexuais.

Esta parte é de extrema importância, pois é algo que vemos pouco no cinema do ocidente. Quando muito, as japonesas aparecem como serviçais em restaurantes japoneses ou algum crush para o herói, que precisa ser protegida por ele, um filme de ação no Japão, algo bem comum em várias produções seja no ocidente ou não.

O teste não substitui Bechdel, apenas é mais uma forma de avaliar o que se passa no cinema. Podemos ver que Gravidade e Os Vingadores não passam no Bechdel, enquanto passam no Mako Mori, pois Viúva Negra consegue manter sua história e independência pelo enredo, mesmo que mal tenhamos duas mulheres juntas em tela. Podemos ter um filme que passe no Bechdel, como Legalmente Loira, mas que possuem esterótipos péssimos sobre personagens femininas e que ainda passa uma noção errada sobre o que é ser mulher.

Se temos filmes que não passam em nenhum dos testes - e pode notar que a maioria não passa - fica fácil perceber que a representatividade feminina é bastante precária nos enredos, ressaltando apenas as aventuras dos homens brancos heterossexuais que comandam toda a narrativa e a própria indústria do cinema. Muita gente pode achar que esse "papo" de representatividade já deu, mas não. Não deu. Tem muita coisa sobre isso para falar, muita gente que gostaria de ser melhor representada pela indústria do cinema - como Mako Mori fez e aconteceu para o ocidente.

Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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2 comentários

  1. Achei interessante.
    Queria propor uma análise ainda no campo da representatividade. Será que as "trocas de sexo" de personagens ou de protagonistas, como aconteceu em Ghostbusters - ainda que não seja bem um remake - são realmente positivas para a auto-afirmação, ou seriam somente uma forma fácil de as empresas se saírem "bonitas na foto", pois estão percebendo que, cada vez mais, membros de grupos de minorias estão cada vez mais se tornando consumidores assíduos e importantes?
    Veja bem: longe de mim querer julgar a questão da representatividade feminina, ou gay, porque sou hétero cis homem. Entretanto, por exemplo, como negro, prefiro muito mais o "revamp" do Luke Cage, trazendo um personagem já negro à evidência do que simplesmente trocar a etnia do Perry White ou do Jimmy Olsen.
    Espero ter sido claro ;)

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  2. Uma dúvida que eu tenho é: como categorizar poucas falas como algo bom ou ruim? Porque nem todas as falas têm o mesmo peso/importância, há personagens que com poucas fala, porém com muito peso de narrativa e desenvolvimento, ou personagens com muitas falas e pouca importância e por aí vai.

    Entendo a problemática do ''poucas falas'', porém acho que a uma gama diversa de personagens que navegando nisso de importância e número de falas.

    Uma coisa que tenho pra mim é que há algo além de representatividade e diversidade (que é de fato o mais IMPORTANTE) feminina nas mídias, a qualidade da narrativa. Personagens estereótipos, personagens superficiais, de apenas suporte para outros personagens são mau escritos, são ruins, não há identificação ou relação com eles. Personagens com motivação, com um bom arco dramático, com relações próprias e individualidades são bem escritos e extremamente mais interessantes, que é o básico de fazer personagens: fazê-los mais humanos, reais e verossímeis. Então como um aspirante a escritos além de apreciar e achar importante a diversidade, trata-se também (para mim) de escrever boas personagens dentro de boas histórias.

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