O Teste de Bechdel

quarta-feira, agosto 28, 2013

Muita gente se pergunta (e me pergunta também) por que a representatividade e a análise dos papeis de gênero são coisas importantes de se pensar. É muito difícil para pessoas que estão no topo da cadeia alimentar social perceber que minorias e outros grupos não estão sendo representados nas artes e na cultura. Para eles não importa. Mas importa. E muito.




O que é?
O teste foi criado em 1987 pela a cartunista norte-americana Alison Bechdel. Em sua famosa tirinha Dykes do Watch Out For, ela estabeleceu o que ganharia o nome de Teste de Bechdel. E ele é ridiculamente simples:

1. Tenham ao menos duas personagens femininas;
2. que conversem entre si em alguma cena;
3. sobre algo que não seja homens.

O teste não implica que um filme seja bom, tampouco feminista. Ele apenas pede que as pessoas analisem o papel relegado às mulheres nos filmes e daí façam sua própria reflexão. Então me diga, quantos filmes você consegue pensar que passam no teste? Vou te deixar pensando e volto logo.


E aí, conseguiu? Tem uma porrada de filme que não passa no teste que parece enganosamente simples ou que passam de raspão. E não são filmes B ou conhecidos apenas por um público seleto, são filmes muito bem conhecidos do público. Abaixo tem uma lista com filmes que não passam ou que apresentam pouca vantagem, pois mesmo tendo duas ou mais personagens femininas, elas não falam entre si por muito tempo.

Trilogia O Senhor dos Anéis
Trilogia Star Wars
Náufrago
A Rede Social
Avatar
Oblivion
Além da Terra
Os Escolhidos
O Grande Gatsby
Vai Que Dá Certo
Star Trek Além da Escuridão
Jack - O Matador de Gigantes
Lanterna Verde
Pacific Rim
Lunar
Sem Limites
Batman – o Cavaleiro das Trevas Ressurge
Os Vingadores
Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Battleship - A Batalha dos Mares
Django Livre
Pandorum
Substitutos
O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
Coração Valente
Universidade Monstros
300
O Ilusionista
Velozes e Furiosos
Gladiador
Blade Runner
Galaxy Quest
Trilogia Homens de Preto
Cowboys & Aliens
O Vingador do Futuro
As Aventuras de Tintim
Predadores
O Príncipe da Pérsia
Valhalla Rising
TRON O Legado
Em Busca da Felicidade
Madagascar
Anjos e Demônios
Distrito 9
Hancock
Ratatouille
Apollo 18
Capitão América


Melhor parar ou continuo até amanhã. Pode reparar que são filmes famosos, não são filmes desconhecidos, mas que repetem o padrão de personagens. Homens resolvendo problemas, mulheres como decoração ou falando sobre homens. E sem contar que ainda existem aqueles filmes onde uma mulher floreia o enredo, passa pelo diabo ou morre para que o personagem masculino evolua, cresça ou vença a batalha. Inclusive em filmes da Disney.

  • Matrix Reloaded
  • A Bela e a Fera
  • Sim Senhor
  • Inquietos
  • Quanto Mais Quente Melhor
  • Tudo acontece em Elizabethtown
  • Outono em Nova York
  • Doce novembro
  • Bonequinha de luxo
  • Quase famosos

O resultado disso é que a representação da mulher nos filmes fica altamente danificada. Não somos espiãs, agentes secretas, médicas, advogadas, heroínas, exceto algumas pequenas exceções, muitas das quais são rapidamente reduzidas a serem chamadas de ‘filmes mamãe-coragem”, ou feitas tão somente para a sexualização da mulher segurando armas grandes.

Feminista Cansada


Por que isso importa?
Para quem não é oprimido ou tem representação de sobra nas obras, isso é uma puta babaquice. Mas me incomoda muito ver como as mulheres são retratadas no cinema. Especialmente em filmes românticos, O CARA é o FOCO do enredo. O quanto ele sofre por amor, o quanto ele pasta pela mulher que ama, os sacrifícios, e como ele fica feliz quando ela aparece. Muitas vezes, essa mesma mulher morre de alguma doença terminal para que o homem, que é o foco, cresça e apareça na vida e com isso aprenda uma grande lição.


Recentemente eu li um post onde o autor reclamava do machismo escancarado de TRON O Legado, que é um filme que eu acho o máximo em questão de efeitos especiais, mas que tem uma mulher no enredo que quase morre e se sacrifica pelos dois heróis, pai e filho. O próprio Sam Flynn é um cara. Por que não uma Samantha Flynn? Sem contar as moças preparadoras do Sam para a arena, a velha imagem de mulheres em tubos, prontas para servir um personagem masculino.

Essa normatização masculina é recorrente. Isso está enraizado na nossa cultura que cresce e bebe de uma sociedade machista que inferioriza não apenas mulheres como qualquer minoria. É um exercício diário e árduo abandonar um pensamento machista danoso e pouca gente percebe isso. E qualquer reclamação da nossa parte é vista como histeria, TPM, falta de louça pra lavar ou falta de pica. Quem não ficaria irritado com a pobre representação de minorias nas artes, em especial nos filmes blockbusters que alcançam um público imenso?

Podemos aplicar o teste não apenas com as mulheres?
Claro. Vamos tentar analisar isso de um outro ponto de vista. Vamos pensar em um filme com essas características:

1. Tenham ao menos dois personagens negros;
2. que conversem entre si em alguma cena;
3. sobre algo que não seja assuntos de personagens brancos.

Ou então:

1. Tenham ao menos dois personagens homossexuais;
2. que conversem entre si em alguma cena;
3. sobre algo que não seja homens (já que são poucas as lésbicas retratadas).

Percebe o que quero dizer? É incrivelmente difícil mostrar a representatividade de minorias no cinema e na TV porque ainda se continua produzindo mais do mesmo. Existem filmes que passam? Sim, mas nem de longe eles alcançam a lista daqueles que não passam, já que temos muito mais roteiristas e diretores homens do que mulheres. O mesmo equivale para negros, homossexuais e transsexuais.

Filmes não existem no vácuo; eles têm relação direta com a nossa cultura e retratam e influenciam o mundo ao nosso redor. Filmes que insistem nesse padrão reforçam a ideia de que mulheres existem em função de homens, de que não temos outros assuntos e interesses que não sejam relacionados a homens, porque eles seriam tão mais importantes que seria normal e até esperado que eles fossem o centro das histórias — mesmo aquelas vividas pelas mulheres.

Aline Valek - Danger

É aqui que voltamos à questão da representatividade. Por mais que a indústria do cinema e da televisão tenham evoluído muito, retratando temas que antes eram considerados tabus, a coisa tem que evoluir muito mais. Por que fazer filmes com negros retratando apenas o período da escravidão? Por que não fazer filmes com negros bem sucedidos, cientistas, astronautas? Eddy Murphy é especialista em fazer filmes com negros em posição de destaque, mas às mulheres o papel relegado é em geral o mesmo. Recentemente, outra polêmica envolvendo a representatividade foi com a novela da Globo, Amor à Vida, onde não existem personagens negros. Depois da reclamação, parece que colocaram um, como se fosse um cala a boca.

Aliás, TV brasileira é especialista em reproduzir preconceitos. Basta ver o papel de Félix, "a bicha má". Muita gente se questionou, como que um cara dando "tanta pinta" demorou a ser descoberto como gay. O quão danosa é essa representação para a comunidade LGBT? Por que é sempre uma representação altamente estereotipada, que acaba colocando na cabeça do telespectador essa visão toda afetada de um personagem homossexual? Muita gente pode questionar que há sim uma representatividade de personagens gays, mas muitos caem no velho estereótipo afeminado, quando a realidade não é bem assim.


Quais os filmes que passam no teste?
Alguns ótimos filmes passam no teste, mas muitas vezes os diálogos femininos duram pouquíssimo em cena. Se não contarmos isso, teremos alguns bons títulos:

Prometheus
Maria Antonieta
Memórias de uma Gueixa
Miss Simpatia
Serenity
De Repente 30
Kill Bill
Resident Evil
Extermínio
Harry Potter e a Câmara Secreta
S1m0ne
Até o Limite da Honra
Um Canto de Esperança
Tropas Estelares
Titanic
Chocolate
Star Trek - Insurreição
Arquivo X
Sex and the City 2
Billy Elliot
Um Lugar Chamado Nothing Hill
Para Sempre Cinderella
A Hora Mais Escura
A Cor Púrpura
Faroeste Caboclo
O Paciente Inglês
Erin Brockovich

E na ficção científica?
Compare a lista dos que passam com os que não passam. É notório que a mulher ainda é relegada a funções de alegoria em muitos enredos. Claro, temos personagens fortes, com certeza, mas basta ver o que aconteceu com Trinity para que a gente perceba que o caminho ainda é longo. Quando sair a lista de indicados ao Oscar, analise quem ali passa no teste de Bechdel e quantos ali são de ficção científica, para que seja possível perceber a quantas anda a FC ultimamente.

"Ahhhh, Sybylla, qual é? Você tá exagerando!". Inverta a situação e coloque dois homens conversando sobre assuntos que não estejam relacionados à uma mulher. Pois é. Talvez assim seja possível entender o quanto a nossa representação, bem como de grupos minoritários é deficiente, estereotipada, falha e superficial. Só quando um privilegiado entender isso é que poderemos ter uma produção que seja inclusiva e que saiba trabalhar os papeis de gênero sem todo esse floreio ou sentido vazio.

O que achou do teste e da análise? Deixe seu comentário.

Até mais!

Leia também:
Bechdel Test Movie List
O teste de Bechdel
The Bechdel Test
Memo to all women: No half for you in Hollywood

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris