Suspensão da descrença

quinta-feira, agosto 21, 2014

Quem lê o blog há mais tempo sabe que eu critico muitas coisas dentro da ficção científica. De estruturas narrativas a clichês, o gênero não é perfeito, mesmo sendo, para mim, o mais completo. Também crítico as críticas vazias que em nada acrescentam à FC, apenas desvirtuam sua produção e sua capacidade de nos entreter. Ou o fã viaja com a ficção, ou ele não entendeu seu propósito.






Quando lemos um livro de fantasia ou de ficção científica, ou vemos um filme, série, temos contato com alguma produção artística deste tipo, somos levados a acreditar nesta realidade alternativa. Nós nos permitimos iludir pelo enredo, mas ele deve ter seus limites, ele deve ser crível. No caso da fantasia, não tem tanto problema. O problema começa na ficção científica. O roteirista ou escritor precisa percorrer caminhos tortuosos para chegar a cenários que, mesmo tendo sua parcela de viagem na maionese, pareça ser real e autêntico para a plateia que se deixa levar por ela.

E qual seria a graça, por exemplo, de Star Wars e suas poderosas batalhas espaciais sem o som das explosões? É, sabemos que o som não se propaga no vácuo, mas nos permitimos um momento de ignorância para apreciar a batalha contra o Império. Também nos permitimos ignorar que a gravidade em outros corpos celestes pode não ser a mesma que a da Terra, mas ainda assim os heróis andam normalmente em corpos celestes menores.


Isso se chama suspensão da descrença. É quando um leitor ou espectador aceita como verdadeiras as premissas de um trabalho de ficção. Sejam impossíveis, contraditórias ou fantásticas, ela nos mostra cenários e acontecimentos com a premissa do entretenimento. É assim que agimos com explosões no espaço ou invasões alienígenas, com robôs do mal ou robôs do bem, com epidemias zumbis ou terra oca. Nós nos deixamos levar para nos entreter ou nos fazer pensar. A ideia original, de Luciano de Samósata, poeta satírico, encontra-se na introdução de seu livro Uma História Verdadeira. Após mencionar outros autores que contaram mentiras, ele completa que também é um mentiroso e pede, humildemente, ao leitor que seja um incrédulo. Samuel Taylor Coleridge, poeta inglês, trouxe de volta a ideia em 1817.

Quando temos um cenário como o da trilogia Divergente, com a população fixada em facções, de onde só podem sair ou não aos 16 anos na seção de escolha, temos que esquecer que isso é um cenário que não parece plausível para poder entender a crítica e a construção da lógica da autora. Por trás deste papo de facções e da imobilidade social estão histórias de pessoas que não se encaixam em apenas um lugar, que não se contentam em ser apenas uma coisa. Trata de contradições profundas que atingem o espectador e leitor atentos.

Cena do filme Divergente.

Para que o leitor e/ou expectador aceite este cenário como verossímil, o escritor ou roteirista deve criar um mundo capaz de sustentar a ilusão. Deve ser algo crível, que seja capaz de sustentar o enredo, que não pareça ilógico ou impossível demais para acontecer. Em ficção científica nem sempre isso é simples, pois não basta jogar conceitos e teorias no enredo e esperar que as pessoas acreditem naquilo. É por isso que os filmes 2012 e Núcleo, Viagem ao Centro da Terra, foram um fiasco. Eles falharam em adotar um enredo que fizesse a plateia acreditar no que estavam mostrando.

Toda obra vai acabar datada em algum momento. A tecnologia avança a passos largos e todo dia mostra coisas novas. O computador que era uma excelente máquina há dois anos já está datado. O smartphone com um ano de uso já se mostra ultrapassado diante das opções do mercado. O carro 2015 já é melhor que o 2014 (e mais caro também). É natural que as coisas acabem. Mas uma ideia, um conceito, uma crítica, uma realidade que nos leve a pensar... isso é algo que não envelhece, que não sai de moda e que não fica datada.

Se pegarmos obras de Asimov, Heinlein, Bradbury, Clarke, Lem, veremos que muitas coisas ali ficaram datadas. Recomendo fortemente que qualquer fã de FC sempre retorne aos clássicos, entretanto algumas pessoas parecem largar a leitura, achando-os chatos e empoeirados, preferindo algo mais recente. Sabemos hoje que Marte não possui civilizações avançadas em sua superfície, mas Bradbury não falou de marcianos em suas crônicas. Ele usou esta alegoria para criticar a raça humana e seu comportamento diante do que é diferente e de quando está sob pressão. Você pode trocar Marte por Qo'Nos e a crítica será a mesma.

É aí que mora a mágica da ficção. É manter a crítica viva. Olhe para os grandes blockbusters nas salas de cinema, veja quantos deles estarão datados em pouco tempo, trapaceando e roubando a atenção dos espectadores por duas horas de efeitos especiais. Agora pegue uma obra como Admirável Mundo Novo, Divergente, 1984, O Homem Bicentenário, e veja como suas críticas e estrutura de enredo se mantém atuais. Ao entender o conceito por trás destes mundos, a obra se mantém atual. Não importa se os robôs de Asimov parecem datados diante do mundo atual de drones. O que ele critica em suas obras mudou?


Não podemos datar obras e achar que os autores trapacearam simplesmente porque eles não conseguiram prever o futuro. Ficção científica não tem a menor obrigação de prever nada. Se ela conseguiu vislumbrar certas tecnologias, ótimo. É sinal que seus autores conseguiram concatenar as ideias vigentes em sua época, junto com a tecnologia também da época. Eles souberam ponderar o que era possível e o que não era possível e acabaram acertando. Mas quantos outros erraram o futuro e ainda assim estavam certos em suas críticas? É isso que devemos buscar na ficção científica, não ficar comparando qual robô é mais avançado ou não.

Até mais!



Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Por essas e outras que eu gosto de dizer que, antes de fazer boa ficção científica, é importante fazer boa ficção. Assim a história tende a envelhecer melhor. Ótimo texto.

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"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris