Malévola, estupro e male tears

terça-feira, junho 10, 2014

O aguardado filme Malévola estreou no circuito nacional no final de maio e, desde então, tem levado multidões ao cinema para ver A Bela Adormecida do ponto de vista da temida vilã que amaldiçoa Aurora. O que eu não esperava era ver a verdadeira tsunami de male tears e acusações de misandria contra o longa de Angelina Jolie unicamente porque o filme não foi feito para o público masculino hétero. Sério, é esse o problema.





Este post contém spoilers. Se não quiser saber sobre o filme, esteja avisado. Tentei reduzir bastante o número deles, mas alguns foram necessários.

Se você veio aqui para dizer que o post é desnecessário, achando que ele prega a castração de homens, não perca seu tempo lendo. Se você manda bem no quesito interpretação de texto, vai entender do que o post está falando.



O filme

Malévola não é uma refilmagem do clássico da Disney. Então, não vá ao cinema esperando por isso. Eu diria que Malévola é uma reinvenção da lenda e do conto, só que mostrando o enredo do ponto de vista da vilã temida e odiada. Nós temos aqui uma visão do que houve com ela para ser tão má e rancorosa a ponto de amaldiçoar uma criança de berço. E isso é importante, mostrar a trajetória das pessoas ao invés de achar que elas chegam prontas, sem nenhum passado. E Malévola se mostra uma personagem com múltiplas camadas - como qualquer pessoa é - que se sente traída e rejeitada. Mas além disso, ela foi violada e usada por um homem que queria chegar ao poder.

O conto original de A Bela Adormecida é antigo, com data aproximada de 1634, porém a versão mais conhecida e que foi feita pela Disney na forma de desenho, em 1959, é a dos Irmãos Grimm, de 1812, no famoso livro Os Contos de Grimm. Entretanto, a versão original envolve um estupro contra a princesa por um rei que a encontrou desacordada. As crianças decorrentes do estupro nascem e, com fome, começam a sugar os dedos da princesa, retirando o espinho que a desacordou e ela descobre-se, então, mãe de duas crianças sem nem saber como foram parar ali. Aí, para piorar ainda mais, o rei, que é casado, manda buscar mãe e filhos, mas a rainha tenta matá-los. O rei mata a rainha, deixando a princesa com o caminho livre para se casar com o estuprador. Surreal, não é mesmo?


Vamos ao filme. Malévola é uma fada do bem, cuidando da natureza, vivendo entre os seres mágicos, até que conhece um humano chamado Stefan. Os dois viram amigos, mas Stefan tem a ambição de se tornar rei. O rei de então, velho e já derrotado por Malévola e outros seres mágicos, quer a cabeça dela. O que Stefan faz? Volta ao reino mágico, reatando a amizade com ela e lhe dá algo para beber, que a adormece rapidamente. A intenção de Stefan era matá-la para conseguir a coroa. Sem coragem, ele corta as asas de Malévola com uma corrente de ferro, pois o ferro machuca as fadas e leva ao rei como prova da morte dela. Ao acordar pela manhã, violada e sem suas asas, ela se torna o ser mau e rancoroso que costumamos ver no desenho da Disney.


O estupro

Não sei se ficou claro para você, mas para boa parte da audiência atenta, a cena do corte das asas de Malévola é uma metáfora perfeita para o estupro que acomete milhões de mulheres pelo mundo, todos os anos. Ele a derruba com um sonífero e viola seu corpo, deixando para trás uma mulher destruída, tendo que lidar com os efeitos da traição e da violação sozinha. Quando descobre que Stefan virou rei pelo o que fez à ela, é que Malévola se torna verdadeiramente má. Ergue uma barreira de espinhos em torno do reino mágico para impedir a chegada de qualquer exército e quando sabe que o rei teve uma filha, resolve fazer uma visita na festa do batizado e profere sua terrível maldição. Somente um beijo de amor verdadeiro poderia tirar a princesa Aurora do sono profundo em que cairia.

As asas e a violação de Malévola. Uma maneira de lidar com o estupro.

Malévola impõe essa condição pois, para ela, não existe essa coisa de amor verdadeiro. Ela mesma é uma prova disso, certo? Ela confiou num amigo que a traiu, violou e ainda usou essa violência para subir de vida. Sem saber como lidar com isso, Malévola se volta para o lado mais escuro da raiva e da vingança, para machucar Stefan onde doesse mais. Mas com isso acaba se machucando também, mesmo que de início ela não perceba.

Para ter certeza que a maldição não ocorrerá, o rei manda três fadas cuidarem da criança num lugar afastado e confisca todas as rocas de fiar do reino e as queima. Mas Malévola fica por perto da menina durante todo o seu crescimento. Ora incomodando as fadas, ora salvando a vida da menina, já que as fadas não tinham a menor aptidão para cuidar de uma criança. E dessa relação, Malévola começa a se curar de todo o mal que lhe tinha sido causado. Entra aqui, também, a metáfora do amor verdadeiro.

Uma coisa que eu pensava desde criança era sobre o tal amor verdadeiro. Se amor é um sentimento universal que temos por nossos pais, irmãos, namorados, amigos, como que o pai ou a mãe da princesa não puderam salvá-la? Vejo isso como uma grande falha do desenho da Disney que foi sanada em Malévola. E ainda que o filme tenha seus problemas - mais uma vez um filme que retrata mulheres brancas, de olhos claros - ele é um grande passo para um cinema que possa representar sem tanto estereotipar, uma reclamação que faço há muito tempo aqui no blog.


As male tears

O que me espantou verdadeiramente foi essa cascata de male tears em cada lugar que surge alguém falando bem de Malévola como um filme de mulheres para mulheres, que mostra mulheres buscando se firmar no mundo, numa trajetória que contém o bem, o mal, o mundo cru e violento, as fantasias, a busca por seu lugar. Teve inclusive um certo infeliz que acusou o filme de ser misândrico (de misandria, que seria o ódio ao gênero masculino) porque não houve um beijo lésbico no filme. Eu não vou colocar o link aqui para não dar audiência para ele, mas asseguro, é tanto chorume, mas tanto que você começa a passar mal.

Definição de male tears para os marinheiros de primeira viagem:

Quando homens não enxergam seus próprios privilégios e se apontam como grandes vítimas de sexismo e misandria, dizendo que nem todo homem faz isso ou aquilo, isso é male tears. É não enxergar sua posição privilegiada e deslegitimar as experiências de vida das minorias em direitos. Em geral utilizado por homens brancos, cisgêneros e heterossexuais.

O que o autor não percebeu é que o filme não foi feito para ele. Aí está o grande problema das male tears, pois muitos homens entendem que o mundo lhes deve algo e que, portanto, tudo feito é para eles, para contar suas histórias, para enaltecer suas qualidades, para lhes dar prazer e status. E aí um cara começa a reclamar que não teve um beijo lésbico nada mais é do que Male Tears nível 100. O que ele não entende é que o mundo não existe para deixar seu pau duro. No mundo nós temos uma miríade de pessoas, orientações sexuais, histórias, cores, mentes, mas para gente assim o mundo deve se ajoelhar aos seus pés. Se temos tanta diversidade no mundo, por que Malévola deve ser um filme para ele?


Aliás, o que mais tem por aí é filme para ele. Veja a indústria do cinema, veja quantos filmes têm um homem branco hetero no papel do herói, veja quantas vezes ele é retratado como agentes secretos, soldados, super heróis, veja quantas vezes ele salva o mundo nas telas do cinema, na televisão. Veja como mulheres morrem nos filmes para que os heróis possam salvar o mundo, veja quantas vezes somos representadas como burras e fúteis sendo salvas por um homem. Veja quantas vezes uma mulher é estereotipada enquanto os homens são multifacetados, com profundidade e como todas correm para ele. Então, você realmente acha que Malévola é misândrico? O longa de Jolie odeia os homens apenas porque não tem um beijo lésbico - também conhecido como beijo - e assim o cara não vai ficar excitado no cinema?

Parece piada, mas não é. Vi vários portais por aí com homens chorando as pitangas. Na rede Filmow, um cara colocou 3 comentários revoltados contra o filme, dizendo que "lugar de princesa é com o príncipe e não num reino mágico" e que a Disney tinha acabado com o filme original. Filhote, LUGAR DE PRINCESA É ONDE ELA QUISER. Segura teu recalque. Você não é protagonista em Malévola, aceita; agora engole o choro e seja humilde.


Como bem disse a Giza aí em cima, a perda do protagonismo está enfurecendo uma ala masculina descerebrada cobrando de Malévola algo que ela não tem, justamente o protagonismo masculino. Nem é para ter. É um filme de e para mulheres, especialmente para crianças, seguindo uma tendência do mercado cinematográfico de mostrar mulheres independentes, que não estão presas ao ideal de amor romântico com realização plena ao lado de um homem. Percebi que está difícil para alguns homens entenderem que as mulheres podem muito bem viver sem eles.


E se isso é tão difícil de engolir, só posso pedir que saiam do caminho ao invés de continuarem com esse xororô descabido. Ao fazer uma crítica ao filme, procurem outros pontos além do seu próprio umbigo. E se não conseguirem segurar as male tears, façam o favor de despejá-las no Sistema Cantareira, porque São Paulo está precisando.




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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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