Ficção científica e o Oscar

quinta-feira, março 06, 2014

E nesta semana nós tivemos a aguardada cerimonia de entrega do Oscar, o prêmio máximo do cinema, oferecido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, fundada em Los Angeles, Califórnia, em 11 de maio de 1927. Considerado o prêmio mais importante da sétima arte, seus indicados competem em várias categorias, desde as mais técnicas até às de performance dos atores. E um filme de ficção científica ganhou sete estatuetas, o que causou debate pelas redes sociais.





Mesmo que Alfonso Cuarón diga que Gravidade não é uma ficção científica, e sim um drama, eu diria que o filme é um drama de ficção científica. Ele tem toda a solidão e a luta pela sobrevivência da personagem de Sandra Bullock, mas ela precisa da ciência espacial para voltar para a casa em meio à uma série de tragédias que se sucedem em órbita, talvez um dos maiores terrores dos astronautas hoje em dia. Ela precisa achar um meio lógico para retornar para casa e precisa pensar rápido. Temos aí vários elementos que compõem o filme. É desonestidade achar que ele é de apenas um gênero.

O filme ganhou sete estatuetas:

  • trilha sonora,
  • efeitos visuais,
  • fotografia,
  • mixagem de som,
  • edição de som,
  • montagem, feita pelo próprio Cuarón, e;
  • melhor direção.

Foi também a primeira vez que um diretor da América Latina levou o prêmio de direção. Os prêmios, espero, serviram para calar a boca de muita gente que odiou o filme, dizendo que era uma obra menor, sem muita importância. Aliás, ouvi isso de fãs mais velhos de ficção científica, daquele que odeiam qualquer inovação em seu parquinho. Também vi gente pelo Twitter reclamando que só ganhou em categorias técnicas. Oscar é Oscar, não sabia que existia essa de Oscar "mais melhor" e Oscar "menos melhor".


Mas os prêmios de Gravidade levam à outra questão: por que a ficção científica é, em geral, ignorada das grandes premiações do cinema? O que acontece com este gênero que parece estar sempre na lanterninha das estatuetas? Tivemos, além de Gravidade, Ela (Her), um ótimo enredo, que também ganhou um Oscar de melhor roteiro original. Mas se olharmos o passado das premiações, vemos que muitos filmes foram injustiçados, como se a Academia tivesse um gosto por filmes menos conhecidos, mais cults ou de outros estilos.

Já vi algumas pessoas sugerindo que ficção científica deveria ser uma categoria separada, premiada independentemente das indicações da Academia. No entanto, teríamos que abrir outras categorias para Drama, Comédia, Infantil, Romance, etc.. Filme é filme, independente do gênero, não acho que deveria ser o caso. Só que faz pensar nas incríveis injustiças que aconteceram com vários ótimos filmes.

Por exemplo, Ian Holm, que interpretou o androide Ash, em Alien, O Oitavo Passageiro, em 1979, não foi indicado pelo papel. E ele foi especialmente traiçoeiro e vil, de uma interpretação hipnótica no longa. Ou então, por que Daryl Hannah não foi ao menos indicada à um atriz coadjuvante por seu papel como Pris, em Blade Runner? Ou Rutger Hauer, pelo mesmo filme? Sam Rockwell, no filme Lunar, interpreta um solitário clone numa base da Lua e foi um personagem memorável, um filme de profundas reflexões, que sequer foi mencionado em grandes premiações.

Em 1968, Stanley Kubrick deveria ter ganhado o prêmio de melhor direção por 2001, e não levou. A impressão que passa é que ficção científica continua sendo vista como um gênero marginal, secundário, seja em livros, seja no cinema. São filmes que podem sim abusar de efeitos especiais para contar uma boa história, como aconteceu com Gravidade, mas em geral vemos mais efeitos do que enredo. Veja o exemplo de Transformers, que acho o melhor exemplo para ilustrar o que o excesso pode fazer.

Lunar (2009)

Ainda assim, mesmo ignorando os N efeitos especiais de muitas produções, existem filmes ótimos que ficam de fora das indicações. É uma pena ver que FC, cuja riqueza para criar novos mundos e sociedades, capaz de profundas reflexões sobre a sociedade permanece presa à um loop de repetições e de mesmices. E não é apenas nas telas. Vemos a mesma coisa acontecendo na TV, com séries saturadas e falta de criatividade, vemos nos livros, repetindo à exaustão os estereótipos já manjados e nos fãs fundamentalistas que se recusam a receber novidades como Gravidade ou sequer se esforçam para entender seu propósito.

Vejo que boas produções de fato existem. Mas muitas vezes não são apreciadas pelo viés que apresentam e acabam classificadas como uma coisa de nerd, sem profundidade. Foi assim com Gravidade, com Ela, com Lunar, com A Outra Terra, Blade Runner... Para mim, é puro preconceito de fã chato, fãs esses que também estão em esferas altas do mundo do show business. Mudando a mentalidade do fã, muita coisa mudaria nas esferas acima para elevar o status da ficção científica e tirá-la da marginalidade.

Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris