A Primeira Diretriz

terça-feira, dezembro 10, 2013

Como reagiriam certos capitães de naves estelares ao se depararem com civilizações menos avançadas em suas jornadas? Poderiam se tornar deuses e governar como quisessem, ou teriam a consciência de não interferirem? Foi o que me peguei pensando enquanto assistia, de novo, a Star Trek Into Darkness e depois Pandorum. Este é um conflito que pulula pela ficção científica e sempre é uma ótima maneira de debater questões como dominação, escravidão, sanidade.





Assisto aos filmes várias vezes para pescar as coisas que não pesquei da primeira vez. E estive assistindo a Stargate SG-1, Pandorum e Star Trek e me peguei pensando na Primeira Diretriz. Para quem não lembra ou não sabe, ela é uma regra da Frota Estelar, aquela que construiu a Enterprise e treinou Kirk, Picard, Janeway e Sisko, e diz o seguinte:

É proibido a todas as naves e membros da Frota Estelar interferir com o desenvolvimento normal de uma cultura ou sociedade. Essa diretriz é mais importante do que a proteção das naves ou membros da Frota Estelar. Perdas são toleradas ao longo forem necessárias para a observação dessa diretriz.

Ou seja, você deve morrer ou perder sua nave para que esta regra-mor da Frota não seja violada. A punição para quem faz isso é a perda da nave, do posto e até prisão. Não importa se o planeta será destruído, se a população será aniquilada, não importa se você tem como ajudar a essa população. Interferir no desenvolvimento de uma civilização menos avançada e mudar o curso natural das coisas é errado e nenhum oficial da Frota Estelar deve fazer tal coisa.

O histórico dela pode ser traçado às aventuras da primeira nave Enterprise, comandada pelo capitão Archer. Já naquela época ficou claro que era preciso uma regra que impedisse a intervenção de raças avançadas em raças menos avançadas, mesmo que isso levasse à aniquilação desta última. O capitão Archer assim fala:

Algum dia meu povo vai ter que inventar alguma espécie de uma doutrina, algo que nos diga o que nós podemos e não podemos fazer. Mas até que alguém me diga que esboçaram essa diretriz, vamos ter que lembrar diariamente que nós não estamos aqui para brincar de Deus.

Quebrar a Primeira Diretriz ou deixar o povo se ferrar?

Posso entender porque isso é errado. Uma população que não chegou ao estágio espacial, ou mesmo industrial, vendo as tecnologias que uma nave possui, vendo equipamentos que fazem em segundos o que eles levariam anos para fazer, ver uma população avançada e diferente da sua levaria a uma série de questionamentos, medo, até mesmo a criação de uma religião baseada numa experiência que eles julgam ser transcendental. E uma regra que proíba alguém de fazer isso pode inibir certos pensamentos megalomaníacos de alguns que achem que brincar de deus é maneiro.

Star Trek, A Nova Geração tratou disso muito bem no episódio Who watches the Watchers, terceira temporada, quarto episódio, onde uma violação acidental da Primeira Diretriz para salvar uma equipe de cientistas levou o povo de Mintaka III a acreditar que Picard era um deus. O personagem Liko ficou tão impressionado com o que viu que começou a acreditar nas antigas lendas de seu povo sobre um ser superior e começa a fomentar uma religião em torno da figura do capitão.

Picard precisa levar Nuria, a líder do povoado, considerada uma mulher sensata, para a Enterprise a fim de mostrar à ela que eles são humanoides, de carne e osso, seres que passaram por vários estágios evolutivos até chegarem ao ponto de voar por entre as estrelas. Foi difícil convencê-la de que ele não era um deus, nem que tinha capacidade de trazer pessoas à vida. Só quando ela se convenceu e quando Liko estava prestes a matar a conselheira Troi é que a confusão foi desfeita e o povo entendeu que ele não era nenhum deus.

Nuria e Picard
Nuria observa Mintaka III à bordo da Enterprise, com o capitão Picard. 

Em Stargate SG-1, o quinto episódio, da primeira temporada, The First Commandment, também tem uma pegada parecida. A equipe SG-9 não mandou resposta após chegar em P3X-513 e a equipe SG-1 é então enviada para saber o que aconteceu. Eles descobrem que o comandante de SG-9 se autoproclamou um deus para a população local e a governava com mãos de ferro. Ele sofreu algo parecido com o que o cabo Gallo, em Pandorum, sofreu quando recebeu a notícia que a Terra fora destruída. A diferença é que o comandante de SG-9 viu a possibilidade de se tornar algo maior do que ele era. Logicamente, a equipe SG-1 se viu obrigada a removê-lo desta posição mítica para o bem da população.

Estas situações fictícias servem como um bom exercício de reflexão. Vemos que a raça humana violou a Primeira Diretriz aqui mesmo, quando povos mais avançados encontraram tribos indígenas e nós vimos a merda que deu. Mesmo sabendo que situações perigosas para uma civilização existam e podem levá-la à extinção, a interferência de uma raça alienígena avançada certamente causaria mais danos que benefícios, ainda mais se eles se revelarem. Mesmo que nunca cheguemos a encontrar uma raça alienígena com desenvolvimento inferior, a ficção científica certamente trouxe uma contribuição importante e uma reflexão a respeito de situações de contato.

Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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