Você teria um Substituto?

terça-feira, outubro 15, 2013

Estive reassistindo ao filme Substitutos (Surrogates, 2009) e me peguei pensando: se eu pudesse ter um substituto, será que teria um? Sei que o filme não é recente e acho que não teve muita agitação quando ele foi lançado, mas este é um daqueles filmes que trazem uma crítica social bastante pertinente. E é a respeito da sociedade da imagem, da imposição de padrões.





Eu já tinha assistido ao filme fazia algum tempo. Reassisti ao procurar um filme para ver e de repente eu percebi a crítica que ele faz. Quem não sabe do que o filme fala: num futuro bem próximo, um cientista cria uma interface neural tão perfeita que é possível controlar robôs com a força do pensamento. A ideia era dar liberdade para que pessoas com paralisia cerebral ou deficiência física pudessem interagir com o mundo ao seu redor, para dar-lhes a autonomia que as outras pessoas possuíam.


A ideia é linda de fato. Enquanto não se pode curar o corpo, se a tecnologia puder dar a autonomia que eles precisam, por que não? O problema é que a ideia caiu no gosto popular. O filme não explica como que 98% de toda a população mundial conseguiu adquirir um Substituto, mas beleza, é ficção mesmo. Ele é um robô perfeito e você pode escolher que ele tenha sua cara, sua composição física ou pode ser o que você quiser, desde que tenha apenas um deles no seu registro. A interface neural faz o resto e você pode sair, trabalhar, estudar, ir para a balada, tudo sem se arriscar a sair com seu corpo físico e sofrer acidentes, por exemplo.

Mas logo entra a crítica. Vivemos - e no filme também os personagens vivem - em uma sociedade devotada à imagem e aos padrões de beleza. Os robôs conseguiram para as pessoas o que as revistas de beleza e moda querem desde sempre: impôr padrões. Vemos robôs magros, bem vestidos, bem penteados, muito fortes, portanto você teria autonomia física, ultra resistentes, portanto danos e machucados são inexistentes. Ou seja, é o ápice da sociedade de consumo, poder espelhar a si mesmo em uma máquina para que ela seja o que você não pode ser.


Vemos que os robôs são aquilo que seus donos querem ser e cuja imagem querem passar aos outros. Vemos que os verdadeiros operadores possuem cicatrizes, olheiras, marcas da idade, cansaço aparente. Mas assim como tudo na vida existe o lado contra, muita gente não aceita a existência dos robôs e assim surgiram Reservas onde a entrada de Substitutos é proibida. Apenas pessoas de verdade podem viver por ali e elas não aceitam muito bem a intervenção da polícia ou das Forças Armadas, que se utilizam de substitutos no trabalho diário. Existe uma cena muito interessante do Bruce Willis querendo viajar com a esposa e ela diz que os Substitutos podem ir no lugar deles, afinal a sensação é a mesma, mas ele quer a esposa, a mulher por trás daquele robô, aquela que vive trancada no quarto, com vergonha de sair. Ele sente falta do contato humano com a mulher que ama.

Então... eu teria um Substituto? Não sejamos hipócritas. Claro que eu teria. Só de pensar que eu não teria mais as dores nas costas e poderia sair, subir e descer escadas, correr, ir para a balada, estudar, encontrar os amigos, ter cara de saúde, viver maquiada e arrumada (é gente, feminista também tem essas dúvidas, não é privilégio de ninguém, não) e ter todas as roupas caindo no meu corpo robótico com perfeição... Poxa, onde eu assino?? Não podemos ser hipócritas em achar que a tecnologia não nos beneficia ou achar que possamos viver sem ela. Eu não teria como criar um blog com pena e pergaminho, teria? Até isso pode ser considerado uma tecnologia. Se o robô me desse mais liberdade e autonomia do que eu tenho hoje, certamente teria um.

Por outro lado, o ser humano é dependente de seu meio e das interações que acontecem nele. Mesmo que um robô possa passar essa experiência com perfeição, estimulando as áreas corretas do cérebro, dando-nos a vívida experiência de tocar e sentir o mundo, isso seria 100% igual ao modo como nosso organismo pode receber as informações? As experiências pessoais não ficariam frias, mecânicas, dissimuladas com o uso de robôs? Assim como tudo na vida, ele tem lados bons e lados ruins. Já temos dificuldades no dia a dia, com pessoas de carne e osso, que nos humilham, ofendem, nos enganam, que não são o que dizem que são e que não cumprem o que prometem. Mesmo vendo seus rostos, mesmo podendo entrar em contato físico com elas, temos vários problemas. Imagine então um mundo de Substitutos?


Se por um lado, ter um robô poderia beneficiar a sociedade, por outro ele poderia ser usado por pessoas mal intencionadas assim como se usa hoje o celular para passar trotes às pessoas de dentro de presídios. Imagine um vírus infectando toda a rede de Substitutos, que tipo de implicações isso causaria? E um Substituto pilotando um avião ou dirigindo um carro? Se a pessoa sofrer algum tipo de colapso enquanto está controlando o robô, o que aconteceria com as pessoas em volta?

Nem tudo que é tecnicamente possível é socialmente desejável. Por mais que me pareça uma tecnologia fantástica, creio que não trocaria o contato humano e as interações humanas, mesmo com os benefícios envolvidos. Nós já temos isso e se chama smartphone. Quantas vezes, numa mesa cheia de gente, eu vi a galera twittando ou entrando no Facebook ao invés de conversarem entre si. A história da raça humana é feita disso, de interações. Não podemos deixar que a tecnologia nos substitua de maneira tão grosseira a ponto de sentar com os amigos e não conversar com eles.

Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris