Estruturas familiares na ficção científica

segunda-feira, agosto 19, 2013

Em geral, a ficção científica não se aventura muito em arranjos familiares que fujam do convencional. Temos sempre núcleos heteros, monogâmicos, com proles resultantes da união, com um chefe de família, que costuma ser o homem. São poucos os exemplos que explorem não só a sexualidade como a independência de personagens, mantendo uma versão puritana e tradicional da família. A raça humana é plural e diversificada, falta uma melhor representação disso.



Dr. Phlox
Dr. Phlox, de Enterprise, tem três esposas. 

Se a ficção científica tem sido uma representação fiel do patriarcado, não é de se estranhar que a família seja representada também de maneira patriarcal e tradicional - modelo de pai, mãe e filhos, como prega o modelo cristão ocidental. Existem poucos avanços nesse sentido.

Mesmo com os avanços sociais dos últimos anos de guarda compartilhada de filhos, mães solteiras, pais solteiros, tios criando sobrinhos, casais homossexuais, não vemos com frequência este tipo de família, em especial o último tipo, que é praticamente inexistente nos enredos. Também são poucos os casos de polígamos, e quando muito são apenas mencionados de leve, mas não retratados. Se são retratados, é o homem o polígamo, em geral.

Talvez um dos arranjos familiares mais comuns seja o do pai solteiro/viúvo/divorciado criando seu filho sozinho. Mas mães e pais que tiveram produção independente, onde não possuem vínculos com os companheiros, ainda são raros. A Dra. Crusher é viúva e cria seu filho sozinha a bordo da Enterprise, bem como o capitão Sisko, que perdeu a esposa na batalha de Wolf 359 e cria Jake sozinho em Deep Space 9. Os pais viúvos também são retratados como viciados no trabalho, dedicados ao filho, tendo poucas relações, pregando uma vida quase monástica. A atração física entre a Dra. Crusher e o capitão Picard nunca esquentou, permanecendo em um puritanismo irritante e Sisko seguiu a etiqueta da família tradicional, casando-se de novo.

Curta Momentum Saga no Facebook

Beverly e Wesley Crusher
A viúva Dra. Beverly Crusher e seu filho, Wesley.

Se o companheiro não morre, casais divorciados também são incomuns, o que é de estranhar, vendo que os divórcios são mais comuns do que a ficção quer nos fazer acreditar. E muitas vezes, os filhos mostram raiva, indignação e rancor com o pai ou mãe por terem sido "abandonados" ou por assuntos mal resolvidos entre os eles. É saudável mostrar que duas pessoas possam continuar suas vidas depois de um divórcio, mas não lembro de ver filhos tendo bons relacionamentos com com pai/mãe depois de uma separação.

Lee Adama começou a odiar o pai desde que o irmão Zach morreu, mas já tinha problemas com ele desde a separação. Bill priorizava o trabalho desde a Primeira Guerra Cylon e acabou sacrificando a família. A esposa Carolanne foi embora, com os dois filhos, mas a relação continuou complicada com os filhos. Antes do ataque às Doze Colônias, Carolanne estava noiva, mas não perdoou Bill por ter usado as conexões da família para ser reintegrado à Frota Colonial. Mais um caso de pai workaholic que perdeu a família. Se fosse uma mulher, as críticas seriam muito pesadas por prezar o trabalho.

Bill e Lee Adama, de Battlestar Galactica. Foi preciso centenas de ataques nucleares às Doze Colônias e a morte de 90% da raça humana para esses dois se entenderem. 

Em tempos mais recentes, quem tem demonstrado uma maior diversificação nos seios familiares é a literatura infanto-juvenil e, por consequência, suas adaptações para o cinema. Os jovens representam uma geração de famílias que fogem do tradicional cristão ocidental, vindo de famílias com mães chefes de família, pais divorciados e casais homossexuais. Um bom exemplo de chefe de família juvenil em uma distopia é a adolescente Katniss Everdeen. O pai morreu em uma explosão em uma das insalubres minas de carvão do Distrito 12, deixando a esposa em uma depressão profunda e duas filhas para criar. Katniss, a irmã mais nova Prim e a mãe passaram fome por várias vezes até que Katniss aprendeu a caçar e, se tornou uma exímia caçadora nas florestas proibidas de Panem, junto de seu melhor amigo Gale, cujo pai também morrera na mesma explosão.

O produto de sua caça era vendido no Prego do distrito onde compravam óleo, comida que ela não podia caçar, linha, remédios quando dava, vendendo também as peles dos animais a quem quisesse. E uma determinada parte de Em Chamas, o segundo livro da trilogia, Katniss admite que se ela não tivesse aprendido a caçar, era bem provável que fosse vender o corpo ao chefe dos Pacificadores (a guarda da Capital, extremamente violenta e repressora que cuidava da ordem em todos os distritos) como fizeram dezenas de moças e adolescentes para poderem alimentar suas famílias. Várias vezes, Katniss fala de pessoas que se deitam nos campos do 12 para morrer e como é possível ver suas costelas, os rostos encovados e a fraqueza física. Katniss assume a família para não vê-las morrer de fome e também é voluntária nos Jogos Vorazes no lugar da irmã mais nova, sem condições para competir.

Jogos Vorazes mostra uma adolescente chefe de família, o que ocorre na periferia com jovens indo ao mercado de trabalho e sustentando a casa com o desemprego ou incapacidade dos pais. Muitas vezes, as famílias possuem apenas a mãe como chefe de família, mãe esta solteira ou separada do companheiro. Mesmo assim, é um caso pontual, pouco frequente. Exemplos de mães solteiras também são raríssimos. Ellen Ripley pode ser citada como tal, com sua filha Amanda, já que não temos conhecimento de um marido ou companheiro. E só sabemos disso quando a cena deletada do filme exibido nos cinemas e na televisão aparece no DVD sem cortes de Aliens, pois antes disso, Ripley não tinha filhos.

Katniss
Katniss Everdeen, Jogos Vorazes. 

Este é só mais um aspecto não retratado ou mal trabalhado nos enredos de ficção científica, que continua patriarcal, monogâmica, tradicional. Este pode ser o modelo mais conhecido, mas não é obrigatório. Os tempos mudaram muito durante o século XX, onde a ficção científica teve sua máxima expressão e precisa acompanhar os novos tempos para ser plural e para mostrar o futuro que queremos que todos possam desfrutar: um futuro de igualdade e de possibilidades, sem preconceitos.

Até mais!

Leia também:
Homo familiaris
Sexo e ficção científica

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





Leia esses também...

0 comentários

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.
O mesmo vale para comentários:
- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.
A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.

Viajantes

Curta no Facebook

❤️


"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris