Sexo e ficção científica

segunda-feira, janeiro 07, 2013


Não existe uma tradição clara e visível de obras de ficção científica com um viés mais sexual. Se olharmos para as obras mais clássicas, veremos que elas são quase que puritanas quando o assunto é sexo e sexualidade. Não estou dizendo que não existam. Mas as expressões que existem não conseguem expôr toda a variada gama sexual dos seres humanos. Se sexo faz parte da natureza humana, por que ele não é mais evidente?



Ao afirmar que isso não é evidente, eu não estou pedindo para termos filmes pornôs com temática de ficção científica. Até porque os que existem são traumatizantes e não enriquecem em nada o gênero, ao contrário, são mais do mesmo.

Sexo na ficção científica em geral se refere às interações sexuais entre personagens, um personagem que muda de sexo, em geral alienígenas, ou explorações mais ousadas e variadas de cunho sexual. Não é entretanto o que costumamos ver no gênero. Tanto a ficção científica quanto a fantástica e a especulativa são em geral bastante puritanas e pouco se esforçam em explorar este lado da raça humana.


Pela possibilidade de imaginar mundos diversos, com uma população tão diferente do usual, com culturas longe do nosso padrão, era de se esperar que houvesse também diversidade nos enredos. Casais homossexuais, ou uma liberdade sexual no que tange ao número de parceiros, em especial em personagens femininas, personagens transsexuais. Os autores podem se valer da ótima ferramenta de especulação digna da ficção para explorar todas as facetas da natureza humana e dar ao leitor a chance de refletir.

As obras estão em geral voltadas para o público masculino heterossexual. Isso por si só já dá um indício da falta de diversidade nas obras. Temos sempre casais heterossexuais e monogâmicos, inclusive entre alienígenas, já que estes são pautados nos seres humanos. Eles constituem família e não possuem relações com outros indivíduos, numa visão patriarcal de unidade familiar. É um padrão facilmente identificável em Jornada nas Estrelas e Babylon 5, universos que possuem variadas raças alienígenas.

Antes dos anos 60, nenhuma obra de ficção científica apresentava qualquer característica sexual. Com os movimentos pelos direitos civis e reprodutivos crescendo nesta década em diante, temos um movimento de contracultura batendo de frente com a visão tradicionalista e surgem obras que exploram mais a sexualidade de homens e mulheres, de viés feminista e deste movimento surge também a literatura queer, pautada na diversidade e tirando do gueto literário as vidas de gays, lésbicas e transsexuais.


É a chamada onda New Wave que começou a deixar de lado o rigor séptico das obras de ficção científica. A sociedade se torna mais liberal pouco a pouco, deixando de encarar o casamento heterossexual como a única forma de expressar sexualidade. O papel das minorias se torna cada vez mais importante e os até então rígidos papéis dos gêneros são flexibilizados. Isaac Asimov escreveu em 1972 a obra Os Próprios dos Deuses (publicado anteriormente como O Despertar dos Deuses), onde uma raça alienígena possuía três sexos, já pego nesta nova modalidade de escrita e de visão da sexualidade.

Entretanto, tal movimento está presente, ainda que de maneira reduzida e pouco visível, na literatura. Não vemos expressões significativas no cinema e na televisão, produtos massificados e que agregam mais consumidores do que os livros, que conseguem atender a um nicho mais específico. Ainda há resistência de autores em mostrar todas as facetas da raça humana, perpetuando a visão mais tradicional, heterocisnormativa e resistência dos espectadores de encarar com naturalidade a sexualidade humana e todas as facetas do sexo. Uma que tem se destacado recentemente é sense8, com uma gama variada de relacionamentos e cenas de sexo.

No Brasil, são alguns livros que retratam a diversidade sexual humana. Se ficção científica tradicional já é difícil, o que dizer de obras libertárias e diversas? Será um indício da nossa sociedade patriarcal e fechada ao diferente? Felizmente a Tarja Editorial tem ótimas obras voltadas para a literatura queer, nem todas de ficção científica. De cunho mais erótico, a Editora Draco tem obras de ficção científica e fantástica reunidas em geral em contos, como Erótica Fantástica. Nas coletâneas de Space Opera, também da Draco, temos vários contos que exploram a sexualidade, todos muito bem escritos. Temos também um romance de ficção científica erótica nacional, A Guardiã da Memória.


Podemos esperar obras que libertem o ser humano do gueto para os próximos anos? Acredito que na literatura, sempre o pavio que incendeia revoluções, a tendência é que ela inclua cada vez mais. Porém, nos cinemas e nas séries de TV, acredito que eles continuarão vendendo mais do mesmo, uma ficção científica séptica, que pouco se arrisca, que pouco diversifica quando o assunto é sociedade humana. Mas e você? O que acha?

Até mais!

Leia também:

Na Teia Neuronial
Sexualidade alienígena - Parte 1 | Parte 2
A orgia humana - Parte 1 | Parte 2

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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James W. Harris