Resenha: A Estrada, de Cormac McCarthy

sexta-feira, maio 24, 2013

Eu relutei muito em ler este livro, pois o filme me deixou com uma impressão muito ruim, algo que eu costumo sentir quando vejo certos filmes distópicos. Mas enfim, tomei coragem, peguei o livro e o terminei em apenas um dia e meio, pois ele é curto, a narrativa é muito fluída e o poder de sua mensagem é muito forte.



O livro
A Estrada, de Cormac McCarthy, narra a história de um pai e seu filho em um planeta arruinado, com uma catástrofe não revelada e onde a vida aos poucos está acabando. Não existe mais plantações, pomares, animais de corte, nada. Existem somente sobreviventes esquálidos vagando pelas estradas, vivendo dos espólios da antiga sociedade humana, buscando comida e água dia após dia. Toda a paisagem é coberta por cinzas, não há mais peixes nos lagos, rios e mares, as árvores mortas caem o tempo todo e tudo o que resta para comer são os próprios seres humanos.

Capa baseada no filme de 2009.

O canibalismo se tornou a única maneira de sobreviver para alguns grupos. Pessoas são mantidas em porões onde partes de seus corpos são gradualmente retiradas, cozidas ou defumadas. Mulheres e crianças se tornam as vítimas preferidas e em pouco tempo, elas praticamente desaparecem. Existem muitas cenas perturbadoras de pessoas estripadas, inclusive bebês postos para assar em fogueiras. O homem tenta privar seu filho do horror destas cenas, mas o menino sabe o perigo que correm. Nele ainda há uma bondade que seu pai acredita não mais existir no mundo e assim tenta protegê-lo a qualquer preço.

A intenção dos dois é seguir para o sul, onde é mais quente, pois eles não aguentariam mais um inverno. O céu vive quase que integralmente encoberto e o sol nunca chega à superfície, o que torna o ambiente ainda mais hostil do que o de costume. O homem vasculha casas, prédios, depósitos e armazéns em busca de comida e água fresca, enquanto ambos empurram um carrinho com seus poucos pertences pelas estradas empoeiradas.

Pai e filho na estrada, cena do filme. 

Ao longo do livro, flashs do passado do homem aparecem - tanto pai quanto filho não são nomeados durante a narrativa - e de como ele acabou sozinho com o menino, que nasceu já neste mundo destruído. A mãe não aguentava mais viver daquela maneira, disse que sua vida acabou quando o menino nasceu e que o marido nada podia fazer para protegê-los, pois as gangues que promoviam estupros e canibalismo já começaram a agir. Então um dia ela sai na noite e desaparece, deixando-o só.

Eles se permitem pequenas alegrias, como nadar numa cachoeira, tomar um banho quente e dormir em camas em um abrigo subterrâneo intocado, cujos donos nunca chegaram a usar. O pai diz constantemente que eles são pessoas do bem, mas que existem pessoas do mal que não carregam o fogo, que querem apenas o mal para todos os outros. O pai, no entanto, mostra-se cada vez mais fraco e teme pela segurança da criança, conforme tentam chegar ao litoral para poderem ir para o sul.

Canibais vigiam as estradas.

A narrativa é muito leve, você não tropeça na leitura em nenhum momento. Não espere também longas falas dos personagens, elas são bastante curtas e concisas, como se não houvesse muito mesmo o que falar na situação em que os dois vivem. Não há nomes, ou lugares, apenas o ambiente destruído, um pai e seu filho lutando para sobreviver.

Ficção e realidade
Cormac nos leva por caminhos tortuosos da sordidez e da bondade humana no livro. Nada tão diferente do que vemos nos noticiários todos os dias. Apesar de o evento catastrófico não ter sido nomeado, é bem possível que tenha sido um meteoro ou uma erupção vulcânica devastadora o suficiente para acabar com a atmosfera do planeta e com a vida na superfície. A sociedade em pouco tempo cairia com uma situação dessas. As mortes causadas por fome aumentariam drasticamente com o fim dos vegetais, depois com o fim dos animais, deixando apenas a opção das comidas enlatadas e em conserva. E quando isso acabar?

No livro Só a Terra Permanece, esta é uma preocupação do protagonista. Qual o legado que seus filhos e netos terão? O conhecimento para a sobrevivência acaba sendo mais importante do que aulas de História e Geografia, pois assim que a comida em conserva acabar e todos os confortos da sociedade moderna chegarem ao fim após décadas de descuido, estaríamos mais uma vez à mercê do ambiente e dos seus riscos, tendo que caçar e plantar nossa comida e lutar por nossa segurança.

Uma grande atuação de Viggo Mortensen.

Outra coisa que nos faz pensar ao ler este livro e que é algo que The Walking Dead continuamente trabalha: até que ponto podemos perder nossa humanidade em uma situação de catástrofe? Devemos nos comportar como animais selvagens ou devemos exercer algum comportamento característico de sociedade numa situação dessas? O menino, mesmo que de uma maneira muito contida, ainda mantém alguma humanidade, alguma bondade, que o pai acredita ser algo onde não teve tanta influência, pois ele precisa demonstrar a violência e a impetuosidade que o mundo exige.

Pontos positivos
Bem escrito
Leitura prazerosa e fluída
Ótima análise da sobrevivência
Pontos negativos

Pode ser devagar em alguns pontos
Cenas fortes de violência


Título: A Estrada
Títutlo original: The Road
Autor: Cormac McCarthy
Nº de páginas: 240
Editora: Alfaguara
Onde comprar: Amazon


Avaliação do MS?
Mesmo este não sendo um livro fácil quanto à temática, é um livro de fácil compreensão e leitura e eu certamente o indicaria nas escolas. Ele traz uma visão profunda sobre duas pessoas diferentes tentando sobreviver dia após dia em um mundo hostil demais para ambos. E o principal, como manter viva a esperança em uma criança, que pode ser a última de um planeta que morre aos poucos. Mesmo suas cenas sendo fortes em alguns momentos, é um livro indispensável.


Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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