Resenha: Só a Terra Permanece, de George R. Stewart

sexta-feira, abril 19, 2013

Este é um daqueles livros que você lê e chora no final. E é também um daqueles livros que pouca gente conhece e que só aqueles muito fãs de ficção científica vão buscar para ler. Ele fala de um mundo onde a catástrofe já aconteceu e tudo o que resta agora é sobreviver. É com certeza um dos melhores livros que eu já li.




O livro
Só a Terra Permanece foi escrito em 1949 por George R. Stewart, seu livro mais famoso, que serviu de inspiração para Stephen King escrever A Dança da Morte. Ele conta a história de Ish Williams, geógrafo, que sai da cidade indo para as montanhas para um trabalho de campo. Em seus estudos, ele encontra um velho martelo, que o acompanha até o fim da vida e é picado por uma cascavel, o que o deixa doente por vários dias.


Ele resolve procurar um velho amigo da estrada em busca de comida e informações sobre um incidente em sua cabana no campo. Um homem entrou nela durante à noite e quando Ish avisou que estava doente, por causa da picada da cascavel, o homem saiu correndo, cantando pneus. Ish encontra os lugares vazios e quando volta à cidade, começa a ver corpos insepultos pela beira da estrada. Encontra a casa dos pais vazia, os mercados, as oficinas, os restaurantes. Carros parados nas ruas, animais domésticos abandonados, silêncio mortal pela cidade inteira.

Pelas informações que conseguiu coletar em jornais, houve uma epidemia mortal alguns dias atrás e a população mundial fora dizimada. Ish se sente perdido e solitário e essa solidão é compartilhada com Princesa, uma cadelinha que pediu abrigo e o acompanha em suas viagens pelo país à procura de sobreviventes. Aqui e ali ele os encontra. Sozinhos, assustados. Um deles bebeu até morrer. Sentindo-se o único homem do mundo, Ish pega a estrada e atravessa o país, encontrando alguns poucos e desconfiados sobreviventes. Em Nova York conhece um casal animado, com quem joga cartas por várias noites, mas antes da chegada do inverno, ele resolve voltar para casa, em São Francisco.

A ponte se torna um símbolo da civilização perdida.

Em sua jornada, ele vê bandos de cachorros caçando, vê vacas pastando ao léu, as plantações maduras nos campos sem ninguém para colhê-las. De volta à casa dos pais, o bilhete que deixou está na mesa, intacto. Ele pilha os supermercados, buscando comida, antes que os ratos cheguem. Então conhece Emma, por quem se apaixona e acabam morando juntos. Outros sobreviventes aparecem e todos formam uma pequena colônia, que se ajuda e começa a crescer.

Ish tem filhos, os amigos têm filhos, mas de maneira muito triste ele percebe que os tesouros da civilização estão se perdendo. Ele visita com frequência a biblioteca municipal para ler a coleção de lá, mas percebe que seus filhos serão incultos, quase bárbaros, por mais que ele tente ensiná-los a ler e escrever. Vemos então, junto com Ish, que a civilização está perdida. As construções estão lá, os livros, a comida enlatada, os carros, o fósforo, armas, mas um dia tudo isso vai acabar e os filhos e netos dos sobreviventes não saberão como se virar neste novo mundo.

Ele também percebe o nascimento da superstição. O martelo que Ish encontrou no trabalho de campo é para ele um símbolo de uma época onde a civilização florescia. Com ele na mão, Ish se sente seguro. Mas para os filhos e netos da pequena comunidade, é um objeto sagrado. Eles vêem os americanos, que construíram toda aquela imensa cidade vazia, como deuses. E Ish sendo um dos últimos americanos, se torna um tipo de mestre, um sábio, um deus.


Ficção e realidade
É muito interessante o modo como o autor nos faz pensar no depois da civilização partir. Quando não sobrarem mais armas ou comida ali disponível para saque num supermercado, o que os sobreviventes farão? Saberão plantar para matar a fome? Como começar um fogo? Como caçar? A preocupação de Ish é válida, pois enquanto eles ainda possuem os espólios do apocalipse, o que acontecerá depois? Percebendo que tentar ensinar matemática, história e geografia é ineficaz, Ish mostra como construir um arco e flechas, pois imagina que serão mais úteis no futuro quando as armas ficarem sem munição.

Também fica uma dúvida. Em uma catástrofe deste porte, onde 99% da população mundial sucumbiu, será que um dia os sobreviventes alcançarão o mesmo nível que a civilização passada alcançou? Seguirá os mesmos passos? Ou permanecerá estagnada, vivendo um dia de cada vez, caçando e vivendo no que antes eram as casas e prédios das pessoas? O autor comenta em um determinado ponto: "Saímos da caverna e voltamos para a caverna", pois ele é o último americano vivo, a última pessoa que viu a cidade em movimento, os aviões, as guerras e teme pelo futuro.



Pontos positivos
Leitura prazerosa
Bem escrito
Visão diferente da civilização e da sobrevivência
Pontos negativos

O começo é devagar, mas vale à pena continuar



Título: Só a Terra Permanece
Título original: Earth Abides
Autor: George R. Stewart
Nº de páginas: 333
Editora: fora de catálogo, a última edição foi da GRD


Avaliação do MS?
Só a Terra Permanece foi uma grata surpresa, pois em geral acho os livros distópicos muito tristes e obscuros. Mesmo este sendo um livro distópico, ele não mostra uma situação degradante da raça humana, mostra a tentativa de manter as pessoas unidas e prosperando, mesmo com tudo o que aconteceu, mesmo com a imprevisibilidade deste novo mundo. É uma pena que a obra seja pouco conhecida no Brasil, pois é uma leitura prazerosa e importante para a ficção científica. Cinco aliens para ele.


Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

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