Moda e ficção científica

quarta-feira, maio 22, 2013

Não é de hoje que vemos a ficção científica acompanhar as tendências da moda e da época em que são criadas. Os filmes apontam tais tendências, muitas vezes contando com a ajuda de estilistas para compor o visual dos filmes e séries. A ficção científica mostra uma visão de mundo que transcende o nosso próprio presente e a moda tenta acompanhar tais elementos visionários.



Nos anos 50, a ficção científica teve um boom. Era uma época que tentava esquecer os horrores da guerra, tentava ter uma perspectiva do futuro que se agigantava diante da nova ordem mundial. Também era um momento em que a febre espacial estava em voga e portanto, vários elementos da tecnologia de foguetes e de ida ao espaço ganharam o apelo do público através da ficção científica. Era um fenômeno social.

Anne Francis no filme O Planeta Proibido e a polêmica minissaia - 1958. 

Em O Planeta Proibido, de 1956, filme que inspirou Gene Roddenbery na criação de Star Trek, a atriz Anne Francis aparece com uma polêmica minissaia, dez anos antes de Mary Quant transformar esta vestimenta em um símbolo da emancipação feminina nos anos 60. Com 2001: Uma Odisseia no Espaço, o figurino criado por Hardy Amies mostra um estilo linear, simples, de cores neutras, em tons de branco, cinza e preto. Estava inaugurada a era de design e arquitetura inspirados em filmes e sets de filmagem.

Nas passarelas de moda, a febre não demorou a chegar. André Courrèges lançou em 1964 uma coleção chamada Space Age, introduzindo elementos inusitados até então como PVC e elementos metálicos, tudo inspirado no Sputnik. Tal coleção foi seguida por Pierre Cardin, apresentando capacetes espaciais, mini vestidos em vinil e muito prateado. Quem se lembra de Barbarella, deve lembrar de seu figurino super sexy e futurista de metal, plástico e plexiglass assinados por ninguém menos que Paco Rabanne. Essa visão mais retrô tem ganhado espaço nos dias de hoje, como podemos ver no renascimento de Jornada nas Estrelas em Star Trek 2009.

Coleção de André Courrège. Parece a Lady Gaga essa da direita, não parece? 

Paco Rabanne ficou tão inspirado pelos materiais exóticos e futuristas que criou várias coleções com estes elementos, causando indignação em Coco Chanel, que dizia que ele não era um estilista de verdade e sim um metalúrgico da moda.

Barbarella
Jane Fonda é Barbarella, pelas mãos de Paco Rabbane.

Em 1969, a ficção científica se torna realidade com a chegada do ser humano à Lua, um evento que mudaria a cultura pop e de FC nas décadas seguintes, alimentando livros, filmes e conspirações até hoje. A influência deste evento na moda foi o surgimento de modelos pálidas, muito brancas, como se tivessem de fato tomado um "banho de Lua" nas passarelas. Mary Quant leva essa palidez para sua coleção, com modelos em vestidos trapézio bastante curtos e anteninhas saindo dos cabelos, o que inspirou também Gene Roddenberry ao criar o figurino para o uniforme da Frota Estelar das mulheres da Enterprise: vestidos com minissaias e botas de cano alto. Isso chocou uma sociedade conservadora até o talo.

Uhura
Uhura, indignando os conservadores.

Conforme os anos 80 se aproximam e a FC se estabelece como uma contra-cultura, um movimento de visionários e de previsões, a moda acompanhou o movimento. Enquanto Star Wars apostou em cores claras, neutras, poucas cores e elementos pálidos, Blade Runner, anos mais tarde se inspirou na atmosfera sombria, colorida e entulhada de uma Los Angeles de 2019, onde o metal, o plástico, o vinil e o látex se destacam, como na replicante Pris. Isso foi uma revolução, pois a maioria dos filmes sempre apostava nas cores clássicas da ficção científica como o dourado, o prata e o preto. Flash Gordon é o que mais se destaca com estes tons. Dentro de Star Wars, em O Retorno de Jedi, Carrie Fisher sensualizou com um biquíni dourado ousado e provocante.

A aura dark tornou-se um elemento presente na maioria dos filmes a partir desta década. Nos anos 90 temos Michelle Pfeiffer em uma roupa inteira de couro preto, assim como Neo e Trinity em Matrix, que abusou dos elementos em vinil e plástico, tons de verde, preto e poucas cores. No outro extremo, temos O Quinto Elemento, assinado por Jean Paul Gaultier, que fez as cores explodirem nas telas com o design de Moebius. Em Star Wars, A Ameaça Fantasma, George Lucas resolveu sair do básico da Princesa Leia e colocou a rainha Amidala em destaque com suas roupas altamente elaboradas, com mangas bufantes, casacos rendados e muitas camadas. Alguns destes elementos das roupas de Amidala foram comprados em brechós. A maquiagem pálida e com traços de vermelho lembram àquela usada por Pris.

Queen Amidala
Rainha Amidala, Star Wars: A Ameaça Fantasma.

A última coleção de Alexander McQueen, que morreu em fevereiro de 2010, foi inspirada no filme Avatar, de James Cameron. Muitas cores, tons de azul e verde, vestido curtos e mangas bufantes. Na coleção de 2011/2012, Alexander Wang se inspirou em Blade Runner e trouxe os elementos mais marcantes deste filme que é um dos clássicos absolutos de FC: muito couro, casacos longos como o de Deckard, botas de cano alto e rebites.

Coleção de 2011/2012 de Alexander Wang.

Karl Lagerfeld, assinando por Chanel, e Versace também apostaram pesado neste visual futurista em suas coleções em 2012, alguns dele indo até à ficção científica retrô. Materiais pesados, cor, cortes ousados e metal.

Chanel

Saindo do exagero de alguns figurinos do passado, como em Flash Gordon, chegando à simplicidade chapada de Matrix, a moda sempre se valeu das inspirações da ficção científica para levar às passarelas as tendências para as estações. O que é apresentado são sempre modelos, uma inspiração, um conceito e nem tudo pode ser levado às ruas, mas isso por si só alimenta a industria da moda pelo mundo todo. E nem sempre imaginamos que o que vemos na tela tem a assinatura de algum artista por trás.


Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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James W. Harris