Monteiro Lobato e Fahrenheit 451

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17 de setembro de 2012

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Monteiro Lobato
Impossível ficar alheio à toda a discussão da semana a respeito do racismo na obra de um dos mais importantes escritores da literatura brasileira. A situação caiu até no colo dos ministros do Supremo Tribunal Federal e gerou uma polêmica nas redes sociais. Afinal, Monteiro Lobato era ou não racista? A questão, a meu ver, nem é essa.

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Eu tive pouco contato com as obras de Lobato na escola além do programa Sítio do Pica-Pau Amarelo. Mas reconheço a vanguarda do autor por dar à literatura infantil deste país a importância necessária. Crianças são ótimos leitores, são críticos, entendem muito bem a diferença entre o real e o imaginário e podem elas mesmas fazer a avaliação necessária sobre o que estão lendo.

crianças lendo
Crianças são excelentes críticos literários.

Essa polêmica sobre o racismo de Lobato me fez lembrar a polêmica em torno dos livros de Harry Potter, acusado de satanismo por alguns pais cristãos fundamentalistas que não queriam que seus filhos tivessem a alma prejudicada e perdida pela obra. E lembro também de várias crianças e jovens dizendo que eles sabiam separar o real do imaginário e que não estavam preocupados, pois conseguiam entender as mensagens dos livros.

Se Monteiro Lobato era ou não racista, precisamos entendê-lo no contexto da sociedade brasileira da época. Julgá-lo com os valores de hoje é desmerecer suas contribuições e todo o universo por ele criado. Concordo que a obra deva ser analisada por professores e alunos de modo a tratar da maneira que se deve. O que é o racismo? Como ele se apresentava na sociedade da época? Por que houve essa mudança de pensamento, o que mudou? Como era a sociedade brasileira da época? São perguntas que a garotada pode responder e é uma discussão muito bem vinda na sala de aula, que é o melhor ambiente para se mudar uma nação.

criança branca e negra
O que é o racismo? 

Mas já vi muita gente, inclusive professores, que querem banir as obras das salas de aula e bibliotecas escolares do país todo. Professores que não usam certas obras em sala, porque possam conter assassinatos, sexo, racismo, e oferecem obras mamão-com-açúcar para os jovens lerem. Caros colegas, os alunos não são idiotas. Eles vão procurar livros com mais conteúdo fora da escola e vocês estão perdendo uma chance de ouro de botar essas cabeças para funcionar ao seu favor e a favor das próprias obras. Se vamos banir livros com conteúdo polêmico das bibliotecas, nenhuma escola terá livros mais.

Banir livros, ainda mais importantes para a literatura, por causa de um pensamento que deve ser justamente exposto e discutido, é varrer para debaixo do tapete a questão, assumindo que todo leitor é incapaz de racionalizar a situação. Não haveria necessidade de julgar uma obra no Supremo Tribunal Federal se a sociedade estivesse preparada para encarar o racismo que não está apenas nas obras de Lobato, mas está no dia a dia de negros, mulatos, mulheres, indígenas, homossexuais, transsexuais, qualquer pessoa que esteja "fora" do padrão.

racismo
Ser diferente numa sociedade de padrões é bem difícil.

Os alunos não são páginas em branco onde os professores desenharão conceitos e opiniões. Eles já vêm com elas para a escola, alguns deles com posições preconceituosas e cabe ao mediador, que é o professor, analisar e expôr esse lado, discutir, mostrar o mundo e como ele funciona além da vida do aluno. Banir um livro nas escolas, como muitos gostariam de fazer e até fazem, em especial nas particulares, é o mesmo que proibir sua leitura e isso não está longe do que Ray Bradbury escreveu em Fahrenheit 451, onde os livros eram subversivos, não contribuíam em nada para a sociedade e tinham que ser queimados. Assim como no caso de Lobato, os livros foram banidos aos poucos, alegando que a sociedade não tinha preparo para entendê-los.

Esse é um abismo educacional que o país vem atravessando não é de hoje. Sabemos o quanto nossos professores saem despreparados das faculdades e vão para a sala de aula, trabalham em três, quatro, cinco, escolas diferentes, não conseguem se atualizar, não conseguem dar suas aulas com qualidade. É um atraso no pensamento social querer banir um livro porque ele não é compreendido. É querer fazer sumir o racismo e o preconceito que sabemos ser forte na sociedade com quem é considerado diferente e isso não pode ser calado, deve ser exposto.

Livros na escola
Livros na escola

Fica então a frase do próprio Monteiro Lobato:

Um país se faz com homens e livros.

Contribua para a discussão. Deixe seu comentário. O que você acha que deve ser feito com as obras de Lobato? Até mais.



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