A visão eurocêntrica nos mapas

segunda-feira, agosto 08, 2011

Não era essa a postagem programada para esta segunda-feira, mas após uma conversa muito bacana com a cara colega geógrafa e professora Keille, do blog GeoSabedoria, decidi escrever sobre essa visão eurocêntrica que domina a mente da maioria das pessoas. O motivo disso tudo foi um trecho de uma postagem aqui do MS do dia 27 de julho chamada Erros geográficos mais comuns. O trecho "polêmico" está destacado em vermelho:

"Norte e Sul
Um mapa ao contrário parece muito estranho, não parece? Mas olha que legal, o Brasil estaria no Hemisfério Norte, tido como desenvolvido, seria bacana. Mas quem determina que os mapas são do jeito que a gente conhece? Os primeiros mapas oficiais saíram da Europa e se tornaram referência. Foram estes primeiros cartógrafos que entenderam o mundo com um norte e um sul. A ausência de grandes extensões de terra no hemisfério sul impossibilitou a chegada do homem nestas regiões e portanto não houve desenvolvimento de civilizações. Se os hemisférios fossem trocados, nossa posição e a posição do norte e do sul seriam bem diferentes, bem como os mapas. É tudo convenção. Outros chamam de dominação."



O que eu questiono neste tópico? Quando a gente olha para os mapas que são disseminados pela mídia o tempo todo, nós estamos olhando uma convenção, uma imagem padrão. Esses mapas não apareceram do nada, não caíram do céu. Eles são o resultado de séculos de observação e refinamento de técnicas cartográficas para chegarmos ao modelo que temos hoje. Vou fazer um apanhado histórico geral da cartografia para voltarmos ao ponto que quero abordar.

Mapa-múndi de Martin Waldseemuller, ano 1507

Mapa em argila da cidade de Nippur

Os primeiros mapas, obviamente, eram amadores, pouco corretos e resultado de observações feitas num espaço bem limitado. O primeiro registro da tentativa de mapeamento foi numa tábua de argila da região mesopotâmica (acima, um da cidade de Nippur). Pode-se notar nele que não há nada de especial e é de difícil compreensão, inclusive. O Antigo Egito refinou um pouco mais a técnica, mas os romanos foram os primeiros a expandir a visão de mundo até por sua própria extensão territorial. Todas as estradas levam à Roma, certo? Então era necessário manter além das vias e rotas do império, manter um registro de todas as colônias e territórios conquistados. Se situar no espaço terrestre é uma necessidade humana e não é à toa que a Cartografia (do grego chartis = mapa e graphein = escrita) é uma ciência largamente utilizada pelas Forças Armadas. Conhecer seu inimigo é conhecer as fraquezas de seu território e as melhores maneiras de conquistá-lo. Uma nação não pode defender suas divisas sem mapas corretos e precisos.

Mapa TO
Mapa TO
A relativa estagnação da cartografia na Idade Média ficou por conta dos mosteiros, onde surgiu o mapa TO, bastante simplista, que mostrava como o centro do mundo a cidade de Jerusalém, com todas as terras em volta. Pode-se notar que nesta visão de mundo, as Américas, a Antártica, a Austrália e a Oceania não existiam, pois não eram conhecidas. Essa era a convenção na época, um mundo dominado pelo poder da igreja, cujo centro era a cidade santa de Jerusalém.

Agora voltemos para o presente e para o trecho que, a meu ver, causou polêmica à toa. Os mapas que temos hoje são uma convenção, ou seja, foi aceito que os mapas fossem mostrados desta maneira. Quando você vira o mapa ao contrário, como nesta imagem, o que parece?


Parece que tudo está errado. Mas por que? Porque crescemos e aprendemos a ver o mundo padronizado. Mas não existe em cima e embaixo no universo. O em cima e embaixo foram criados pelo ser humano para sua comodidade, locomoção e localização e no caso dos nossos mapas toda a ciência se concentrou no Ocidente, mais precisamente na Europa. Eis que surge o eurocentrismo, que coloca a Europa no centro do mundo, exatamente como Jerusalém foi na Idade Média. Não se engane. A nossa sociedade é toda ela baseada num modelo europeu, inclusive na ciência. E se você acha que eu falo besteira, olhe no mapa-mundi e veja qual é a linha que divide os hemisférios - Meridiano de Greenwich - veja por onde ele passa e onde está a cidade. Para poupar-lhe o esforço, já digo que passa sobre a localidade de Greenwich, onde fica o Observatório Real, nos arredores de Londres, Reino Unido e que, por convenção, divide o globo terrestre em ocidente e oriente, permitindo assim medir a longitude. Se ao invés de Greenwich o meridiano passasse sobre Brasilia o mapa seria diferente, pois aqui seria o centro do mundo. O grande problema dos mapas é que vemos o mundo com um começo, um meio e um fim pois ele foi achatado e colocado numa folha de papel que o distorce, mas não esqueça que o planeta tem a forma semelhante a um globo e ele não tem em cima, embaixo, a menos que você coloque isso nele. Com o planeta isso foi feito.

Meridiano de Greenwich

Também fomos ensinados que o hemisfério sul é local de subdesenvolvidos e países de Terceiro Mundo, com exceção da Austrália. Crescemos vendo um mundo que repudiava os sulistas. Mas a situação econômica que temos hoje, com EUA devendo até as cuecas, países da Europa com conflitos civis pelas ruas por conta de dívidas altíssimas, põe em cheque essa visão de Europa dona do mundo, visto que a economia global está justamente escorada nas nações emergentes: Brasil, Rússia, Índia, China e recentemente África do Sul. Clique e veja esse mapa do hemisfério norte e sul do ponto de vista econômico. E esse domínio eurocêntrico ainda é forte e pulsante.

O que o trecho em vermelho fala é que há uma ausência de terras contínuas, como acontece na Europa, onde uma civilização dominante se desenvolveu e criou os mapas de forma a impôr sua visão de mundo sobre o planeta todo. E se refere a esse eurocentrismo e pouco pensado pelas pessoas que criticaram o texto sem se dar ao trabalho de fazer a reflexão e perceber que no centro do mapa está o continente europeu. Até de burra me chamaram. Falaram da América do Sul e o quanto eu desmereci as civilizações pré-colombianas.

Queridos, não existe apenas a América do Sul no Hemisfério Sul. Outros grandes povos existiram na África e na Oceania e tiveram seus motivos para não terem desenvolvido uma civilização e ciência avançada a ponto de criar uma convenção tão forte como a eurocêntrica pela descontinuidade dos continentes e a falta de contato com outros povos e civilizações, coisa que não aconteceu com a Europa, onde havia um contato com bastante frequência com outras culturas. Basta olhar o mapa-mundi para ver que existe mais água do que terra no sul do que no hemisfério norte. Se os povos do hemisfério sul tivessem constituído uma civilização tão forte e dominassem o mundo como a Europa fez, pode ter certeza de que o mapa seria assim:


A visão incomoda pois o nosso lugar no mundo é deslocado. Ficamos com a sensação de termos perdido a direção e isso é natural. Não é porque a bússola aponta para o norte que os mapas foram feitos, pois antes mesmo de descobrir esta força, os mapas eram confeccionados, cada um ao modo da época. Para o império romano, Roma era o centro do mundo. Em alguns lugares da Oceania não havia o conceito de norte. Dessa forma, antes de declarar apaixonadamente sua opinião sem ter o domínio do que se fala, como se não houvesse amanhã, faça como muitos leitores fazem: poste a dúvida de maneira educada, perguntando o porque daquilo, sem agressão nem ideias pré-concebidas ou faça uma pesquisa por si próprio para entender o porque dos mapas terem uma convenção, que não é errada, mas ela deve ser sim discutida pois essa visão não é nossa, ela foi imposta e é preciso saber o porque desta imposição.

Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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