As megacorporações - SciFi e realidade

quinta-feira, março 31, 2011

Há alguns anos atrás eu li um artigo na revista Superinteressante que falava das grandes corporações, aquelas cujos lucros superam os PIBs dos países. E a pergunta inicial era bem perspicaz:

O que você acha mais fácil? Descrever a bandeira de países como o Paquistão e a Bolívia, por exemplo, ou o logotipo de empresas como a Volkswagen e a Coca-Cola?

Até eu tive dificuldades na hora de responder à pergunta (antes de entrar na faculdade de Geografia, só esclarecendo... rs). Realmente, os logos, as marcas, são presentes na sociedade. E existem similaridades entre aquelas do mundo do SciFi e as da realidade. Podemos citar várias delas do mundo da ficção:

  • Weyland-Yutani - Alien e Alien vs Predador
  • Umbrella Corporation - Resident Evil
  • BNL - Wall-E
  • Federação do Comércio - Star Wars
  • OCP (Omni Produtos de Consumo)- Robocop
  • InGen - Jurassik Park
  • US Robotics - Eu, Robô
  • RDA - Avatar
  • Cybertronics - AI, Inteligência Artificial
  • Psi Corp - Babylon 5
  • Cyberdyne Systems - Exterminador do Futuro

As que mais me assustaram nos filmes foram a Umbrella e a Weyland-Yutani. As duas ignoraram direitos civis, tinham projetos escusos com bioengenharia e dominavam uma parcela significativa das sociedades. Eram extremamente influentes, em especial junto aos governos e detinham recursos praticamente ilimitados. E não vejo muita diferença das companhias que temos hoje.

Leia também: Dez empresas da ficção científica

Resident Evil



Mas como ela se tornaram assim tão grandes, tão mega? Essas empresas não são lideradas por uma única pessoa responsável por todo o capital usado nos investimentos, elas foram divididas em cotas e postas à venda - as ações das bolsas de valores pelo mundo. Desta maneira, elas puderam viabilizar um volume maior de negócios dividindo também os riscos e os lucros com outras pessoas. A aceleração de fluxos dentro do capitalismo atual fez com os investimentos, o capital, não mais tenham divisas, pois eles circularam pelo mundo em todas as bolsas de valores online. E isso contribui para seu crescimento. Elas são poderosas o suficiente para mudar a geografia dos lugares, como as companhias de navegação mostraram ser na época dos descobrimentos (séculos XV e XVI).

Muita gente acredita que a globalização é um efeito destas megacorporações, mas na verdade as corporações é que são o efeito delas. O que é globalização? O termo passou para o senso comum e é usado de maneira desregrada. Em termos comuns, globalização é globalizar, padronizar certas características. O Wikipedia define assim:

A globalização é um dos processos de aprofundamento da integração econômica, social, cultural, política, que teria sido impulsionado pelo barateamento dos meios de transporte e comunicação dos países do mundo no final do século XX e início do século XXI.

O erro é a data e a magnitude. Os antigos romanos eram globalizadores. O império conquistou territórios e sob sua bandeira eles integraram sua economia, sociedade, aspectos culturais e sua política com o que encontraram nas regiões conquistadas, criando redes de estradas e um correio eficiente. Para os romanos, o mediterrâneo era o mundo todo. Só por isso não é globalizar?

Os romanos foram os primeiros a notar que uma associação entre várias pessoas tinha uma identidade diferente e coletiva, distinta de seus membros. Seria a pessoa física e a jurídica em termos de hoje. O verdadeiro sucesso dessas associações surgiu tempos depois na Itália inspiradas na muqarada, um modelo árabe onde uma empresa era criada para financiar negócios em especial nas longas viagens. Isso garantia que o investidor não arriscasse sua fortuna se a bancasse pessoalmente, então ele comprava uma cota desta muqarada. E não ficava só nisso, se tudo corresse bem, os donos das cotas ficavam com 3/4 dos lucros, caso desse tudo errado, o máximo de perdas seria de uma cota. Fácil, né? Começou na Itália, pois seus portos eram os pontos de partida das Cruzadas.

Robocop

As multinacionais também surgiram nesta época pois as empresas de cotas queriam investir em expedições em território estrangeiro. Com isso, surgiram os bancos, pois eles facilitavam as transações comerciais em países com moedas diferentes (e o nome surgiu pois eles atendiam em balcões ou sentados em bancos de madeira). Foram bancos como este que financiaram os artistas do Renascimento. Na China e no Império Otomano já existiam essas empresas. Os muçulmanos têm esse conceito comercial arraigado em sua cultura, pois o próprio Maomé era mercador.

Os grandes descobrimentos favoreceram o aumento de poder destas companhias para administrar todas as riquezas das novas terras, como a Companhia das Índias Orientais na Inglaterra, que em 1700 já empregava 350 pessoas na sede. A Holanda implantou a Companhia das Índias Ocidentais, que administrava as plantações de açúcar no nordeste brasileiro.

Em 1611 surgia a primeira Bolsa de Valores para regular a compra e venda das cotas (ações) das empresas. Bolhas de especulação financeira arruinaram muitas empresas, até que nos Estados Unidos, o conceito de empresa se firmou, em especial pelo american way of life, tornando milionários e poderosos homens pobres e de origem humilde como:

  • Richard Sears - Sears
  • George Eastman - Kodak
  • John D. Rockefeller - Standard Oil
  • Henry Ford - Ford Motors
  • Charles e Joseph Revson - Revlon

Ficção e realidade
As empresas buscam lucro, afinal, é capitalismo selvagem e puro. Com o lucro vieram os cartéis, os monopólios, empresas prejudicando concorrentes, depredação do meio ambiente. Se a Grande Depressão de 29 e a Crise Norte-Americana de 2007 não as derrubou, as corporações do futuro vão conseguir sobreviver e parecer muito com as empresas da ficção científica.

Wall-E

As empresas, na maioria, mas não todas, pararam de ver os funcionários como mera mão de obra, como seria na visão fordista. Agora eles são recursos humanos e seu bem estar é essencial para a saúde da empresa, para continuar com os lucros. E empresas como a Google, Yahoo, Microsoft, Apple, todas pensam nestes novos moldes.

As empresas da ficção buscam o lucro, acima do bem estar de qualquer um até de seus funcionários, como a Umbrella que criou um vírus que, inicialmente até era bem intencionado, mas que transformou as pessoas em zumbis sedentos de sangue e a Weyland Yutani, que fez de tudo para pôr as mãos num alienígena perigoso, inclusive, matando pessoas. E algumas criaram a própria destruição, como a Cyberdyne, que deu origem à Skynet e por consequência os Exterminadores.

Série Alien

A OCP chegou a usar o cadáver de um policial para criar um vingador cibernético para por fim aos crimes em Detroit. A RDA de Avatar se dispôs a viajar até um sistema solar em busca de um minério não existente na Terra e sacrificar a população nativa em busca do lucro. A Psi Corp é interessante pois seu produto são os telepatas, que ocupam cargos no comércio e na política para assegurar que ninguém minta ou se prejudique numa transação. A BNL de Wall-E é a mais abrangente, pois ela era dona de governos inteiros. A Federação do Comércio de Star Wars era uma imensa associação com poder de bloquear rotas para planetas e com cadeira cativa no Senado galáctico. E a InGen resolveu brincar de deus e trouxe os dinos de volta à vida.

São tão diferentes das empresas que vemos? Talvez pela abrangência e por suas criações, mas não no sentido puro de empresa, pelo menos no molde fordista, cuja visão de lucro se sobrepõe ao bem estar das pessoas. E o que será das empresas reais no futuro da exploração espacial, da alta tecnologia? Em mãos erradas, o mesmo que aconteceu com as empresas do mundo SciFi. Uma questão que só se resolve com ética.

(...) mesmo que não tenhamos nos dado conta, as empresas modernas já não estão tão preocupadas em como produzir seus produtos, mas no trabalho de branding, que consiste em fazer com que suas marcas permaneçam em nossa mente como uma força maior do que qualquer outra organização em nossas vidas.

Leia mais:
Superinteressante - Abril 2007

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Sensacional a matéria Lady, adorei! Estou escrevendo um material sobre o universo Marvel 2099 (publicado orginalmente entre 1992 a 1996), e para entender melhor o conceito de Megacorporação a sua matéria foi de altíssimo valor! Depois darei uma olhada melhor nas outras matérias que vc postou! Mil bjos! Sucesso!

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