Sim, um dos livros mais polêmicos do ano está entre nós! Depois de ter tido sua adaptação para os cinemas comprada por ninguém menos que Anne Hathaway e de gerar um grande burburinho lá fora, o livro chegou às estantes brasileiras pelas mãos da editora Rocco. Uma esposa tradicional e influencer, com milhões de seguidores, que vende uma vida dedicada à família, passa a provar do próprio veneno ao se ver em uma residência típica do século XIX.
O livro
Natalie Heller Mills é uma boa mulher cristã, influencer com milhões de seguidores, para os quais mostra sua rotina diária no rancho Bons Tempos, em um vale isolado entre as montanhas de Idaho. As crianças são educadas em casa, Natalie está grávida do sexto bebê, o marido é filho de um político influente, candidato à presidência, e todos eles vivem uma vida conservadora e hipócrita feliz. Por que hipócrita? Apesar de mostrar ao mundo seus filhos lindos e dizer que cuida sozinha de seu rancho, Natalie tem duas babás em tempo integral, uma produtora e vários trabalhadores (alguns ilegais) no rancho, que ajudam o marido na lida. Só que, um dia, todo esse sonho açucarado desmorona quando Natalie acorda em 1855 e percebe que a vida de esposa tradicional não é nem de longe como ela imaginava.
Vocês entedem? Se enfim eu conseguisse me tornar aquilo que disse ser por tanto tempo, ninguém poderia mais me chamar de mentirosa.
Indo e voltando no tempo, vemos como essa mulher cresceu, sendo ela mesma filha de uma mãe solo (que ela tanto repudia), foi para a faculdade (que ela largou), para se casar com o filho mais novo de um senador (que é um zé ruela). Em sua cozinha perfeita, fazendo geleia caseira, alisando uma barriga de grávida, ela prega que esta é a vida que toda mulher deveria pedir a deus. Por isso mesmo, os conservadores a amam e as feministas a odeiam. Ela chama as invejosas de "mulheres raivosas". Aliás, é interessante notar que Natalie costuma ser muito hostil às mulheres. Ela não tem amizade com ninguém, não tem com quem desabafar, nem mesmo com o marido. Carrega sozinha as frustrações da maternidade e se vê profundamente ignorante sobre sexo e até o nascimento de um bebê. Os relatos dela sobre o primeiro parto vão fazer muitas mulheres se identificarem com ela.
Burke deu uma personalidade mordaz para Natalie. Às vezes era impossível não rir com ela, como na noite em que perde a virgindade com o marido e o pau dele fica meia bomba o tempo todo. Natalie sabe contornar as situações para poder se sobressair delas. Vende produtos naturais, com ar rústico em seu site, mas não fala que são fabricados na China. Ela está sempre em busca do look perfeito, da cena perfeita para gravar e postar na sua conta do Instagram, mas, na intimidade, ela é extremamente insensível com os próprios filhos e o marido, repudia a irmã quando ela se diz esgotada ao ter que lidar com cinco filhos e trata os empregados com um desdém que incomoda desde a primeira linha.
Foi estranho simpatizar com Natalie em vários momentos, mesmo ela simbolizando tudo o que eu repudio nessa esfera influencer tradwife. Ela tinha seus momentos engraçados e, involuntariamente, a achei bastante resiliente, lutando da única maneira que ela sabia para prosperar. Por exemplo, seu marido Caleb não se tornou o homem que ela imaginava que ele seria, então Nathalie decide tomar as rédeas e fazê-lo pensar que tudo o que conquistou foi devido aos seus esforços, não os dela. Não foi isso que ela aprendeu?, que as necessidades dos homens são inegociáveis? Encaro esse livro como uma grande sátira da situação atual dos Estados Unidos, um modo de ver por trás das cortinas de um espetáculo belo e brilhante, mas que é podre e imoral nas coxias.
Li algumas resenhas que comparam Natalie com a Amy Dunne, de Garota Exemplar, e concordo. No fundo, ambas são mulheres extremamente revoltadas, que perdem o controle depois de tentarem se forçar a ser o tipo de mulher que a sociedade esperava que fossem. Mas acho que o final de Amy foi melhor do que o de Natalie.
É uma escolha quando só se tem uma alternativa?
O marido de Natalie também se destaca por ser um sujeito que acredita em todas as fake news da internet e é um ávido consumidor de conteúdo conservador delirante. Em vários momentos, Natalie é condescendente com ele, chegando a níveis constrangedores até, mas ele também é tão intragável quanto ela, um sujeito sem objetivos fixos e, quando os tem, ela não gosta. Por exemplo, ele não parava em emprego nenhum, não sabia fazer nada, mas um dia decide ser professor infantil. Não por ter vocação, mas por achar que seria um trabalho fácil, em que você só brincaria com crianças o dia todo. Olhando desde o começo do relacionamento deles, tudo foi um erro, desde o começo, e Natalie percebe isso, mas não pode pôr um fim na relação, afinal ela é uma "boa mulher cristã".
O que me chamou a atenção neste livro foi o fato de a protagonista acordar em outro tempo. Sei que para alguns leitores, a resolução para a tal viagem no tempo vai parecer decepcionante, porém, acho que fez sentido e, quanto mais eu penso nisso, mais coerente com a jornada de Natalie ele me parece. Acredito que o livro consegue equilibrar o suspense psicológico e a crítica social. Feminismo, machismo, maternidade, identidade e masculinidade tóxica são temas explorados ao longo da leitura, em maior ou menor grau.
O livro está bem revisado e diagramado. A tradução foi de Anna Castro e está ótima. Praticamente não encontrei problemas de revisão.
Às vezes as verdades mais óbvias de nosso mundo são aquelas que acabam sendo soterradas com mais facilidade.
Obra e realidade
Sorrir, servir e parir. Esse é o lema de Natalie e de outras esposas tradicionais. Mas além do tema das tradwives, o livro explora a esfera influencer, que me parece estar bastante próxima da vida dessas mulheres. O que a gente vê pelas sociais é apenas uma fração mínima da vida de uma pessoa. Uma visão feliz e bem-sucedida de uma vida que pode estar ruindo quando se olha para os bastidores. Mas, ao mesmo tempo, é uma existência contraditória: se você devota sua vida a servir à família e a obedecer ao marido, como pode estar no comando de um negócio, mantendo uma rede social com milhões de seguidores e vendendo algo que você mesma não pratica? Se eu quiser saber a opinião de uma mulher conservadora, devotada à família, que odeia o feminismo, eu devo perguntar ao marido dela, certo?Natalie odeia as "mulheres raivosas", mas é a chefe de seu negócio, comanda a fazenda, cria os filhos. Ela pratica aquilo que as feministas lutaram tanto para todas as mulheres terem: autonomia sobre suas vidas.

Caro Claire Burke é escritora e coapresentadora do Diabolical Lies, um podcast sobre cultura e política. Bons tempos é seu primeiro livro.
PONTOS POSITIVOS
Bem escrito
Suspense psicológico
Clementine
PONTOS NEGATIVOS
Violência contra mulher
Natalie
Bem escrito
Suspense psicológico
Clementine
PONTOS NEGATIVOS
Violência contra mulher
Natalie
Avaliação do MS?
Não esperava que fosse gostar tanto desse livro. Comecei achando uma coisa e depois o livro se transformou e me vi completamente envolvida com a jornada de Natalie e sua família. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!
Até mais! 🏠

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