Uma notícia que vem rodando pela internet nos últimos tempos é sobre a compra, o escaneamento e o descarte de milhares de livros para a alimentar inteligência artificial generativa. O caso veio a público depois que os documentos de um processo judicial foram expostos pelo Washington Post, que mostrava que as empresas estão comprando livros em sebos aos milhares para alimentar suas inteligências artificiais e assim elevar a qualidade do texto, fugindo do IA slop, que se refere aos textos de baixa qualidade que vemos pela internet. Os livros têm sua lombada cortada, as páginas escaneadas e depois o que sobra é descartado. Indo além da gula das inteligências artificiais generativas, que estão devorando o conhecimento feito por mentes humanas, há a questão da destruição da mídia física.

O que o jornal Washington Post revelou veio por meio de um processo judicial movido por escritores que se sentiram lesados por terem seus livros escaneados e depois destruídos. Um dos documentos afirma que "o Projeto Panamá é nosso esforço para escanear de forma destrutiva todos os livros do mundo (...) não queremos que se saiba que estamos trabalhando nisso". O que o juiz determinou é que a empresa, uma vez que comprasse o livro, poderia destrui-lo depois de escanear. O caldo só entornou quando a empresa foi questionada sobre o uso ilegal de ebooks baixados da internet. Foi aí que elas fizeram um acordo para pagar US$ 1,5 bilhão (R$ 7,2 bi) e encerrar a ação. Mas quando o Internet Archive, que escaneia e não destrói seus livros e usa um serviço de empréstimos online para arquivos digitais, tentou resguardar e distribuir informação de qualidade na pandemia, a plataforma foi processada por um grupo de editoras.
Depois que as IAs generativas consumiram tudo o que foi escrito na internet, lendo comentários, postagens, tuítes, fóruns, blogs, legendas de youtube, as empresas partiram para os livros, de 2022 até os mais antigos, buscando uma fonte de conhecimento que não foi influenciada pela tecnologia. Ou seja, depois que a fonte online secou, eles passaram a buscar aquilo que foi feito pelo intelecto humano, desde a escrita em si, até a revisão e diagramação da obra. Uma fonte limpa como essa vale muito para uma empresa que quer tornar sua IA cada vez mais proficiente.
Não devemos confundir digitalização com conservação. Instituições do mundo inteiro conseguem escanear livros e obras raras sem destruir ou danificar as lombadas. E o objetivo é tornar as obras acessíveis pela internet e assim preservar a parte física. Mas perceba que a parte física fica preservada em algum museu ou biblioteca. No caso das IAs há a destruição da mídia física. E mesmo a cópia integral e fiel do livro não garante que o arquivo digital sobreviva, afinal de contas, armazenamento também custa dinheiro, envolve serviços de terceiros, eletricidade, refrigeração, manutenção, curadoria. O arquivo digitalizado de um livro destruído, que já cumpriu sua utilidade para a IA pode também ser facilmente descartado, já que ele cumpriu sua função de alimentar a máquina. O que sobra disso tudo não é nem o livro físico, que já foi destruído, nem sua cópia digital, que o robô já fagocitou. Deixamos de ter a mídia física e digital para, no final, ter um eco distante e distorcido do que ele foi.
Houve quem achasse exagero comparar essa destruição dos livros físicos para as IAs com a destruição proprocionada pela Inquisição espanhola ou pela Alemanha nazista. Mas o engenheiro e escritor português Bernardo Mota Veiga canetou muito bem aqui:
Em ambos os casos o original desaparece e fica apenas a narrativa que quem ficou com o livro decidiu ou conseguiu reter e transmitir. Um ditador entrega-nos a história reescrita à medida da sua ideologia, uma IA entrega-nos a história reescrita à medida do que o seu treino conseguiu interpretar. Muda a intenção, não muda o efeito: o leitor perde o acesso à obra completa e fica dependente da versão de quem a destruiu.
Percebe a importância de termos livros físicos (e mídias físicas de todas as formas)? Devemos, mais do que nunca, proteger os verdadeiros data centers: as bibliotecas, sejam pessoais, sejam públicas. As informações contidas nos livros podem durar centenas de anos, milhares, dependendo do material, conservando sua mensagem em sua integridade, porém um arquivo digital pode facilmente ser corrompido, a mensagem pode ser modificada e no final não teremos uma obra original, tal como foi escrita pelo autor, apenas um vestígio da ideia original. Quando destruimos uma prova, destruimos também a memória, a capacidade de recontar a história, então é muito mais fácil apagar o passado, em especial quando estamos falando de muito poder concentrado na mão de poucas pessoas bilionárias.
Aí tem gente que diz: "ahhhh, mas antes eu queria escrever um livro/desenhar/ilustrar, e não podia, agora com a IA eu posso!" Você sempre pôde, o que você nunca quis foi passar pelo processo de criar algo, de aprender algo, que pode levar anos. Sua intenção era o resultado final. Digitar alguns prompts numa IA generativa não é o mesmo que criar algo do zero. Ainda somos nós, humanos, que temos densidade e profundidade, que temos a capacidade de aprender para criar algo novo e é exatamente por esse motivo que as IAs generativas estão engolindo a produção literária humana. É a própria indústria das IAs que está nos dizendo que nosso pensamento, nosso intelecto, vale muito mais do que ela. E enquanto estamos sendo persuadidos a emburrecer, quem está lucrando com isso? Não é você.
Desde que eu me entendo por gente, sempre quis ter uma biblioteca em casa. E por uma grande parte da vida, tive só meia dúzia de livros, que levava comigo em cada mudança, dentro de uma mochila. Foi só depois do blog que comecei a receber cortesias, a ter parcerias com editoras e comecei a comprar livros com o intuito de montar uma biblioteca pessoal. Nunca foi por ostentação, nunca foi para "performar"; a intenção sempre foi estar rodeada de conhecimento de fácil acesso, ao alcance da mão. Já dizia Cícero que "Uma casa sem livros é um corpo sem alma". Leio bastante ebook pela praticidade, mas nada vai substituir a mídia física como uma fonte segura de conhecimento e informação.
Por esses motivos, invista nesse vasto repositório de memória que é uma biblioteca pessoal. Não estou falando de consumismo, mas de manter a memória a salvo daqueles que querem apagá-la.
Deve haver algo nos livros, algo que não podemos imaginar, para fazer uma mulher ficar em uma casa em chamas; deve haver algo lá. Você não fica por nada.
Ray Bradburry - Fahrenheit 451
Até mais! 📚
Leia mais:
- Quando o conhecimento da internet já não é suficiente: a IA mira nas livrarias de livros usados - Insituto Humanitas
- Por que empresas de IA estão destruindo milhares de livros ao redor do mundo - G1
- Bibliocídio: big techs digitalizam, treinam ia e eliminam milhões de livros - Instituto Búzios
- A urgência em salvar os livros - Folha de Pernambuco

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