Resenha: A guerra dos dragões, de S. F. Williamson

O primeiro livro, A linguagem dos dragões, foi uma ótima leitura. Dragões, uma Inglaterra contemporânea e o estudo da linguagem deram um sabor inovador em meio a tantas histórias de dragões que se passam em mundos medievais. Por isso, estava bem ansiosa pra poder ler o segundo volume, que achava que seria o fim da série. Mas não é.
Este livro pode ter spoilers do primeiro volume!

O livro
Vivien Featherswallow é uma talentosa tradutora que acabou se envolvendo em um conflito que pode mudar a Britânia para sempre. No volume anterior, vimos o quanto ela lutou para decifrar a linguagem secreta dos dragões para depois se recusar a utilizar tal conhecimento. Seu nome já estava no radar do governo, que se aliou aos poderosos e pouco confiáveis dragões búlgaros e agora caçava qualquer um que estivesse envolvido com a Resistência, que lutava por uma Britânia livre para todos os povos, dragões e humanos.

Resenha: A guerra dos dragões, de S. F. Williamson

É dever do tradutor traduzir um contexto, atribuir às palavras o sentido desejado na língua de partida, ou pelo menos chegar o mais próximo disso possível (...).

O enredo aqui começa pouco tempo depois do final explosivo do primeiro livro. Vivien está de volta a Londres, trabalhando com traduções e tentando aprender o idioma dos wyverns, dragões misteriosos que ninguém tem visto, mas que pode ser útil no conflito que se avizinha sobre todos. Vivien se sente solitária, mas continua seu trabalho, sabendo que ele é importante, apesar de não se sentir muito útil, já que a língua dos wyverns parece ser mais difícil do que ela esperava. Mas quando ela acaba nas mãos da primeira-ministra, Vivien vai descobrir como é o fronte de uma guerra e o custo que isso tem.

Esse livro aqui ainda discute bastante política, assim como o primeiro. E toca em questões muito atuais, como a xenofobia, a dificuldade de se comunicar e de entender o outro, e aos conflitos que acabam acontecendo por conta disso. A importância da linguagem e do papel do tradutor também são discutidos, ainda que tenham sido melhor trabalhados no primeiro volume, só que depois de um tempo, ficou repetitivo, porque as questões eram trabalhadas e retrabalhadas e mencionadas de novo, de novo e de novo...

Há um romance aqui, assim como no primeiro, mas a forma como a autora tratou o casal foi de enfurecer. Os problemas surgiam do nada, criavam uma tensão desnecessária e, logo em seguida, surgia outro problema que Vivien não conseguia lidar. Vivien está chata, indecisa e insuportável, e praticamente não evoluiu nada ao longo dos dois livros. Ela tem uns chiliques absurdos e acaba magoando uma das melhores personagens da série toda, que é Chumana. Sabe quando foi do nada? E assim, ela tem todo direito de ser chata e insuportável, porque ela foi no primeiro livro, mas aqui ficou forçado. É como se Vivien tivesse um complexo de heroína que a fizesse abrir o berreiro por não ser aquela a salvar a humanidade.

Logo nos primeiros cinco ou seis capítulos, todas as consequências do atos do primeiro volume, aquelas que deveriam ser permanentes e forçar a protagonista a crescer a partir de sua dor (uma história que teria sido de fato bem interessante e poderosa ao transformar dor em força), foram descartadas. Durante toda a leitura, eu me perguntava: que peso qualquer coisa ainda tinha? Tudo já está meio que encaminhado. Então percebi que o livro não seria a duologia que achei que seria, que viria um terceiro, pois a autora foi prolongando aquele imbróglio.

Um exemplo de como Vivien está mal construída neste livro: a irmãzinha dela está longe e ela não tem notícias, os pais estão presos e ela não os vê há meses. Mas tudo o que Vivien consegue pensar é que... o rapaz não vai mais beijá-la. No primeiro livro, a família e o amor de Vivien por ela foram muito importantes para o seu desenvolvimento. Neste aqui, ela não perde uma frase pensando nos pais, menciona brevemente a irmã lá pelo começo, pois no restante do tempo é no boy que ela pensa. OLHA.

A guerra dos dragões tem alguns pontos positivos, apesar de não conseguir recuperar a força emocional e a tensão do enredo do primeiro livro. A construção do mundo, a mitologia e a variedade de dragões expandiram bastante, e gostei de poder conhecer mais sobre os wyverns. Embora os personagens que retornaram mal tenham ficado em destaque, o cenário e a história do mundo ocuparam o lugar deles. Consigo prever para onde a história caminhará em um terceiro volume, mas a questão é: será que ele é necessário? Essa sequência era realmente necessária?

Dragoa nenhuma escolhe se render quando pode morrer voando.

A tradução de Carlos César da Silva está ótima e o livro tem alguns errinhos de revisão, mas que não chegam a atrapalhar a leitura.

Obra e realidade
Se você não reconheceu o nome Bletchley Park, deixe-me explicar: é uma antiga instalação militar secreta localizada em Bletchley (perto de Milton Keynes, Buckinghamshire, na Inglaterra, a mais ou menos 80 km ao norte de Londres), onde funcionou a Government Code and Cypher School (GC&CS), na qual se realizaram os trabalhos de decifração de códigos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, sendo o mais conhecido a decifração da Lorenz e da Enigma.

Talvez você se lembre do lugar por causa do filme O jogo da imitação (2014), onde Alan Turing, um aluno da Universidade de Cambridge, foi recrutado pelo MI6 para entender códigos nazistas, incluindo o "Enigma", que criptógrafos acreditavam ser inquebrável. A equipe de Turing, incluindo Joan Clarke, analisa as mensagens de "Enigma", enquanto ele constrói uma máquina para decifrá-las.

A grande sacada de Williamson foi utilizar o mesmo lugar e a mesma tarefa para decifrar a linguagem secreta dos dragões. Só isso já faz o livro valer à pena.

S.F. Williamson

Steph F. Williamson é uma escritora inglesa, que mora na França. Linguista e tradutora de formação, atualmente mora na França com o marido, o filho e dois gatos.

PONTOS POSITIVOS
Dragões!
Cenários
Batalhas
PONTOS NEGATIVOS
Vivien
Leitura devagar
Final em aberto

Título: A guerra dos dragões
Título original: The war of wyverns
A linguagem dos dragões:
1. A linguagem dos dragões
2. A guerra dos dragões
3. A storm of swallows
Autora: S.F. Williamson
Tradutor: Carlos César da Silva
Editora: Galera Record
Ano: 2026
Páginas: 384
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Avaliação do MS?
Fiquei frustrada e decepcionada quando terminei essa leitura. A autora teve a chance de fechar o enredo em dois livros, mas acabou prolongando para gerar um terceiro. Sempre tento manter as expectativas sob controle, mas aqui mesmo as mais baixas quase não foram atendidas. Não sei se vou continuar para um terceiro volume. Três aliens para o livro.


Até mais! 🐉

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