Resenha: As sobreviventes, de Riley Sager

Contei numas resenhas passadas que fiquei obcecada pelos livros de Riley Sager, certo? Então, esse aqui foi mais um que li em seguida. Aqui o autor trabalha com as sobreviventes de crimes hediondos ou cometidos por serial killers, as assim chamadas pela imprensa de Sobreviventes. E o que o legado daqueles crimes fez com todas elas.

O livro
Quincy Carpenter estava na universidade e viajou com os amigos para uma cabana isolada na floresta para um feriado. Mas o impensável aconteceu: o grupo foi atacado por um assassino implacável e somente Quincy sobreviveu. Querendo ou não, ela acabou sendo colocada no grupo das Sobreviventes, pessoas que sobreviveram a crimes semelhantes. As outras duas são Lisa, que perdeu nove amigas esfaqueadas também na universidade, e Sam, que acabou frente a frente com um assassino em seu local de trabalho. Quincy correu pela floresta até conseguir ajuda, quando um policial a vê na rodovia e para em seu socorro.

Resenha: As sobreviventes, de Riley Sager

Porque vou dizer uma coisa sobre detalhes - eles também podem ser uma distorção. Adicione uma quantidade muito grande e eles obscurecem a verdade brutal sobre uma situação. Transformam-se no colar espalhafatoso que esconde a cicatriz da traqueostomia.

Quincy seguiu em frente: é uma blogueira culinária de sucesso, tem um namorado amoroso e mantém uma forte amizade com Coop, o policial que salvou sua vida naquela noite. Mas um dia, ela descobre que Lisa, a primeira sobrevivente, foi encontrada morta na banheira de sua casa com os pulsos cortados; e Sam, a outra garota, surge na porta de Quincy determinada a fazê-la reviver o passado. Começa então uma viagem ao passado de Quincy enquanto ela é forçada a reviver aqueles eventos mais uma vez. E fica também a pergunta: o que Sam quer dela?

De todos os livros de Sager que li até agora, esse foi o mais fraco e previsivel. Quincy bloqueou as memórias daquela noite sangrenta na cabana, mas é claro que ela começa a revisitar os eventos quando Sam bate à sua porta. E assim, como é que ela confiou tão rapidamente nessa moça que ela mal conhece, que ela convida para o seu apartamento, que começa a interferir na vida dela e do namorado e até a coloca em situações de perigo? Para alguém que sobreviveu ao impensável e tem problemas de confiar nas pessoas, ela confiou bem rápido em Sam.

Acho que um dos grandes problemas do livro é a construção da protagonista. Quincy parece imatura, até infantil às vezes. E acho bem preocupante esse tipo de caracterização em um livro que homenageia os filmes de terror. Aliás, não é só Quincy que parece imatura, incompleta e mal construída, Sam também é assim. Uma parece ser o negativo da outra, praticamente se completando. Este não é um livro que celebra a resiliência feminina depois de um evento traumático, como deveria ser. É um livro que trata as mulheres como ingênuas e estúpidas demais.

Provavelmente, a intenção de Sager era empoderar mulheres, mas o autor errou o alvo. A forma como as protagonistas encontram empoderamento é equivocada e até constrangedora. Elas andam por aí à noite se comportando como lobas solitárias e tomando decisões terríveis. A maneira como o sexo é usado neste livro também grita "Sou um escritor homem escrevendo sobre mulheres!". Não consegui me conectar com essas personagens. Não é que elas não sejam simpáticas, porque isso não importa para o enredo. Já curti muitos livros com personagens terríveis. O problema é que elas não parecem reais ou complexas. São puros clichês e não têm desenvolvimento real.

As pistas falsas que o autor coloca ao longo da leitura são tão óbvias que você não consegue se deixar levar por elas. Tem horas que a gente tem que dinamitar a descrença e não suspender pra poder se deixar levar. Sager se esforça tanto para desviar sua atenção de certos personagens que acaba colocando-os em destaque e meio que entrega o jogo. Admito que a revelação sobre Sam e suas atitudes depois foram condizentes com a trajetória dela, mas a revelação do assassino foi tão anticlimática que quis jogar o livro pela janela.

As palavas saem como pequenas e intensas explosões. Cada uma delas parece uma bomba de delicadez arremessada às pressas.

Por outro lado, achei interessante o autor botar as vítimas que sobreviveram em destaque. Quando assistimos aos filmes de terror, eles nunca nos dizem o que as sobreviventes fazem depois, com raras excessões. Tirando a construção de personagens, o livro tem uma premissa interessante, ainda que decepcione no desenvolvimento em geral. Uma pena.

O livro foi traduzido por Marcelo Hauck e a tradução está muito boa, mas o livro peca na revisão.

Obra e realidade
Uma "final Girl" (as sobreviventes do livro) é um tropo cinematográfico, principalmente no terror slasher, que define a última mulher viva a enfrentar o assassino (ou monstro, ou criatura). Geralmente inteligente, engenhosa e focada, ela sobrevive ao massacre e confronta o vilão. Exemplos icônicos incluem Laurie Strode (Halloween), Sidney Prescott (Pânico) e Ellen Ripley (Alien).

O termo "final girl" foi cunhado por Carol J. Clover em seu livro de 1992, Men, Women, and Chainsaws: Gender in the Modern Horror Film para descrever sobreviventes em filmes dos anos 1970/80. O tropo evoluiu ao longo dos anos, desde as primeiras garotas finais, na maioria das vezes donzelas em apuros, muitas vezes salvas por um homem forte (como um policial ou um estranho heróico), até as garotas finais mais modernas que têm maior probabilidade de sobreviver devido às suas próprias habilidades.

Riley Sager

Riley Sager é um escritor norte-americano de suspense.

PONTOS POSITIVOS
Thriller
Final girls

PONTOS NEGATIVOS
Cenas de sexo sem noção
O final
Preço

Título: As sobreviventes
Título original: Final girls
Autor: Riley Sager
Tradutor: Marcelo Hauck
Editora: Gutenberg
Ano: 2017
Páginas: 336
Onde comprar: na Amazon!

Avaliação do MS?
Pelo tamanho e pela complexidade do enredo, eu esperava bem mais. É como qualquer outro thriller sem graça de hoje em dia. Só sei que terminei a leitura cansada, chateada com o final e com a construção das personagens. Três livros para o livro.


Até mais!

Já que você chegou aqui...

Comentários

Form for Contact Page (Do not remove)