Resenha: A invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick

Sabe quando você conhece uma obra só de nome? Sei que virou um filme, mas não sabia absolutamente mais nada além disso. Foi só depois de folhear e ver as lindas ilustrações que percebi que o livro era muito interessante. E não me decepcionei. Este é um livro sobre a magia do cinema, a magia dos dias, aquela que às vezes a gente perde devido aos problemas da vida.





O livro
Publicado originalmente em 2007, o livro fala de um garotinho chamado Hugo Cabret, que vive na França dos anos 1930. Hugo mantém uma rotina oculta e muito importante. Sozinho ele mantém funcionando todos os relógios da estação de trem da cidade. Esgueirando-se pelos dutos de ar e corredores da manutenção, Hugo dá corda e mantém o tique-taque em dia para manter as viagens seguras. Infelizmente ele é obrigado a cometer alguns roubos para se manter vivo, afinal vive com fome e não há ninguém que cuide dele. Hugo é um garoto solitário e bastante triste.

Resenha: A invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick


Intercalando texto com belas ilustrações em preto e branco, o livro tanto fala quanto nos mostra a rotina solitária de Hugo e sua luta diária para sobreviver. É fácil se identificar com ele, se compadecer de sua situação. Ao longo da leitura me vi tensa em vários momentos, pensando que a vida desse menino não poderia ser mais difícil. Aí o autor ia lá e dificultava ainda mais.

Hugo sempre fica de olho nos brinquedos de uma loja dentro da estação. O dono é um senhor idoso rabugento que um dia consegue pegar o garoto no ato. Há um motivo para Hugo querer os brinquedos, ficar de olho nas peças, se arriscar tanto para fazer isso, mas ele nunca pensou no que faria se fosse pego. O velho manda que ele tire tudo dos bolsos e acaba ficando com um caderninho que representa o mundo todo para Hugo. Por uma boa parte do livro, Hugo vai lutar para reaver este caderno tão precioso, de capa gasta de tanto que passou a mão por ele. É então que ele conhece Isabelle.

A garota é impertinente e curiosa. Quer saber o que tem dentro daquele caderno que possa ser tão valioso, mas Hugo é irredutível. Hugo é bem teimoso em vários momentos da narrativa, mas tem como ser diferente? Esse menino se mantém sozinho, com medo de ser preso, de ser enviado a um orfanato, de perder o pouco que sobrou de sua vida anterior. Quem não estaria com medo? Ele age muitas vezes de maneira instintiva porque não sabe agir de outra forma e acredita que ninguém vai entender o que ele precisa fazer e por quem.

Se algum dia, no futuro distante, a humanidade conseguir voar até a Lua, teremos que agradecer a George Méliès e ao cinema por nos ajudar a entender que, se nossos sonhos forem suficientemente grandes, tudo é possível.

Página 360

A invenção de Hugo Cabret


Misturando fatos reais com ficção, vamos reconhecendo alguns eventos ao longo da leitura e alguns nomes, como de George Méliès, conhecido como o "mágico do cinema", tendo sido pioneiro em várias técnicas cinematográficas em uso até hoje. Os anos 1930 veriam surgir os antecedentes da Segunda Guerra Mundial, mas o mundo de Hugo está longe desses eventos. O autor queria, e acredito que conseguiu, preservar a magia do maravilhamento infantil com coisas mágicas, como o cinema, mantendo um ar de storyboard para o cinema que funcionou muito bem. Em uma época em que todos os efeitos especiais eram feitos à mão, com truques de câmera, miniaturas e modelos, aquele que dominasse as técnicas intrincadas para lidar com tais mecanismos era visto como um mágico.

A diagramação do texto com as imagens deixou o livro perfeito. A editora seguiu o padrão gringo da edição original, o que rende um livro que é um calhamaço muito agradável de ler. As ilustrações são incríveis, delicadas, carregadas de detalhes, intercalando com o minimalismo. Às vezes tudo o que vemos de Hugo é seu pé ao virar em um corredor, nos dando essa sensação constante de movimento. Torcemos por Hugo, mas também torcemos pelo senhor da loja de brinquedos que tenta esquecer o passado. Torcemos por Isabelle, torcemos para que todos os personagens acabem resgatando a magia que um dia os encantou.

A tradução foi de Marcos Bagno e está boa, ainda que o livro tenha alguns problemas de revisão. Ele vem em capa comum, com ilustrações monocromáticas no miolo.


Obra e realidade
Georges Méliès, de fato, teve uma loja de brinquedos na estação de trem de Montparnasse. Selznick criou um enredo fictício entremeado com muitas verdades sobre a vida do mágico do cinema, um pioneiro que viu seu trabalho abalado pela concorrência com os Estados Unidos e com a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Os negativos de seus filmes continham prata e foram derretidos por um de seus vários credores, então boa parte de seu material original se perdeu.

Brian escreveu e ilustrou um livro que tenta resgatar aquela magia original dos primeiros filmes, de uma época de maravilhas, de descobertas, um momento de triunfo da tecnologia e do sonho. No livro ele permite que um garotinho órfão e um falido cineasta reencontrem seus sonhos através da grande magia da técnica, da tecnologia e do cinema.

Brian Selznick


Brian Selznick é escritor e ilustrador norte-americano, formado pela Rhode Island School of Design.


Pontos positivos
Ilustrações
Bem escrito
Projeto gráfico
Pontos negativos

Acaba logo!


Título: A invenção de Hugo Cabret
Título original em inglês: The invention of Hugo Cabret
Autor: Brian Selznick
Tradutor: Marcos Bagno
Editora: SM
Páginas: 534
Ano de lançamento: 2007
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Comecei sem saber bem o que esperar e terminei feliz e inspirada. A leitura pode ser feita em um dia, pois ele não é muito extenso, mas o livro é lindo, tanto em conteúdo quando em projeto gráfico. Acredito que A invenção de Hugo Cabret já seja um novo clássico infanto-juvenil para se ler com os pequenos e os grandes a qualquer momento. Cinco aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!





Até mais! 🎞️


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