Resenha: O fim dos homens, de Christina Sweeney-Baird

Descobri esse livro meio que sem querer enquanto pesquisava para outra resenha no site da Amazon. A sinopse me atraiu, pois esse tipo de cenário é excelente para fazer uma série de discussões interessantes a respeito da nossa sociedade, do patriarcado, de misoginia e feminismo. E também achei curioso ver que pouca gente estava falando do livro, lançado no começo de agosto. Aí resolvi dar uma chance para O fim dos homens.





O livro
O futuro que o livro trata é bastante próximo de nossa realidade. Em 2025, na Escócia, um misterioso vírus eclodiu no pronto-socorro da Dra. Amanda MacLean, casada, mãe de três meninos. Um homem da Ilha de Bute apresenta uma sepse estranha, morrendo pouco depois. Uma sepse não surge do nada daquela maneira, então ela decide investigar os prontuários e descobre que há outros casos de sepse no hospital, todos tratados dias antes por ela e uma enfermeira. Todos os pacientes são masculinos e morreram pouco depois. Preocupada, ela manda um email para o serviço de saúde da Escócia que nada fez e a ignorou.

Resenha: O fim dos homens, de Christina Sweeney-Baird


Infelizmente os casos começam a subir rapidamente. O vírus da Peste, como a doença passa a ser chamada, se espalha rapidamente pela Europa, chegando a outros países nas semanas seguintes. A autora escolheu narrar os eventos através de várias mulheres britânicas (e volta e meia alguém de fora do Reino Unido). Isso por si só reduz muito o quanto a gente pode ver a respeito dos eventos. É possível dosar entre o que elas sentem e o que elas veem, mas a autora preferiu focar nos sentimentos e não no que poderíamos ver. Houve conflitos, medo, confusão, pessoas pelas ruas, mas a gente vê bem pouco disso.

(...) só porque muitas pessoas estão vivendo a mesma coisa que você, não significa que seja mais fácil. Na verdade é mais difícil, porque você não é especial. Não há concessões ou respeito pela dor. O mundo inteiro está sofrendo.

Além de Amanda, a segunda personagem que mais aparece é Catherine. E essa personagem meio que carrega todo o drama do enredo. Antropóloga, Catherine acaba se encarregando de escrever sobre a Peste e como as pessoas sofreram com ela. Em um mundo com profissões dominadas por homens, como o mundo vai se encarregar de ocupar estes postos de trabalho? Catherine acaba encontrando no trabalho uma forma de viver com o luto e vou te contar... A autora fala tanto do sofrimento de Catherine que torna a personagem insuportável.

Entenda o seguinte: não é que a dor destas mulheres seja menor. É claro que não é. Mas tirando uma personagem (apenas uma num elenco imenso de mulheres) todas são casadas e/ou com filhos. São quase todas mulheres de meia idade do subúrbio e com filhos, casadas com homens. Quase porque Dawn, da inteligência britânica, criou a filha sozinha. Então praticamente todo o sofrimento delas é pela perda de marido e filhos. E aquelas mulheres que perderam irmãos, pais ou até mesmo o melhor amigo da faculdade? Esquece, essas dores não cabem aqui. Mas o sofrimento de Catherine...

Nem tudo é dor e sofrimento neste mundo da Peste, onde mulheres são as hospedeiras do vírus. Uma dona de casa russa que sofre violência doméstica certamente não ficará triste com a morte do marido. Algumas mulheres descobriram sua verdadeira vocação ao precisarem aprender uma ocupação que antes era tipicamente masculina. Outras perceberam que seus relacionamentos não eram aquilo que achavam que eram e acabaram descobrindo uma nova liberdade. Mas vou te dizer, esses casos foram bem escassos e pouco discutidos. Todas essas mulheres possuem uma voz bem parecida e era até difícil distinguir quem era quem.

Mas o sofrimento de Catherine...

Aí aqui entra o meu segundo problema com o livro. Não existem vilões nesse enredo além do próprio vírus. Mas tem uma personagem que a gente poderia chamar de "vilã" porque ela toma uma decisão bastante polêmica no enredo. E justamente a única pessoa que poderíamos chamar de antagonista do livro todo é a única lésbica, casada com uma mulher. Poxa vida, Christina, tanta coisa para se discutir sobre um casal lésbico num mundo quase sem homens e você decidiu usar uma delas como antagonista?

Não vou dizer que não existem discussões interessantes no livro; existem sim. Achei interessante acompanhar a luta dos países para manter seus cidadãos alimentados, empregados, as discussões entre os países para que pudessem se ajudar e fornecer ideias. A ausência dos homens em vários níveis hierárquicos começam a mudar a forma como os poucos imunes que restaram são tratados e eles passam a experimentar um pouco do próprio veneno patriarcal ao serem abordados constantemente nas ruas, por serem tratados por termos que não gostam. São só algumas frases, gostaria que a autora falasse mais a respeito.

MAS O SOFRIMENTO DA CATHERINE...

Catherine é uma personagem intragável, pois ela é o combo do estereótipo da mãe burguesa do subúrbio que lê a Cosmopolitan e é 100% dedicada ao marido. Uma simples menção ao nome do sujeito e ela soluça e chora e se afasta das pessoas, grita. Ela fica tão insuportável ao longo do livro que corta relações de amizade com uma pessoa só porque ela ainda tem seus filhos e marido, enquanto Catherine não tem mais ninguém. Ela se sente completamente vazia sem eles. A construção toda da personagem é ruim, pois ela parece uma caricatura mal acabada de mulher que vive pelos seus homens da família. Sem eles, ela meio que deixa de ser uma pessoa. O livro dificilmente passaria no Teste de Bechdel, por exemplo.

Não vemos nada do resto do mundo, além de uma guerra na China. Por que lá, aliás? Por que não nos Estados Unidos? O que aconteceria com um país que cultua a imagem do macho alfa que anda armado por aí? Por que conflitos e guerras na Moldávia, na China, nas Filipinas? A autora fez parecer que os britânicos passaram a pandemia da Peste tomando chá e enxugando as lágrimas em lencinhos bordados. Também senti falta de mais discussões. Por exemplo, como ficaria a religião, sendo que a maioria dos pastores, padres e líderes religiosos são homens? Como ficaria o Vaticano? Nada disso é abordado, são apenas capítulos e mais capítulos de como aquelas mulheres sentem falta de seus maridos perfeitos e filhos cheirosos e bem educados... Pareceu que, para a autora, mulheres não conseguem estabelecer relações com homens que não seja o combo marido e filhos.

Não li o livro físico, li o ebook e senti que ele poderia ter sido melhor revisado. A tradução foi de Sandra Martha Dolinsky e está boa.


Obra e realidade
Christina escreveu o livro entre 2018 e 2019; portanto antes da pandemia de Covid. É estranho ler sobre uma pandemia no meio de uma pandemia, pois há sentimentos semelhantes evocados em ambas. Há o medo do amanhã, o medo de perder entes queridos, a neura sobre a presença do vírus em qualquer superfície, o temor de transmitir a doença e contaminar alguém sem querer. Acho que é uma leitura que deve ser feita com cuidado caso o Covid tenha impactado demais algumas pessoas.

Deve ser assim que os homens se sentiam. Minha mera presença física é suficiente para aterrorizar alguém e fazê-lo correr. Não admira que eles se inebriassem com isso.

Christina Sweeney-Baird

Christina Sweeney-Baird é uma escritora britânica, formada em direito. O fim dos homens é seu primeiro livro.


Pontos positivos
Peste
Tema interessante

Pontos negativos
Personagens praticamente iguais
Desenvolvimento ruim
Final apressado


Título: O fim dos homens
Título original em inglês: The End of Men
Autora: Christina Sweeney-Baird
Tradutora: Sandra Martha Dolinsky
Editora: Verus
Páginas: 420
Ano de lançamento: 2022
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Nem eram três aliens que eu queria dar ao livro e sim dois e meio, mas para não deixar um alien quebrando aumentei para três, já que há algumas boas discussões no livro. Mas o elenco de personagens é simplesmente intragável e há furos na história que me passaram a impressão de que não foi feita uma boa edição no enredo. São vários problemas, como o fato de apenas uma única pessoa ir atrás da fonte do vírus e não uma equipe de virologistas... Por essas e outras, só três aliens e olhe lá.





Até mais!


Já que você chegou aqui...

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1 Comentário

  1. Eita que me deu uma desanimada. Eu fiquei interessada na sinopse, mas francamente não tenho paciência. Desse livro vou passar reto.

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