25 anos de Stargate SG-1

Não é segredo pra ninguém que lê o blog que sou fascinada por duas coisas: ficção científica e o Antigo Egito. E a franquia Stargate une estes dois tópicos. A série é a primeira produção derivada do filme Stargate (1994) que, apesar de ter se tornado cult ao longo dos anos, não foi bem sucedido na época de sua estreia, principalmente com a crítica especializada. O retorno em bilheteria, aliás, não foi ruim considerando o custo. Então como que uma série conseguiu se manter 10 anos no ar na TV, com mais duas séries logo em seguida, sendo derivada de um filme que nem foi tão bem assim?

25 anos de Stargate SG-1




A ideia dos antigos astronautas é estapafúrdia, mas na ficção ela dá bons enredos, como o de Stargate. Este é o enredo básico do filme, onde egiptólogos encontraram em Gizé, no Egito, um estranho monumento feito de um mineral que não existe na Terra, com uma estela de pedra no centro com estranhos símbolos sobre ela. Depois de anos de pesquisa, a Força Aérea dos Estados Unidos acaba recrutando um excêntrico egiptólogo na esperança de decifrar o artefato e o que eles descobrem é que o círculo de metal desconhecido é um Stargate, capaz de se conectar com outro Stargate, através de coordenadas estelares, em um outro ponto do espaço.

Admito que, apesar de gostar do filme, ele é bem mediano. E ainda tem toda aquela vibe de "homem branco salvando os nativos", o heroísmo abnegado do grande militar norte-americano, mas a parte que compete à ficção científica é sólida e funciona muito bem. Porém, como o longa foi um fracasso de crítica, nem todo mundo acreditava que uma série derivada pudesse sair daí.

Stargate SG-1 estrou em julho de 1997, três anos depois da estreia do longa. No papel que originalmente tinha sido de Kurt Russell, estrelava Richard Dean Anderson no papel do coronel Jack O'Neill (dois Ls!). Isso era um risco e tanto para a época, afinal o ator é eternamente lembrado como MacGyver, série que fez sucesso no Brasil nos anos 1980. Com o restante do elenco de desconhecidos do público (mas coadjuvantes em outras séries da época, como Arquivo X), Stargate SG-1

Os produtores assumiram um grande risco naquela época de colocar um nova série de TV de ficção científica no ar com séries como Arquivo X, Babylon 5, Deep Space Nine e Voyager no ar. Será que as pessoas comprariam a história de aliens do passado? No final dos anos 1990, séries mais parecidas com a que temos hoje, com episódios conectados em um grande arco por temporada, estavam surgindo. Uma nova série episódica ganharia a atenção do público?

Stargate merece ser lembrado como uma série de ficção científica marcante, porque nos mostrou que a evolução interestelar da humanidade não era uma fantasia do futuro: era algo que poderíamos construir no presente. Além de toda uma mitologia própria envolvendo deuses antigos e de uma ciência fictícia sólida baseada na Ponte de Einstein-Rosen, a série lidou com política e a obsessão dos burocratas pelo controle do Stargate. Falou sobre migrações e disputas internas entre grupos de resistência contra os opressores Goa'uld. Tratou de religião e fanatismo com os poderosos Ori, que queriam converter toda a galáxia para se manterem poderosos. Levou a mundos exóticos e tratou de aliens nem sempre humanoides ao longo de suas dez temporadas.

Stargate SG-1


O enredo era sólido, com equipes militares atravessando o Stargate em busca de potenciais ameaças à Terra após uma incursão alienígena. Mas a série não teria tido o sucesso que teve sem um elenco que se entendesse bem desde o início. Os atores principais Richard Dean Anderson, Michael Shanks, Amanda Tapping e Christopher Judge se deram bem logo de cara e apesar de alguns tropeços com relação aos seus personagens no começo, eles logo ganharam projeção e importância dentro da série.

Tapping, por exemplo, pediu aos roteiristas que escrevesse sua personagem, Samantha Carter, como eles escreviam os personagens masculinos. Sem bravatas e frases feitas sobre como era ser mulher no mundo militar, como acontece no piloto. E ao longo das dez temporadas, Carter se mostrou não apenas uma das mais inteligentes da equipe, como também uma personagem feminina capaz de inspirar e representar mulheres com competência. Ela enfrenta desconfiança de personagens secundários várias vezes, mas sempre consegue provar que pode fazer tanto ou mais do que eles.

Christopher Judge corria o risco de cair em estereótipos com seu personagem T'ealc, o alienígena que se revoltou contra seus senhores e se aliou aos humanos, colocando a própria família em risco. Os roteiristas conseguiram fazer do personagem uma figura sólida, introspectiva, capaz de dizer muito apenas erguendo as sobrancelhas, além de toda a informação estratégica sobre o inimigo. Não só isso, ele é um guerreiro habilidoso, líder de uma insurgência entre os Jaffa, um povo que ganhou grande projeção dentro da série ao falar de fanatismo e escravidão, além da resistência armada.

A linha direta do elenco com os produtores fez a série dar certo. Se os atores não se sentiam confortáveis com alguma coisa, eles tinham o apoio da produção. Um executivo da MGM queria uma roupa sexy para Amanda Tapping, com um sutiã tão inadequado quanto aqueles que as mulheres em Star Trek tiveram que usar. Tapping se recusou a vestir aquilo. A figurinista então conversou com os produtores e ficou decidido que a equipe usaria uniformes militares iguais. Não demorou muito para Tapping receber mensagens das fãs, dizendo o quanto se sentiam representadas por ela.

Judge também foi vital para uma melhor representação da nação Jaffa na série. Em uma cena numa prisão, Judge reparou que todos os figurantes eram não brancos. Ele então ligou para o produtor, Brad Wright, que segurou as filmagens e trouxe um novo elenco de atores, diversificando a representação dos Jaffa ao longo da série. Era uma questão não apenas pessoal, mas também política e Judge sabia que precisava se opor a isso, recebendo também apoio dos outros colegas do elenco. Judge inclusive escreveu alguns episódios dando sua própria visão ao personagem.

Daniel Jackson, papel de Michael Shanks, o egiptólogo que desvendou o Stargate, também foi vital para boas discussões internas na série. Sempre que os militares baixavam ordens a torto e a direito, Jackson era a voz dissonante, um civil capaz de apontar as incongruências do comando e de reclamar abertamente sobre uma decisão já que ele não estava preso pela hierarquia de comando. Era importante para os roteiristas e produtores manter essa voz transgressora na equipe de maneira a mostrar que os militares nem sempre estavam certos.

É claro que havia problemas, como em toda série de TV. Mas a longevidade do programa, que durou dez temporadas, além dos filmes para TV, além de Stargate Atlantis e Stargate Universe, mostra que bons roteiros aliados a uma sólida mitologia ainda conseguem cativar expectadores e criar um fandom apaixonado. Tal como em Star Trek, vários episódios se valeram da ciência para sua resolução e discutiram moralidade, diplomacia, contra autoritarismo e fanatismo, em uma roupagem militar aque atraía o grande público. Tais mensagens são tão necessárias nos dias de hoje como eram 25 anos atrás, na estreia.

Stargate SG-1 e Atlantis estão no canal da MGM no Amazon Prime!

Chevron seven locked!


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1 Comentário

  1. Eu assisti a série pela primeira vez durante a pandemia. Meu marido assistia na época que estava sendo exibida e sempre falou muito bem. Virei mais uma fã da série, principalmente da Samantha Carter. Além de SG1 também gostei muito de Stargate Atlantis (até hoje não acredito que passei a adorar Rodney McKay!)

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