Resenha: O mundo invisível entre nós, de Caitlín R. Kiernan

Caitlín R. Kiernan é uma escritora criativa e que te leva numa viagem fantástica que só posso descrever como "muito louca". Desde que li A menina submersa que fiquei com essa sensação de O QUE FOI ISSO QUE EU LI. Eu sabia que experimentaria isso novamente com essa coletânea com contos que abrangem várias épocas da autora. Mas nem tudo foi bom.





Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide



O livro
O mundo invisível entre nós é uma coletânea de contos que foram publicados entre 1993 e 2004, divididos em duas partes: a primeira vai de 1993 até 1999 e de 2000 até o ano de 2004. Trabalhando com vários elementos fantásticos, Caitlín vai desde a mitologia Lovecraftiana passando por deuses, xamanismo, demônios, vampiros, chegando até a fantasia urbana, o weird e acho que até a ficção científica.

Resenha: O mundo invisível entre nós, de Caitlín R. Kiernan


Caitlín saltita entre os cenários com bastante habilidade, construindo universos fantásticos com personagens que tanto cativam quanto irritam em vários momentos. Como alguns desses personagens aparecem em outros contos, fiquei com a impressão de que todo o universo está interligado e que ela foi mostrando partes dele de várias formas. Sua narrativa não é tradicional. Lembro que A menina submersa não foi uma leitura fácil, ainda que o livro seja muito bom, justamente pela peculiaridade de sua escrita, então quem não está acostumado com o estilo de Caitlín vai ser pega de surpresa.

É possível sentir a evolução da prosa e da narrativa de Caitlín conforme os anos passam. Ela nos entrega uma mistura de realidades fantásticas, mas muito humanas, com conflitos que são atuais, mas que usam uma roupagem sobrenatural. A autora consegue transformar o incomum, o bizarro, em algo comum, corriqueiro, cotidiano, que não causa mais estranhamento e acredito que é necessária muita habilidade para fazer isso sem cair em clichês baratos da ficção especulativa.

Minha cabeça é uma prisão para sonhos, um espaço fechado e infinito onde as setas na reta numérica apontam umas na direção das outras, convergindo infinitamente, mas nunca se encontrando, portanto, infinitas mesmo assim. Mas eu fico tendo essa sensação, e ainda tem a questão da coisa no apartamento.

Página 337

Cada vez que você começa um conto novo, Caitlín faz uma pequena introdução sobre ele. Ela pode fazer uma contextualização sobre o conto, às vezes até pela idade que ele tem, ou então fala de sua repercussão, de como ele contribuiu para sua evolução como escritora, dos bastidores da criação, sobre suas expectativas dentro da escrita e como ele pode te afetar depois da leitura. Achei bem bacana dela de fazer isso, já que a coletânea tem contos que estão batendo na porta dos 30 anos! Escrita é um processo de evolução e foi bacana ela mostrar que há um contexto para aqueles textos.

Senti que houve uma evolução na escrita da autora conforme avançada na leitura. E admiro a forma pouco convencional de sua escrita, a forma como ela constrói imagens e a realidade brutal de seus contos. Porém - ahhh, porém - ela trabalha com algumas coisas para as quais eu dedico poucos pensamentos, como por exemplo, mofo, pus, baratas, afogamentos, machucados, corpos apodrecendo, estupradores, vísceras, e por aí vai. Consigo compreender todos os pontos levantados pela autora e as metáforas trabalhadas, mas tinha momentos em que o único sentimento possível era de nojo.

Como se não bastasse esse imaginário, a autora teve pouca habilidade em tratar de certos assuntos, como racismo. É bem nítido para quem lê o livro que a autora é uma grande fã do trabalho de HP Lovecraft, mas também sabemos que Lovecraft era um notório racista e isso transparecia em seus textos, cheios de invasores monstruosos, com pessoas de pele escura demoníacas vindo atormentar os brancos. Caitlín é uma mulher branca, que tem uma vivência social e política de mulher trans* e eu esperava que, ao menos neste quesito, ela tratasse assuntos marginais com um pouco mais de delicadeza. Infelizmente não foi o que aconteceu aqui.

A editora DarkSide é especialista em fazer livros bonitos, mas esse aqui, GENTE DO CÉU, que trabalho gráfico impecável. Existem folhas, crânios, esqueletos e insetos espalhados ao longo das mais de 500 páginas da coletânea, além de pintura trilateral dourada e fitilho. O livro evoca o lado sombrio e fantástico dos contos, todos muito bem traduzidos por Regiane Winarski, nome este que não está disponível ao lado da autora nas lojas online. Encontrei poucos erros como letras faltando aqui e ali que não foram batidas.

No final há um índice com as datas das publicações originais e em quais livros elas aparecem e a autora também avisa que todos os contos foram revisados para a publicação atual, além de dizer que nenhuma história está concluída, que o fim é sempre provisório. Fiquei pensando como estavam alguns destes contos na sua forma original...

Sei exatamente o que esta merda toda parece. Não pense que não sei. É só que finalmente parei de me importar.

Página 496


Obra e realidade
A coletânea é bizarra, tocante, assustadora, nojenta, polêmica, preocupante. Tudo isso junto e misturado. Acho que um dos grandes méritos de Caitlín é misturar tão habilmente os elementos fantásticos com nossa realidade e tornar tudo normal. Ainda que a forma como ela trabalhou a marginalidade em alguns contos tenha seus problemas, é inegável que ela sabe gerar discussão e dar visibilidade ao que normalmente é invisível - taí o nome da obra. Não por acaso temos insetos e outros seres rastejantes pela obra, destacando estes seres desprezados e vistos como nojentos por alguns nas páginas do livro.

Caitlín R. Kiernan


Caitlín R. Kiernan é uma paleontóloga e escritora norte-americana.


Pontos positivos
Seres e cenários fantásticos
Trabalho gráfico e tradução

Pontos negativos
Racismo
Alguns errinhos de revisão


Título: O mundo invisível entre nós
Título original em inglês: Two Worlds and in Between
Autora: Caitlín R. Kiernan
Tradutora: Regiane Winarski
Editora: DarkSide (selo DarkLove)
Páginas: 512
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Não posso dizer que foi tudo uma completa decepção. Gostei de vários contos, gosto da escrita de Caitlín e da maneira como ela trabalha o fantástico de maneira nova e irreverente. Mas fico pensando se ela deixou os contos desse jeito de propósito, com todos os preconceitos estampados para serem discutidos, como uma nota referente à sua evolução como escritora, ou se ela apenas reproduziu o racismo sistêmico sem nem pensar. Ainda assim, se você curte uma escrita que te tire da zona de conforto, então encontrou. Três aliens para o livro.




Até mais! 🐞


Já que você chegou aqui...

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1 Comentário

  1. Nossa, não tinha percebido que era a mesma autora de a menina submersa. Tava achando que ela só reproduziu racismo sistemico, logo depois penso que foi de propósito, difícil dizer.

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