Resenha: Holocausto e Memória, de Marcos Guterman

Este livro não é uma leitura fácil, mas é necessária. Não dá para suavizar o discurso quando se fala de um tema como o Holocausto. É justamente a forma como algumas obras lidam com ele e a forma como ele foi construído historicamente que Marcos Guterman analisa. Conforme o tempo passa e nos distanciamos dos eventos da Segunda Guerra, mais importante é a documentação exata dos fatos para não acontecer generalizações ou até mesmo negacionismo. Também é um livro importante para todos que acreditam que nazistas deveriam ter liberdade de professar suas ideologias. (🚲)





Parceria Momentum Saga e
editora Contexto


O livro
Os avós maternos de Marcos eram sobreviventes do Holocausto. Mas eles nunca contaram tudo o que passaram nos campos de concentração, tinham apenas uma coleção de histórias que eram incompletas, além é claro de inimagináveis. Ainda que nunca tenham falado mais do que o necessário, os modos e gestos frequentemente entregavam as marcas deixadas pela experiência terrível causada pelo nazismo.

Resenha: Holocausto e Memória, de Marcos Guterman


Quanto mais nos distanciamos dos eventos da Segunda Guerra Mundial, fica cada vez mais evidente que a memória dos sobreviventes é essencial para manter o Holocausto como relevante. É preciso estudar a história, é preciso saber o que aconteceu para evitar que um novo genocídio ocorra. Porém, a memória dos sobreviventes é incompleta, às vezes contraditória. Não quer dizer que os eventos são falsos. Apenas significa que nem tudo pode ser dito. O Holocausto foi um evento extremo que rompeu com qualquer convenção social, democrática, humana e que levou suas vítimas a um extremo que nunca deveria ter sido atravessado. Toda uma estrutura foi criada para fazer um povo desaparecer e as marcas que ficam são indeléveis.

(...) os limites da capacidade da lembrança dos sobreviventes impedem que se conheça a real dimensão do Holocausto.

Página 11

Como o imaginário mundial percebe o Holocausto? Essa é a pergunta principal do livro. Existem várias questões pertinentes sobre o Holocausto que, muitas vezes, não nos perguntamos, pois já existe um modelo sedimentado na história e na cultura. E é muito preocupante ver que tem filmes, obras de ficção, sendo utilizadas para se ensinar o Holocausto ao invés dos depoimentos dos sobreviventes ou com dados, fatos e fotos. A Lista de Schindler, A vida é bela, O menino do pijama listrado, são obras com uma forma abominável de contar uma história cheia de dor e sofrimento, por melhor que tenham sido as intenções originais.

Com o envelhecimento dos sobreviventes, lembrar com precisão de tudo o que passaram se torna bastante difícil. Fatos se misturam, além do trauma de remexer nessas lembranças que machucam cada vez mais. Há ainda aqueles que podem ter cometido atos questionáveis nos campos e não querem lembrar disso. E nem tem como julgar essas pessoas. O autor reitera repetidas vezes que o plano nazista era de confundir e atordoar para poder realizar o genocídio em ordem. Isso envolvia fornecer pequenos atos de esperança para manter os judeus calmos enquanto eles andavam rumo às câmaras de gás. Não cabe a ninguém julgar o que eles fizeram ou deixaram de fazer, pois nunca passamos por isso e é bem provável (além de desejável) que ninguém mais passe.

Começando pelo próprio termo Holocausto, como ele surgiu? Por incrível que pareça, foi a cultura popular que popularizou o termo. Mas existem outros, que o autor discute e conceitualiza, mas ele mesmo admite que usará Holocausto porque é o termo que a maioria das pessoas conhece. Dividido em duas partes, na primeira ele trabalhar com conceitos, com os limites da História, o silêncio de alguns sobreviventes e seus limites, e os limites da compreensão de quem ouve essas histórias.

Na parte 2, o autor trabalha com a simplificação do termo e como o Holocausto é trabalhado na ficção, além de se questionar se a ficção tem condições de falar a respeito (e muitos não têm, com críticas pesadas a filmes e séries). Há uma boa análise sobre o Holocausto no cinema, seu uso como discurso político e a forma como Israel usa o Holocausto para seus objetivos. Achei muito interessante essa parte, onde o autor não se furta a criticar a maneira como não apenas o termo é usado despudoradamente, como também criticou Israel, a forma como lida com os sobreviventes e como se escora na tragédia da Segunda Guerra. Temia que o autor não tocasse nessa parte e, felizmente, ele toca. E muito bem. E também fala dos negacionistas e seus argumentos fracos e pretensiosos de negar que um genocídio dos judeus europeus aconteceu.

Com uma narrativa muito acessível e fácil de acompanhar, eu devorei o livro em um dia. Era impossível parar, mas eu tive que parar algumas vezes, em prantos, incapaz de continuar. Ainda que este não seja um livro sobre relatos de sobreviventes, foi preciso colocar algumas histórias de forma a mostrar como não é uma tarefa simples retornar àquelas lembranças. O que dizer do barbeiro do campo de extermínio de Treblinka que tinha que cortar os cabelos de mulheres e crianças prestes a entrar na câmara de gás e que viu sua esposa e sua irmã na fila? Como pedir para esse homem falar sobre o que viveu no campo? O que você faria em seu lugar?

(...) nos campos nazistas destinados ao extermínio não havia margem para escolhas racionais ou morais.

Página 91

A principal lição do livro é que já que é impossível atribuir um sentido ao Holocausto, Marcos nos ajuda a compreender o por que dessa impossibilidade. Não dá para entender porque o evento é incompreensível, mas devemos fazer este esforço, devemos nos informar, manter viva essa lembrança, atuar criticamente com quem relativiza o Holocausto, combater o antissemitismo, a intolerância e os nazifascistas. É reconhecer as limitações da memória e assim lutar para manter registros, fatos, dados, investigar arquivos e tratar do tema com a seriedade devida.

O livro é curto, em capa comum e papel branco. Está muito bem revisado, não encontrei problemas nele. Há muitas fontes de pesquisa na bibliografia e também notas no final de cada capítulo. Existem algumas fotos em preto e branco no miolo.


Obra e realidade
Minha avó paterna era sobrevivente do Holocausto, mas seus filhos sabiam muito pouco sobre esse período. Ela nunca vocalizava suas experiências, mas, tal como os avós de Guterman, ela dizia tudo nos gestos. Diziam que ela só usava blusas de manga comprida para não mostrar a tatuagem do campo. Ela estocava comida em casa, num buraco no chão da cozinha, tipo um porão e que mandou os filhos para um colégio interno, temendo que levassem sua família mais uma vez. Minha mãe conta que meu pai brincava que queria jogar no bicho com os números da tatuagem, mas ela nunca deixou ver.

É de uma insensibilidade atroz falar uma coisa dessas. Mas também entendo - ainda que não concorde - que ele estava tão distante dos eventos, sabia tão pouco sobre a desumanização que ocorreu nos campos e guetos da Segunda Guerra e estava tão desconectado da experiência da mãe que ele não entendia o trauma que aquele evento significou. É justamente aí que entra a importância de livros como este.

Marcos Guterman


Marcos Guterman é historiador formado pela PUC-SP, mestre pela mesma instituição, doutor em História pela Universidade de São Paulo e membro da Rede Internacional de Estudos dos Fascismos, Autoritarismos, Totalitarismos e Transições para a Democracia (Refat). É especialista em nazismo e antissemitismo. Jornalista desde 1989, é professor de Jornalismo Político e Econômico na Faculdade Cásper Líbero e trabalha como editorialista no jornal O Estado de S. Paulo.


Pontos positivos
Bem escrito
Bem pesquisado
Reflexões sobre o holocausto
Pontos negativos

Nenhum

Título: Holocausto e Memória
Autor: Marcos Guterman
Editora: Contexto
Páginas: 488
Ano de lançamento: 2020
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Não foi uma leitura fácil, mas foi uma leitura necessária. Aprendi muito com o livro, chorei, parei e respirei fundo, continuei e compreendi uma série de questões que antes nunca tinham me passado pela cabeça. Gostaria que todos pudessem ler esse livro e pudessem ter acesso a material de leitura que de fato traga informações sobre o Holocausto sem fábulas, sem romantização, sem metáforas. Não cabe metáforas num genocídio. Leitura essencial e uma forte recomendação para você ler também.

Até mais.


A memória dos sobreviventes, portanto, é carregada de tal humilhação e degradação que até mesmo o modo de falar dessas lembranças dolorosas é determinado por um idioma que só faz sentido no inferno.

Página 63


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