Kira Nerys, a terrorista?

Kira Nerys é uma das personagens mais cativantes, complexas e adoradas do universo de Star Trek. Parte do comando da estação Deep Space Nine, Kira é a representante de Bajor no comando compartilhado com a Frota Estelar em um momento em que seu planeta se libertou de 50 anos de uma violenta ocupação da parte dos cardassianos. Kira lutou por seu povo e por seu planeta na Resistência, o que a tornou uma das procuradas por crimes contra Cardássia. Uma das discussões de fãs de longa data é se Nerys pode ser considerada uma terrorista ou não. A questão não é tão simples.

Kira Nerys, a terrorista?




Quando Deep Space Nine estreou, no começo dos anos 1990, os Estados Unidos eram um caldeirão de revolta. Em 1991, Rodney King foi abordado, algemado e espancado por policiais em Los Angeles, em mais um caso de brutalidade racista da polícia. Menos de um mês depois da estreia da série, um atentado a bomba na garagem do World Trade Center reacendeu o ódio da opinião pública em relação ao terrorismo. E em 1995, houve o atentado em Oklahoma, dessa vez um ato de terrorismo interno. Star Trek nunca se esquivou de discutir terrorismo em suas séries, ao contrário, o tema surgiu várias vezes ao longo dos anos e durante a década de 1990 ele foi tema recorrente.

A série clássica fez uma leve abordagem ao assunto. O tema volta com força em A Nova Geração, em espisódios esporádicos, mas entra com tudo no tema após o tratado de paz com os cardassianos, que criou uma zona desmilitarizada na fronteira entre os espaços da Federação e de Cardássia. Essa zona desmilitarizada lembra muito a partilha da África por parte dos países europeus, que não levou em conta as diferenças regionais entre os diversos povos ali existentes. A luta de várias colônias na zona desmilitarizada leva ao surgimento dos Maquis, um grupo que começa diversos ataques contra os cardassianos e contra a Federação.

A Federação então descobre que Cardássia tinha ocupado Bajor e por 50 anos controlou o planeta com mãos de ferro, fazendo uso de escravidão, experimentos genéticos, campos de concentração, abusando e estuprando mulheres bajorianas, até que a luta armada da resistência venceu as forças de ocupação e expulsaram os cardassianos. Bajor convida a Frota Estelar para uma administração conjunta da estação.

A complexidade de Kira Nerys se deve aos seus excelentes roteiros e a construção de sua personagem. A fim de discutir terrorismo, os roteiristas usaram a luta dos bajorianos, o surgimento dos maquis e as ações violentas dos cardassianos em enredos bem feitos e que ergueram a discussão no ar entre os fãs: Nerys é uma terrorista?

Do ponto de vista de Cardássia ela é sim. Do ponto de vista de Bajor, Nerys é uma heroína que lutou para salvar seu povo da opressão. Nerys e o movimento de resistência atacavam instalações cardassianas, mesmo que bajorianos estivessem trabalhando para a ocupação. É um ato cruel matar um dos seus, mas para a resistência, os colaboradores eram tão culpados da ocupação quanto os próprios cardassianos. Se a Resistência tivesse pena de atacar instalações onde morassem bajorianos, os cardassianos certamente os usariam como escudo.

Ela inclusive fala isso para Damar, o cardassiano a quem ela ajuda a fim de libertar Cardássia. A Frota Estelar designa Kira Nerys para ajudar o movimento de resistência cardassiano a se libertar da força Dominion. Ela vai, muito a contragosto, é claro, mas a inversão de papéis foi uma jogada brilhante de roteiro, colocando os cardassianos como a força oprimida. Damar não queria realizar ataques que pudessem matar cardassianos e Nerys precisa ensiná-lo a fazer sacrifícios por um bem maior.

O problema do terrorismo são as visões unilaterais a respeito. Um movimento terrorista não surge do nada. Há um contexto político, social, econômico e religioso por trás de um movimento que se vale de ações terroristas a fim de chegar a algum lugar. E veja bem, não estou defendendo mortes indiscriminadas, ataques a bomba e morte de gente inocente. Estou tentando ver o lado de Kira Nerys. Star Trek discute muito as dualidades dos conflitos. Quem está certo em uma guerra? Qual é o melhor jeito de lutar? O que fazer com os colaboradores?

Metade da tripulação da Voyager, presa do outro lado da galáxia, é composta por integrantes dos Maquis. Para que os dois grupos sobrevivam, a capitã Janeway precisou unir as duas tripulações e superar as diferenças ideológicas entre os tripulantes, que não sumiram totalmente ao longo dos anos. E existem opiniões diferentes entre os vários personagens da franquia a respeito das ações dos Maquis. Esse diálogo entre Worf e chefe O'Brien é um ótimo exemplo:

- Eles deveriam ser caçados e destruídos. - diz Worf.
- Pelo o que? Por defenderem suas casas? Olhe o que está acontecendo com eles. Um dia eles estão vivendo em colônias esquecidas na fronteira cardassiana, no outro dia a Federação assina um tratado e entrega essas colônias aos cardassianos. O que você faria?
- Não me tornaria um terrorista, seria uma desonra.

Acho que Kira discordaria.

Star Trek muda de atitude completamente e, na minha opinião, perde a mão na discussão com Enterprise. A série estava no ar quando os atentados ao World Trade Center aconteceram em 11 de setembro de 2001. E isso respingou na série quando um ataque brutal à Terra matou milhões de pessoas. O capitão Archer fica em puro estado de ira, bem como seus tripulantes e até parte para tortura a fim de conseguir informações sobre o ataque. Aquela discussão bem dosada a respeito que vimos em outras séries foi jogada pela escotilha mais próxima.

Essa discussão não é simples. Muita gente nunca precisou passar por períodos de ocupação, perseguição, medo e genocídio. Fica fácil julgar nessa situação. Mas se seu lar fosse ocupado por uma força superior, deslocasse parte de sua família, amigos e conhecidos para campos de concentração, te deixasse passar fome, frio e visse suas cidades sendo destruídas, te ocupasse até exaurir seus recursos naturais, oprimisse sua cultura, seus modos de vida e seu idioma, você seria uma terrorista ou uma lutadora pela liberdade ao se opor a eles?

É bem provável que se Deep Space Nine passasse no começo dos anos 2000, a personagem de Kira Nerys nunca tivesse o desenvolvimento que teve nos anos 1990. Roteiristas e a própria opinião pública achariam de péssimo tom ter uma "terrorista" sendo representada na televisão como se fosse uma heroína em um momento tão delicado para os Estados Unidos após os atentados. Com isso teríamos perdido as grandes discussões a respeito, com seus personagens multifacetados e bem construídos.

No fim, não sei há condições de responder a pergunta com apenas sim ou não. Não é assim tão simples.

Até mais!


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