Resenha: A fazenda dos animais, de George Orwell

Você, provavelmente, conhece esse livro pelo título com o qual ele ficou famoso no Brasil: A revolução dos bichos. A fábula de Orwell é um livro conhecido e figura fácil na lista dos mais vendidos, ainda que muitos acreditem que ele seja uma versão light do autor. Ledo engano. Quem lê A fazenda dos animais encontra uma narrativa direta, com uma analogia tão franca com o nosso próprio mundo que até uma criança compreende. São poucos os livros que conseguem tal feito.





Parceria Momentum Saga e
Companhia das Letras


O livro
Cansados da exploração a que são submetidos pelos seres humanos, os animais da Fazenda do Solar se rebelam contra seus donos e tomam posse do lugar, com o objetivo de instituir um sistema cooperativo e igualitário. O Major, um porco da fazenda, teve um sonho no qual ele viu uma fazenda unida, onde todos os animais são tratados de maneira igual, produzindo e compartilhando tudo o que produzem. Seu discurso inspira os outros animais, cansados do trabalho exaustivo e da exploração e um dia expulsam o sr. Jones e sua esposa da propriedade. A fazenda era deles.

Resenha: A fazenda dos animais, de George Orwell


Mas o que parecia uma utopia, onde a comida era produzida e repartida de maneira igualitária, onde os animais velhos teriam uma aposentadoria merecida, onde ninguém mais seria explorado, nem por humanos nem por outros animais, logo começa a desvanecer. Começa com o sumiço do leite ordenhado, depois das maçãs e em pouco tempo as regras que tinham governado a Fazenda dos Animais são alteradas. Alguns animais se convencem que as regras eram aquelas desde o começo, outros sabem que não era bem assim, mas são impotentes para alterar qualquer coisa.

É bem provável que você já conheça a obra de outros carnavais. Mas o que diferencia esta edição, além do título que é o mais próximo do original e me agrada muito mais do que A Revolução dos Bichos, é sua fortuna crítica e o incrível trabalho gráfico. Temos um prefácio do autor à edição ucraniana, onde Orwell explica brevemente suas motivações para a confecção da fábula e seu posicionamento político. Pode surpreender algumas pessoas o fato de ele ter escrito uma crítica tão ácida e ainda se manter socialista. Talvez o mais trágico sobre o legado do livro é o fato de ele ser uma crítica ao stalinismo, mas que acabou usado como propaganda anticomunista.

A fortuna crítica conta com sete textos de apoio de várias épocas e contextos diferentes, que nos ajudam a compreender a obra, o autor e o impacto que o livro teve na época e ainda tem nos dias de hoje. O texto de Marcelo Pen nos ajuda a entender a motivação por trás da escolha do título anterior, A Revolução dos Bichos: publicado em 1945, o livro chegaria ao Brasil quase duas décadas depois e caía como uma luva para o golpe militar em curso, já que o livro era visto como propaganda anticomunista. Tanto que a tradução ficou na mão de Heitor Aquino Ferreira, secretário do general Golbery do Couto e Silva. Para a propaganda anticomunista, um título mais próximo do original certamente não teria o impacto que teve a palavra "revolução" impressa na capa.

(...) como é fácil para a propaganda totalitária controlar a opinião de pessoas educadas em países democráticos.

Página 27


Ensaio visual


Gostei muito do texto de Daphne Patai, "Literatura política e fantasia patriarcal", onde ela discorre sobre como Orwell ignorou as questões de gênero no movimento iniciado pelos animais, perpetuando algumas das posições femininas nas personagens de Tulipa e Chica. Mas ao mesmo tempo a novela de Orwell pode ser lida como uma fábula feminista, pois ele descreve a traição aos ideias do animalismo de uma maneira que lembra a forma como as mulheres são tratadas sob o patriarcado. São as mulheres que tiveram sua história obliterada, palavras eliminadas ou esquecidas, sua posição na sociedade embaralhada, seus direitos legais negados, o desejo de conhecer tolhido, sob o pretexto de não serem dotadas para o valioso trabalho da sociedade, como os homens, supostamente seriam. A traição aos animais da fazenda é a mesma que as mulheres enfrentam sob o patriarcado.

O livro em si está lindíssimo. Ele vem em capa dura de tecido vermelho e com um lindo trabalho gráfico interno. Logo nas primeiras páginas encontramos o trabalho da artista Vânia Mignone, onde estão retratados alguns animais da fazenda. No miolo há uma reprodução de várias capas, de várias décadas, de edições diferentes deo livro em vários países. Interessante notar que apenas o Brasil adotou um título com a palavra revolução. A tradução da novela ficou na mão de Paulo Henriques Britto, que corrigiu várias imprecisões da tradução de A Revolução dos Bichos e está perfeita. Foi uma leitura fluída e sem tropeços. Encontrei alguns errinhos de revisão, que não chegam a atrapalhar a leitura.


Ficção e realidade
A questão do título tem pegado para muita gente, mas admito que eu gostei da mudança. Inicialmente, o próprio tradutor questionou o novo título, mas o ensaio de Marcelo Pen mostrou que havia uma necessidade de mudança e uma bastante pertinente. A fazenda dos animais é o nome da propriedade onde a ação acontece na novela, o lugar que pertence àqueles que nela vivem, mas que também retrata o cenário rural inglês que Orwell tinha em mente quando a escreveu, algo que acabou deslocado com o título anterior. Mudar o título já consagrado é retornar o objetivo original do autor e ainda remover o ranço do golpe militar que acabou envernizando o livro após sua primeira publicação.

George Orwell


Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudónimo George Orwell, foi um escritor, jornalista e ensaísta político inglês, nascido na Índia Britânica.


Pontos positivos
Fábula
Crítica ao totalitarismo
Se mantém atual
Pontos negativos

Alguns errinhos de revisão


Título: A fazenda dos animais
Título original: Animal Farm: A Fairy Story
Autor: George Orwell
Tradutor: Paulo Henriques Britto
Ensaio visual: Vânia Mignone
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 248
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Admito que o livro me intimidava antes. Eu tinha lido a versão em quadrinhos, aliás fantástica, também lançada pela Companhia das Letras, e curtido muito, mas ainda não tinha pegado o livro em si. Pegar essa edição especial, com toda essa riqueza de textos de apoio e uma nova tradução foi incrível. Destrinchei o livro todo durante um dia inteiro, incapaz de parar a leitura e ainda me pego pensando em várias passagens da novela. Para quem quiser compreender melhor o contexto e a obra em si, esta edição é definitiva e essencial na sua estante!

Até mais!


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