Otti Berger: a designer esquecida da Bauhaus

Eu nem sei bem como me deparei com a história de Otti Berger, mas provavelmente foi através de perfil de história da arte e do design que eu sigo nas redes sociais. Desde então ela nunca saiu da minha cabeça. Otti foi uma pioneira designer e tecelã da prestigiada escola de design alemã Bauhaus. Ela revolucionou a confecção de tecidos na época e chegou a abrir sua própria loja, onde trabalhou com tecelagens por toda a Europa.


Otti Berger: a designer esquecida da Bauhaus



Em 2019, a Bauhaus completou 100 anos. Conhecida por muitos como um marco da cultura progresista, a Bauhaus gerou artistas e designers das mais variadas áreas que revolucionaram suas próprias áreas. Muitos deles acabaram professores da instituição que os formou e inspiraram gerações de novos designers. Uma das histórias mais inspiradoras é a de Otti Berger.

Ainda que a escola Bauhaus fosse progressista, muitas mulheres enfrentaram preconceito em seus corredores. Mulheres eram desencorajadas a seguir em áreas como pintura, escultura, arquitetura e design, empurradas para áreas tidas "femininas", como a tecelagem. Mas mesmo essas mulheres empurradas para os teares ascenderam em suas áreas, borrando os limites entre arte e artesanato. Otti Berger foi uma dessas mulheres forçadas a estudar na área de tecelagem, mas que se mostrou um gênio da área, ofuscando seus colegas.

Nascida em 4 de outubro de 1898, em Zmajevac, hoje na Croácia, mas na época parte do Império Austro-Húngaro, Otti estudou em uma escola preparatória para moças em Viena antes de ingressar na Academia de Belas-Artes, de Zagreb, onde estudou entre 1922 e 1926. Em 1926, ela se transferiu para a Bauhaus, na Alemanha, onde teve a oportunidade de estudar com grandes nomes do design e das artes, como Wassily Kandinsky. Tida como uma das mais brilhantes estudantes da escola Bauhaus, ela encontrou na tecelagem uma área para brilhar e se formou na área em 1930.

Ela também foi a única tecelã da Bauhaus a conseguir uma patente por suas criações em tecido, em 1934, vendendo os direitos da produção para a Companhia Shriver, da Alemanha. Utilizando-se de metodologias vindas da pintura e da fotografia, Otti criou tecidos ousados, com combinações pouco frequentes e que ditou tendências para os anos seguintes. Ela também escreveu vários artigos sobre seu trabalho com tecidos, mas nunca teve a oportunidade de publicá-los. Tal como muitos de seus contemporâneos da Bauhaus, Otti era uma mestre da sutileza quando se tratava de princípios estéticos formais. Ela abraçou as linhas, o quadrado, a grade e o poder das relações entre as cores. Ela acreditava na simplicidade e lutava pela clareza.

Exemplo de tecido criado por Otti Berger
Exemplo de tecido criado por Otti Berger

Indicada para suceder a chefe do departamento, mas sem nunca obter a cadeira oficialmente, Otti criou um currículo robusto e foi mentora de várias estudantes da oficina. Criou métodos próprios e retrabalhou teares para incorporar novos materiais em suas criações. Em 1932, Otti deixou a Bauhaus para abrir seu próprio estúdio em Berlim, o "Otti Berger Atelier Für Textilien". Trabalhou com várias tecelagens pelo continente neste período e noivou um de seus colegas na Bauhaus.

Ainda que fosse bem-sucedida e reconhecida em sua área, Otti tinha problemas de audição e a surdez parcial passou a prejudicar suas aulas e sua vida social. Em partes, sair da Bauhaus e trabalhar por conta aliviou a pressão das aulas diárias e a orientação de alunos, podendo se concentrar em suas criações. O segundo problema foi a ascensão do nazismo.

Por ser de ascendência judaica, Otti começou a sofrer perseguição e Berlim e foi proibida de trabalhar na Alemanha, sendo obrigada a fechar seu estúdio em 1936. Nessa época, muitos de seus colegas já tinham conseguido vistos para os Estados Unidos e Otti fugiu para Londres na esperança de emigrar para os Estados Unidos também e assim trabalhar com o noivo, Ludwig Hilberseimer, que já tinha se mudado antes dela.

Otti escreveu para diversos amigos na esperança de conseguir o visto. Foram anos tentando, pedindo em cartas cada vez mais desesperadas para seus colegas que a ajudassem a conseguir um visto para lecionar. Mas Otti nunca conseguiu. A surdez parcial também foi um problema na hora de aprender um segundo idioma e Otti nunca obteve a proficiência em inglês para se manter em Londres.

O antissemitismo na Inglaterra começou a se tornar um problema para Otti. Isolada do convívio social, parcialmente surda e sozinha, Otti não viu outra opção: voltou para casa na Croácia, em 1938, para ajudar a família e cuidar da mãe. Ainda assim continuou mandando cartas na tentativa de emigrar. Chegou a escrever para o fundador da Bauhaus, Walter Gropius, em 1942, pedindo ajuda.

Em abril de 1944, Otti e sua família foram presas pelos nazistas e deportadas para o campo de concentração de Auschwitz. Otti foi morta na câmara de gás, em data incerta, no mesmo ano, com apenas 46 anos.

Se não tivesse existido o nazismo, o facismo, o antissemitismo, o preconceito, o ódio, consegue imaginar o que Otti poderia ter feito nos anos seguintes? Quantas pessoas incrivelmente talentosas foram mortas por um regime de ódio que alguns admiram tanto? A história de Otti não me sai da cabeça justamente por isso. Ela perdeu a vida por causa de sua ancestralidade e o mundo viu perder uma artista genial, uma de muitas que pereceram nos campos de concentração.

Quando a gente aposta no ódio, é esse o resultado. Quando apoiamos regimes que nunca deveriam existir, não sabemos quais serão suas vítimas, pois o ódio é um convidado instável. Ele se volta contra você com a mesma facilidade com que você o elege.

Até mais.


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