Resenha: American Crime Story - O Povo Contra O. J. Simpson, de Jeffrey Toobin

Você provavelmente ouviu falar da série de TV de mesmo nome, certo? Mas se quiser saber mais detalhes que ficaram de fora dos episódios, pode se jogar na leitura deste livro. O autor acompanhou de perto o caso na época e lançou o livro ainda em 1996. Publicado no Brasil pelas garras diabólicas da DarkSide, o livro é recheado de detalhes técnicos, perfis dos advogados de defesa, da promotoria e descreve o clima policial da época de uma das polícias mais racistas do mundo, a polícia de Los Angeles.




O livro
O livro começa com uma reunião dos maiores advogados de Los Angeles. Robert Shapiro reuniu um time de estrelas para defender OJ. Os advogados foram chamados 13 dias depois dos assasinatos de Nicole Brown Simpson, ex-esposa de OJ e Ronald Lyle Goldman, um amigo que foi à casa de Nicole devolver um pertence da mãe dela. As provas não diziam outra coisa: OJ era culpado.

Resenha: American Crime Story - O Povo Contra O. J. Simpson, de Jeffrey Toobin


A questão é que os advogados não queriam, exatamente, provar a inocência de OJ. Eles queriam usar o clima racial explosivo em Los Angeles e o longo histórico racista da polícia da cidade para provar que houve uma conspiração policial para plantar evidências na casa de Nicole para implicar OJ. Não importava se Nicole, que se casou muito nova com OJ, tivesse reclamado diversas vezes de violência doméstica e tivesse chamado a polícia, que nunca a ajudou. Tudo não passava de uma grande conspiração.

OJ era uma estrela e fazia questão que todo mundo soubesse disso. Ele teve origem humilde, conseguiu bolsa para jogar futebol americano e quebrou vários recores. Porém o ego de OJ era maior do que seu talento. O autor reitera várias vezes como ele tripudiava a comunidade negra quando dizia "não sou negro, sou OJ". Ainda que tenha estudado, OJ era praticamente um analfabeto funcional como vários bilhetes escritos por ele deixam claro.

Essencialmente, o caso Simpson foi um caso típico – ainda que horrendo – de homicídio decorrente de violência doméstica. Transformou-se em um drama nacional, espalhando-se feito um tumor e expondo fissuras profundas na sociedade americana, por uma única razão: os advogados do réu pensaram que usar a questão racial ajudaria seu cliente a ganhar absolvição. E ajudou. Era só o que importava para eles.

Página 25

O autor não oculta o racismo da polícia de LA. Ao contrário, ele conta desde o início como o racismo faz parte da estrutura policial da cidade e como serviu de justificativa para vários casos absurdos de violência contra negros ao longo das décadas. O estrangulamento de George Floyd faz parte da estrutura policial desde a fundação de alguns departamentos de polícia. Se tem uma coisa que o caso OJ demonstrou foi que mesmo a polícia de uma grande e famosa cidade poderia ser conivente com atos de racismo ao mesmo tempo que puxava saco de celebridades. A casa de OJ vivia cheia de policiais para quem ele arrumava ingressos para jogos e convidava para churrascos. A meu ver, o manto do vitimismo era fraco, já que OJ era tão amigo da polícia, mas o discurso colou por conta da imperícia da polícia na cena do crime e, principalmente, a ingenuidade da promotoria de achar que tinha um caso ganho nas mãos.

Nicole apanhou muito das mãos de OJ. Quando a polícia ligou para a mãe dela para informar sobre o ocorrido - não querendo que ela soubesse pela imprensa - ao fundo o policial ouviu a irmã de Nicole gritar: "Ele conseguiu! Ele matou ela!". Chamando a polícia diversas vezes, Nicole tentou confiar nas autoridades, mas OJ levava todo mundo na lábia e a deixava desamparada. Tanto que antes de morrer, sabendo que OJ a perseguia, Nicole não ligou para a polícia, mas para um abrigo que ajudava mulheres vítimas de violência doméstica.

O autor conta como havia interesses envolvidos no caso, não só dos advogados de defesa como de investidores e a mídia explorou o caso ao máximo, o que pode ter influenciado os jurados a favor de OJ. E o autor explica que houve outros casos em que a composição racial do juri foi determinante para a absolvição inclusive dos policiais que agrediram Rodney King. É aqui que vemos como uma pessoa com dinheiro, os advogados certos e um o juri funcionando a seu favor conseguiram inocentar OJ, transformando o julgamento em um circo onde a figura do Estado é que saiu manchada. O Estado não protegeu Nicole, muito menos seu amigo Ronald, e ainda devolveu os dois filhos de OJ com ela para a guarda do pai, afinal ele era um homem livre.

O que você sente lendo o livro é que houve uma série de falhas de procedimento tanto da polícia quando da promotoria, que deveria ter feito seu trabalho direito ao invés de achar que tudo estava ganho e pronto. Mesmo com as provas contundentes em mãos, um bom time de advogados deitou e rolou sobre a negligência dos promotores. OJ ganhou na esfera criminal, mas na civil foi processado pela família das vítimas, sem nunca ter pagado um centavo da milionária indenização à qual foi condenado.

O livro em si tem a perfeição da DarkSide, com capa dura e fitilho para marcar páginas. Existem várias fotos de OJ Simpson pelo livro, desde sua época de atleta até depois quando foi preso e condenado por outro crime. A tradução de Lucas Magdiel está muito boa, ainda que a revisão tenha deixado a desejar em alguns momentos. É um livro bastante detalhista, com transcrições do julgamento, muitas biografias espalhadas pelas quase 500 páginas e a leitura pode acabar sendo devagar.


Livro e realidade
Depois de ler o livro e analisar as evidências do crime fica difícil você não atribuir a culpa a OJ. A promotoria achou que estava com o caso ganho - as provas eram mais que contundentes com sangue dele, as luvas, DNA - e não se importou com a defesa do réu e nem com o clima na cidade por conta da violência policial. Como resultado, OJ saiu livre e depois ainda tirou sarro do caso em um livro chamado If I did it, no qual OJ Simpson apresenta uma descrição "hipotética" dos assassinatos de Nicole Brown Simpson e Ronald Goldman. É uma falta de respeito tão grande com as vítimas e até com os filhos dele mesmo, que nem sei como descrever. No fim, Nicole foi vítima duas vezes: do marido e da polícia.

OJ Simpson foi julgado em 2008 por acusações de sequestro e assalto à mão armada a 33 anos de prisão. Após sucessivas tentativas e julgamentos, ele conseguiu sair da cadeia em condicional, em outubro de 2017, depois de passar nove anos de prisão.

Jeffrey Toobin


Jeffrey Ross Toobin é um advogado norte-americano, blogueiro, escritor, comentarista e analista jurídico para a CNN e para o The New Yorker.

Pontos positivos
Pesquisa
Análise do caso
Bem escrito

Pontos negativos
Violência contra a mulher
Problemas de revisão
Preço


Título: American Crime Story - O Povo Contra O. J. Simpson
Título original em inglês: The run of his life: The People v. O.J. Simpson
Autor: Jeffrey Toobin
Tradutor: Lucas Magdiel
Editora: DarkSide (selo Crime Scene)
Ano: 2016 no Brasil (nos EUA em 1996)
Páginas: 460
Onde comprar: na Amazon ou na loja da DarkSide!


Avaliação do MS?
Este não é um livro fácil, pois fala de um crime horrível que acabou sem solução porque seu perpretador conseguiu sair impune. Saber que aquela mulher foi espancada, negligenciada pelo poder público que deveria cuidar dela e que não a defendeu no julgamento é revoltante. Tem que ter estômago para ler este livro. Quatro aliens para ele e uma forte recomendação para você ler também.



Até mais!


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