Resenha: A menina do capuz vermelho e outras histórias de dar medo, de Angela Carter

A primeira coisa a se dizer a respeito dessa coletânea é que ela não é para crianças. Mesmo que se trate de contos de fada e que tenhamos um senso comum sobre eles, de que sejam voltados para crianças, a ideia aqui é tratar dos contos e "causos" populares em suas versões integrais, com a violência das histórias originais, muitas delas pasteurizadas pela Disney. Você não vai encontrar fadas bondosas e fofas, mas vai encontrar animais falantes, magia e protagonismo feminino.



O livro
Esta é uma coletânea curtinha, com menos de 200 páginas, mas que traz contos das mais diferentes partes do mundo. Ainda que carregue o nome de "conto de fada" a única coisa em comum com as histórias das princesas e com esses contos aqui é o fantástico. Tem muita magia e animais falantes, madrastas e mães malvadas, reis e rainhas, príncipes e princesas. Também é possível reconhecer muitas estruturas familiares em alguns dos contos, mesmo que venham de diferentes países, pois se utilizam dos mesmos arquétipos.

Resenha: A menina do capuz vermelho, de Angela Carter

Já começamos com uma primorosa introdução escrita pela autora, onde ela explica seu fascínio pelos contos de fada e a função social que eles exerciam nas sociedades onde surgiram. Em uma época em que até metade da população podia ser analfabeta, os contos eram uma forma de entretenimento, principalmente, dos adultos e não das crianças. Contatos à beira de fogueiras ou nas cozinhas das grandes casas, sussurrados para um grupo de convivas, os contos eram uma forma eficiente de se divertir e contar "causos" estranhos à meia luz. Se ao invés de usar "contos de fadas" usarmos "contos populares" passamos a entender melhor o mundo de onde eles vieram.

(...) a expressão contos de fadas é uma figura de linguagem, usada de forma bastante livre, para descrever o grande volume de narrativas infinitamente variadas que eram e ainda são oralmente transmitidas e difundidas mundo afora - histórias anônimas que podem ser reelaboradas vezes sem fim por quem os conta, o sempre renovado divertimento dos pobres.

Introdução

Diferente dos contos de fadas dos filmes da Disney, esses contos são muitas vezes violentos ou com um tom de piada escatológica que me fez rir em alguns momentos. Como são contos populares, não sabemos sua autoria, mas a ideia era apenas entreter e não criar uma obra literária. Não devemos esquecer que durante muito tempo as histórias tinham apenas tradição oral. Contadas e recontadas, cada vez que a história era retransmitida ela tinha um acréscimo ou uma modificação (quem conta um conto, aumenta um ponto), evoluindo ao longo do tempo, transformando-se em uma obra coletiva e colaborativa, contrariando o estereótipo do artista solitário.

Alguns dos contos nesta coletânea vieram de tradições orais e ganharam uma versão escrita depois de um longo tempo. São contos russos, inuítes, togoleses, chineses, egípcios, armênios, ingleses, entre outros, que oferecem um olhar do dia a dia de um mundo prestes a entrar na Revolução Industrial, onde as dinâmicas sociais se alteravam significativamente. Ainda que alguns contos se pareçam com histórias conhecidas isso é apenas uma indicação de como os arquétipos são mais comuns do que parecem, como a figura da madrasta ou o da bruxa má.

Outro ponto a se destacar é o intenso protagonismo feminino desses contos. Ainda que muitas protagonistas estejam no papel tradicional de esposa ou princesa, elas são o fio condutor da narrativa e tomam as rédeas de suas vidas quando era necessário, como a princesa que foge do castelo para não ser obrigada a se casar com o próprio pai, o conto egípcio da coletânea. São 20 contos, alguns bem curtinhos, de menos de uma página, outros com pouco mais de cinco. Então é uma leitura rápida, mas bastante proveitosa.

Alguns dos contos que eu mais gostei foram A princesa com roupa de couro, Nourie Hadig, O rapaz feito de gordura, A peluda (a gaitada que eu dei no final desse aqui!) e A velha que vivia dentro de uma garrafa de vinagre. No fim do livro a autora faz comentários sobre cada um deles e de como ele foi compilado. A tradução foi de Luciano Vieira Machado e está ótima. Não encontrei problemas de revisão ou tradução.

Apenas questiono o título da coletânea. Esses contos não foram feitos para dar medo, como a própria autora explica na introdução. Então acho que dizer que "outras histórias de dar medo" não condiz com a proposta da obra nem com o seu conteúdo, ainda que existam contos com um ar mais sombrio. Isso pode acabar levando as pessoas a comprar o livro achando que é de terror, quando ele não é.

O conto de fadas, como narrativa, tem muito menos em comum com as formas burguesas do romance e do longa-metragem do que com as formas populares, principalmente com os romances ditos ❛femininos❜.

Introdução


Ficção e realidade
Eu nunca tinha parado para pensar que o conto de fada pudesse ter o apelo popular de povos iletrados. Para mim, eram as histórias das princesas da Disney, em seus vestidos esvoaçantes pedindo a ajuda das fadas para encontrar o príncipe encantado. Mas sempre há uma história por trás da história e Angela Carter me mostrou a incrível riqueza dos contos populares que acabaram compilados por autores como Charles Perrault e depois caíram no gosto da burguesia em busca de aventuras.

Outra coisa interessante: o conto de fadas não retém o enredo. Assim que começa o "Era uma vez..." nós já sabemos que teremos respostas para os dilemas introduzidos na narrativa e que sempre teremos um fim. Se será "felizes para sempre" ou alguma variante, não sabemos, apenas sabemos que tudo se resolverá no final.

Angela Carter

Angela Carter foi uma jornalista, poeta, escritora e contista britânica, uma das mais celebradas escritoras do século XX.


Pontos positivos
Introdução
Pesquisa
Bem escrito
Pontos negativos
Título
Acaba rápido!


Título: A menina do capuz vermelho e outras histórias de dar medo
Título original em inglês: Angela Carter's book of fairy tales
Autora: Angela Carter
Tradutor: Luciano Vieira Machado
Editora: Penguin
Ano: 2011
Páginas: 144
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Avaliação do MS?
Inicialmente, coletâneas de contos me intimidam, tenho que admitir. Mas a leitura desses contos foi muito divertida e interessante, por ver as semelhanças de algumas histórias entre si, ainda que sejam de diferentes partes do mundo. Gostaria que os romances de Angela fossem publicados por aqui, eu certamente seria uma de suas maiores leitores! Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais!


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3 COMENTÁRIOS

  1. Só queria te dizer que amooo suas resenhas. Vejo-me sentada em uma cafeteria, um café fumegando e vc contando os causos.

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  2. Adoro este livro, capitã. Deu vontade de reler por aqui. :)

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