Sanidade em tempos insanos

Estes são temos estranhos, sombrios, paranoicos. E como se não bastasse, ainda enfrentamos uma pandemia de um vírus para o qual a gente tem pouco preparo e conhecimento. Quem pode está em casa, quem não pode está correndo risco diariamente nas ruas. Pessoas assustadas zeraram os estoques de álcool em gel, preços nas alturas de insumos hospitalares. Até o gás de cozinha acabou e/ou teve disparada no preço nas revendas.

E como as coisas sempre podem piorar, mentiras (ou fake news) estão sendo espalhadas nas redes, dizendo que há uma "conspiração para derrubar o governo do presidente, em que estão inflando os números de mortes de Covid-19".

Foto de Liana Mikah



Na faculdade eu tive uma disciplina chamada Geografia da Saúde. Nela nós estudamos as grandes epidemias, estudamos o SUS e sua rede de atendimento, a maneira como surtos são investigados e os padrões geográficos de espalhamento de doenças. E também conversamos sobre a próxima pandemia. Desde 1918, com a gripe espanhola, que se fala sobre a próxima, a grande, aquela que pode causar uma mudança significativa na sociedade. Em 2008 era uma realidade distante. Em 2020, ela se concretizou.

O vírus poderia ter surgido em qualquer lugar. Mas o fato de ter vindo da China deu a muitas pessoas o motivo perfeito para serem xenófobas e preconceituosas. E enquanto muitos se sentiam no direito de serem desrespeitosos e ofensivos com a população asiática, o vírus chegou através dos aeroportos, de gente voltando da Europa.

Nos tempos em que estamos vivendo, vemos os ataques descabidos à ciência, às universidades, à educação e ao conhecimento. Acusações estapafúrdias de balbúrdia entre outros absurdos nos campi universitários. Cortes de verbas, diminuição no financiamento, estudantes sem bolsas, escárnio e risadas e mentiras disseminadas em um orgulho descabido da própria ignorância. Cada vez que alguém tentou avisar que estávamos elegendo o pior governo, os piores governantes, as piores ideias para um país, fomos alvos de chacota, de ódio, de perseguição e ofensas.

Chega a pandemia. Aquela que viria, mas ninguém sabia quando. Um presidente sem qualquer preparo político, psicológico e físico ignora as recomendações das autoridades de saúde, desautoriza o próprio ministro da saúde, manda as pessoas voltarem ao trabalho e saírem do isolamento. Carretas de luxo com pessoas mandando os trabalhadores de volta à labuta. Quem da sua família você deixará para morrer para seguir as ordens de um louco? Essa não é mais uma pergunta hipotética, é real.

Ano passado a procura pela vacina de gripe foi tão baixa que a campanha foi estendida na esperança de vacinar mais pessoas. Boatos sobre os malefícios das vacinas se espalharam como fogo na mata seca e muita gente optou por não tomar sua dose. Este ano, antecipada para poder aliviar o sistema de saúde sobrecarregado de Covid-19, as corrida maluca começou, com vacina já faltando em alguns lugares.

Este é o ano em que as pessoas perceberam que direitos trabalhistas, SUS, ciência, tecnologia, conhecimento e informação são importantes. Que universidades e institutos de pesquisa precisam de financiamento e de respeito. Que cientistas, quando avisam, precisam ser ouvidos e levados a sério. Que a balbúrdia, na verdade, está em outro lugar, lá no planalto central.

Sem o cientista, não há futuro.

Michio Kaku

Alucinados, bots e odiadores vão continuar disseminando mentiras, discordando do óbvio, defendendo o indefensável. O que precisamos fazer é confiar nas fontes oficiais, repassar informações verdadeiras e não ceder ao pânico. A ansiedade vai bater, vamos nos irritar, mas é preciso ser são em um mar de insanidade.

Se você está em casa, não fiquei ocupada o tempo todo. Não precisa assistir a 2531 lives no Instagram, nem entrar em 84832 cursos online gratuitos ou terminar os 24965 projetos parados. PARE. RESPIRE. Cultive o ócio. Assista a seus filmes preferidos. Jogue seus jogos favoritos. Mande mensagens para as pessoas importantes na sua vida. Ligue, se a pessoa permitir. Ocupe sua mente. Divirta-se com seu bichinho de estimação. Teste uma receita diferente. Arrume seu guarda-roupa, seu livreiro, o armário das panelas.

Está trabalhando? Siga as recomendações das autoridades de saúde, fique em casa o máximo que você puder. Mantenha a calma e confie nas fontes oficiais.

Seu valor não depende de sua produtividade. Seu valor depende da pessoa que você é. E este é o momento de mostrar quem somos. Quando tudo acabar, vamos nos abraçar e, como disse o governador de Nova York, Andrew Cuomo, vamos falar desses eventos por gerações. Espero que possamos sair desse período melhores pessoas do que quando entramos.

Até mais. ♡


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3 COMENTÁRIOS

  1. Sensacional!! Perfeito! Cirúrgico! Excelente Artigo.

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  2. Oi, Lady Sybyla. Estou com muito medo e sofro de ansiedade. Adorei seu texto, pois não estou saindo de casa nas também não estou sendo "útil", sabe? Estou tentando me alimentar bem, usar meu elíptico, mas sinto falta do sol que nesta época não bate no apartamento. Mas não estou conseguindo ler ou postar no meu blog. Acredito que muitas pessoas não se sentem úteis e têm peso na consciência. Amanhã é meu aniversário, porém parece um momento de luto. De luto antecipado. De ver que o mundo nunca mais será o mesmo. Que a sociedade vai mudar, que teremos muitas perdas. Então torço por isso que você citou: mais respeito e valorização das ciências humanas, exatas e biologicas, da pesquisa, da medicina e dos profissionais que estudam e planejam melhorias para a sociedade. Que as pessoas voltem a acreditar nas vacinas, nas informações, nos especialistas. Vou torcer.
    Abraço.

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  3. É o que também espero, capitã: que todos possamos sair deste período como pessoas melhores, apesar da peste da ignorância disseminada nesses tempos. Mas vamos superar isso também. Fiquem bem todos aí na nave. :-)

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