O ódio injustificado a Lwaxana Troi

Uma das personagens mais exuberantes da franquia Star Trek é Lwaxana Troi. A mãe da conselheira Deanna Troi, da Enterprise, volta e meia aparecia na nave do capitão Picard ou em Deep Space Nine com suas roupas exuberantes e jeito espalhafatoso. Foi justamente esse seu jeito irreverente que a tornou a personagem uma das mais odiadas da franquia, o que é totalmente injustificado.

O ódio injustificado a Lwaxana Troi



Lwaxana era interpretada por Majel Barrett-Roddenberry, esposa de Gene Roddenberry, o criador de Star Trek. Conhecida como a primeira-dama da franquia, ela interpretou a primeira-oficial do piloto original e depois a enfermeira Christine Chapel na série clássica. Ela também fez a voz do computador em alguns filmes e nas séries A Nova Geração e Voyager. Mas seu maior destaque foi como Lwaxana, a embaixadora do planeta Betazed, mãe da conselheira Troi.

O que eu acho mais fantástico na personagem é o fato de ela ser uma mulher madura, não uma jovenzinha de colant, como é sua filha, que só teve uma representação mais significativa lá para o meio de a Nova Geração. Majel já estava com 57 anos quando estreou na nave de Picard e deixava o capitão envergonhado pelas cantadas diretas a ele direcionadas. Sua exuberância e roupas diferentonas faziam com que as pessoas, frequentemente, a subestimassem (e continua sendo assim no mundo real, certo?). Foi uma adição audaciosa para uma audiência conservadora da TV aberta dos anos 1980 e acho que isso contribuiu para o ódio desmedido que a personagem começou a sofrer.

Filha da Quinta Casa, guardiã do Sagrado Cálice de Rixx e herdeira dos Anéis Sagrados de Betazed, heroína da guerra contra o Dominion em seu planeta natal, a vida de Lwaxana também foi marcada por tragédias, como a morte do pai de Deanna e a morte de sua filha Kestra. Como uma forma de não se deixar derrubar pela dor e pelo luto, Lwaxana passou a viver de modo exuberante, se divertia e paquerava sem pudores. Mas quando era preciso falar sério e defender seu ponto de vista, ela não se acanhava. Quando o cientista Timicin precisava voltar para seu planeta para realizar o suicídio ritual típico de seu povo, ela não mediu esforços para fazê-lo compreender o absurdo desse costume, como também foi até o capitão Picard na tentativa de dissuadi-lo.

O fato de Lwaxana ser uma mulher madura, diplomata, dona de si mesma, paqueradora e exuberante incomodou e muito a audiência masculina. Até hoje ela segue como uma das personagens menos queridas pelo público. E a razão é simples: ela não se encaixa no "padrão" adotado para mulheres dessa idade, que obviamente deveriam estar em casa fazendo crochê e não se metendo em naves estelares e usando roupas com decotes e cortes reveladores. A mulher precisa envelhecer longe da vida pública, de preferência sumir ou deixar de existir. Mas jogar em cassinos, paquerar, ter relacionamentos casuais, trabalhar e aparecer nua em um de seus casamentos? Credo, que horror. #ironia

Na nossa sociedade, quando uma mulher chega a uma determinada idade, ela passa a ser cobrada por conta dessa idade. Veja o caso da Madonna, que aos 61 anos ainda está fazendo turnês, gravando álbum novo, dançando e rebolando sobre os palcos. Em sua carreira, Madonna recebeu inúmeras críticas por seu comportamento fugir do que era esperado a uma mulher. Ao receber o Prêmio de Mulher do Ano da Billboard, ela comentou sobre como um artista pode fazer qualquer coisa, desde que seja homem. Inspirada no pioneirismo de David Bowie, Madonna queria ser aquele camaleão a cada novo trabalho. Mas não, isso não é permitido a uma mulher. As constantes críticas à Madonna são o melhor exemplo disso.

Você tem permissão para ser bonita, fofa e sexy. Mas não pareça muito inteligente. Não aja como você tivesse uma opinião que vá contra o status quo. Você pode ser objetificada pelos homens e pode se vestir como uma prostituta, mas não assuma e se orgulhe da vadia em você. E não, eu repito, não compartilhe suas próprias fantasias sexuais com o mundo. Seja o que homens querem que você seja, e mais importante, seja alguém com quem as mulheres se sintam confortáveis por você estar perto de outros homens. E por fim, não envelheça. Porque envelhecer é um pecado. Você vai ser criticada e humilhada e definitivamente não tocará nas rádios

Madonna


O fato de Lwaxana viver no universo de Star Trek é o que torna sua personagem ainda mais fascinante. Ninguém a repreendeu por seu comportamento ou a chamou de vagabunda, puta ou piranha (nem outras mulheres da franquia) por performar sua sexualidade ou deixar claras suas intenções. Nem mesmo o capitão Picard, o alvo constante das investidas de Lwaxana, foi desrespeitoso ou grosso com ela. O capitão era reservado e não sentia atração por ela e nem por isso usou palavras de baixo calão ou foi ofensivo. Nem mesmo se aproveitou da situação para "comer" a embaixadora.

Ou seja, a existência de Lwaxana ofende uma audiência masculina (e até uma parte da feminina) acostumada com a sexualização e com a juventude femininas. Se a mulher ousar envelhecer e não se aposentar para ficar em casa fazendo bolo de fubá, então ela está fora do padrão feminino que a parcela masculina espera e merece seu ódio e escárnio eternos. Como o que Lwaxana, como que Madonna e tantas outras mulheres recebem diariamente apenas por ousarem viver suas vidas, por terem opinião, por exercerem sua sexualidade. Se a mulher não estiver sob o poder abrasador do PADRÃO, ela então não tem valor.

Mas Lwaxana, Madonna, tantos outros exemplos, nos mostram que sim, temos valor. Não vai ser fácil, vão te julgar por isso, mas ou vivemos nossas vidas da melhor forma que pudermos, ou ao tentar caber no padrão dos outros seremos eternamente infelizes.

Até mais! ♡

Ela nos permite ser ultrajantes, escolher a imagem que queremos projetar, a dizer sim ao amor e a dizer não. Ela nos lembra que as mulheres em vestidos de lantejoulas podem ser formidáveis lutadoras e que alcançar isso com bondade e exuberância é uma habilidade válida para mulheres. Estamos autorizadas a ser nós mesmas ao seu redor, porque ela é inteiramente ela mesma.

Meg Elison

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2 COMENTÁRIOS

  1. Uma personagem tâo legal, adorave o jeito espalhavatoso, "Diva" que ela tinha.
    P.S: Eu nunca iria à um casamento em Betazed.

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  2. Gosto da Lwaxana. Lots of fun. Tem um momento dela com o Odo, presos no turboelevador, que sempre me sensibiliza, para citar um exemplo. Parece-me, entretanto, que poderia ser legítimo debater sobre o "aproveitamento" da personagem. Foram interessantes as histórias em que ela apareceu? Seria possível que mesmo os que produziram o show tenham-na subestimado de vez em quando? Tem aquele episódio em que ela se interessa romanticamente por um personagem de holodeck, sem perceber que ele é uma simulação. Isso sempre me pareceu maldade com a personagem! Mas é possível uma outra hipótese: a fraqueza percebida em certos roteiros seria antes um reflexo dos preconceitos do público masculino do que um problema "real" da narrativa. Será?
    P.S. Ficar nu não seria nada demais. O problema é que todos sabem o que você está pensando sobre a nudez dos demais...

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