Resenha: O Clube de Luta Feminista, de Jessica Bennett

Finalmente consegui trazer a resenha de O Clube de Luta Feminista, pois estive relendo algumas partes dele esses dias quando senti que a Síndrome de Impostora estava me atacando. O livro me ajudou a lembrar porque eu escrevo, e a ajuda da galera no Twitter me ajudou muito também a lembrar do que importa. O CLF também pode te ajudar a mudar de postura e parar de se autossabotar.



O livro
Quantas vezes você tentou apresentar uma ideia e foi interrompida pelo colega homem? Quantas vezes você se irritou ou se exasperou por alguma razão e vieram perguntar se você estava de TPM? Quantas vezes você perdeu a hora de um compromisso por que a carga mental da casa toda estava em cima de você e por isso foi a última a se arrumar para sair? Quantas vezes você procurou um lugar para chorar depois de se autossabotar? Não, você não é a única, não, você não está louca.

Resenha: O Clube de Luta Feminista, de Jessica Bennett

Existem microgressões diárias que as mulheres sofrem no mercado de trabalho, principalmente, apenas por serem mulheres. É o chefe que pede que você faça o café da reunião, é o colega que não te deixa completar uma simples frase. Essas agressões podem parecer mimimi do ponto de vista de quem não sofre com elas. Mas pense nas microagressões como picadas de abelha. Uma você vai esquecer rápido, agora receba 50 todos os dias e depois me diga que não incomoda.

Jessica também sabe de tudo isso e por isso escreveu esse Clube da Luta. Abusando do bom humor e da acidez, ela conta de onde surgiu a ideia do Clube. Várias mulheres com idades variando entre 20 e 40 anos se reuniram para reclamar das frustrações diárias no meio profissional e algo que elas logo perceberam foi que havia muitas coincidências entre elas. Era a promoção do colega menos capacitado, mas que era homem, a piadinha machista disfarçada de elogio, a ideia que era sua e o teu colega falastrão apresentou e levou. E pior: a dúvida batia depois, como muitas vezes bate. Será que eu exagerei? Estou pensando demais no assunto? A ideia era minha mesmo?

A única coisa mais poderosa que uma mulher autoconfiante é um exército delas.

O livro é dividido em seis partes. Em Conheça o inimigo, a autora nos apresenta o manterrupter (o macho palestrinha que interrompe a fala da mulher, também conhecido como Dr. Pica Interrompe). Além de identificá-lo, ela nos ensina a combatê-lo e isso se mantém ao longo do livro conforme ela vai identificando os problemas. Não apenas esse sujeito, mas o cara que se apropria de suas ideias (Bropropriator), o cara que acha que deve te explicar algo que você já sabe muito bem (Mansplainer ou o Dr. Pica Explica). Todos estão devidamente identificados. É uma pena que não brilhem no escuro.

Na segunda parte temos a famigerada Autossabotagem. Na parte três estão os estereótipos mais comuns no ambiente de trabalho, tipo aquele "não gosto de ter chefe mulher!". Na parte quatro estão as dicas para falar bem e de como devemos evitar pedir desculpas o tempo todo. Pode reparar quantas vezes você pede desculpas durante todo o dia. O cara tromba em você no metrô e você vai lá e solta um "desculpa". Você quer expor uma ideia na reunião e já vai e "desculpa, eu queria fazer uma colocação". Não, não se desculpe por querer colocar sua ideia na mesa, não se desculpe por algo que você nem fez. Na parte cinco temos as maneiras de como negociar um aumento.

E a última parte, Comporte-se com a confiança de um homem branco medíocre, faz uma convocação para os caras e de como não existe essa "guerra dos sexos", onde um perde e a outra ganha. A mudança de postura é nossa, mas também do cara para que ele deixe de fazer essas pataquadas e se torne um aliado contra a estrutura patriarcal e machista.

O livro é ilustrado e apesar da capa parecer infantil, ele é uma obra para mulheres jovens, para mais maduras, para homens, é uma leitura muito proveitosa para diversas faixa etárias. O tom leve da autora faz a leitura fluir muito rápido. Não encontrei problemas no livro (li o ebook) e a tradução de Simone Campos está ótima.

Não entre de fininho: entre de sola na conversa.


Ficção e realidade
Uma das lições mais importantes do livro é: pare de se autossabotar. Nós somos criadas desde pequenas para sermos comedidas, para não termos ambições, para sempre ficarmos em um estado passivo, sorridente, amável. Quanto a gente sai do estereótipo, começam as agressões e os julgamentos e entra em ação o fiscal de menstruação, que associa irritabilidade com TPM. Mudar posturas para liquidar a autossabotagem não é fácil. Eu sei disso. Nós colocamos nosso trabalho, nossos esforços, em um patamar irreal onde não apenas não nos congratulamos ou valorizamos o nosso trabalho como também exigimos um padrão de perfeição que não existe. Aí se você não atinge esse nível irreal, você já acha que seu trabalho não presta.

E mudar postura leva tempo. Volta e meia você vai cair na autossabotagem, mas é um trabalho diário de você valorizar seus pontos fortes, melhorar os pontos fracos e parar de pedir desculpa por existir. Comece agora. E caras, comecem agora a parar de sabotar as mulheres.

Jessica Bennett

Jessica Bennett é uma jornalista norte-americana que escreve sobre gênero, sexualidade e cultura. Ela é a primeira editora de gênero do The New York Times e ex-colunista da Time.


Pontos positivos
Ilustrado
Dicas boas
Divertido
Pontos negativos

É básico


Título: Clube da luta feminista: Um manual de sobrevivência (para um ambiente de trabalho machista)
Título original em inglês: Feminist Fight Club An Office Survival Manual for a Sexist Workplace
Autora: Jessica Bennett
Tradutora: Simone Campos
Editora: Rocco (selo Fábrica231)
Ano: 2018
Páginas: 336
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
O livro é um guia de autoapreciação para mulheres, se posso definir assim. É um guia para mudança de postura, tanto para homens quanto para mulheres, mas em especial para nós, pois ainda carregamos toda uma educação machista e patriarcal que nos trouxe até aqui. Então mudar de discurso, de postura, de atitude leva tempo, mas você deve começar, pois você importa, suas ideias importam e você precisa ser ouvida. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais!

[Homens] Deixe-nos falar. Tentem ficar de boca fechada tempo o suficiente para conseguirmos terminar o que dizíamos.


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