Psicologia no espaço profundo

Na ponte da Enterprise do capitão Picard uma das tripulantes mais importantes é a figura da conselheira Troi. Formada em psicologia e meio Betazed, o que lhe confere empatia e telepatia, ela está lá para auxiliar a tripulação com uma série de problemas psicológicos que resultem de uma viagem prolongada pelo espaço, além de ajudar o capitão em situações de primeiro contato ou que exijam uma compreensão melhor do outro. Isso pode parecer uma coisa bem estilo anos 1980, mas há uma razão para que a Frota Estelar se preocupe com o psicológico dos seus tripulantes.

Psicologia no espaço profundo



Apesar de seres humanos terem visitado o espaço e até a Lua várias vezes, não foi até a possibilidade de uma missão a Marte que as agências espaciais, especialmente a NASA, começassem a se preocupar com o impacto psicológico nos astronautas. Para ser justa, a Rússia já oferecia treinamento e aconselhamento psicológico para seus cosmonautas e considerava os desafios para uma tripulação enviada para Marte antes dos norte-americanos, tendo feito vários experimentos simulados entre 2007 e 2011, sendo o mais longo deles por cerca de 520 dias, com seis cosmonautas. Quatro deles saíram do experimento com problemas para dormir e depressão ocasionadas pelo isolamento, pela drástica mudança ambiental e pelo atraso de 40 minutos na comunicação entre Marte e a Terra.

Os primeiros astronautas, tanto norte-americanos quanto os russos, eram militares. Como pilotos de testes de aviões experimentais, eles eram condicionados e exaustivamente testados para poderem aguentar forças Gs muito superiores e a manterem a calma em situações de estresse. Militares altamente especializados como Força Delta e SEALS também passam por grande estresse físico e psicológico no treinamento para que possam aguentar o verdadeiro em missões. Um soldado que surte no meio de uma missão arriscada coloca em risco toda a equipe.

Isso sem dúvida ajudou e muito que os astronautas na Apollo 13 mantivessem a calma em tal situação, lutando para poderem voltar para a Terra e contando com a ciência e a engenharia para um retorno seguro. Eu, por exemplo, teria surtado, o que seria potencialmente fatal em uma situação dessas. Ainda assim, as missões da Mercury, da Gemini e da Apollo eram curtas se compararmos com uma missão para Marte. Uma ida para Marte envolverá vários meses de ida, vários meses de estadia no planeta vermelho, mais vários meses de volta para a Terra.

A NASA demorou muito tempo para reconhecer a importância do impacto psicológico das missões em seus tripulantes. Especialmente no começo do programa espacial, envolver a questão psicológica trazia uma série de estereótipos negativos recorrentes na época (como a ideia de que quem procurava um psicólogo era "doido"), que a NASA não queria ver sobre seus heróis do espaço. Mas quando os primeiros astronautas foram à bordo da estação russa Mir, no final dos anos 1980 e começo dos anos 1990, foi que eles perceberam o erro e a negligência de décadas. Russos e norte-americanos trabalhavam lado a lado por longos períodos de tempo em um ambiente estressante. Não era apenas a questão cultural, mas havia a solidão, a saudade da família, perda de performance em um ambiente de microgravidade e perigoso, além dos conflitos entre os astronautas.

As principais queixas deles envolviam ansiedade, palpitações, problemas para dormir, uma série de desconfortos como dores de cabeça e pelo corpo, mal estar, enjoos e falta de apetite, oscilações de humor, depressão, perda de motivação para trabalhar, além do isolamento dos outros tripulantes e até discussões e conflitos pela liderança. A missão da Soyuz TM-2, em 1987, teve que ser encurtada por problemas de relacionamento na equipe e a tripulação da Salyut 7 foi trazida de volta pelo mesmo motivo. Vários astronautas tiveram problemas posteriores às missões, como abuso de álcool e drogas, problemas no casamento e depressão.

O caso polêmico da astronauta Lisa Nowak, em 2007, onde ela se envolveu em um triângulo amoroso e foi acusada de tentativa de assassinato, acendeu a luz vermelha na NASA para melhor acompanhar o psicológico de seus astronautas. A avaliação psiquiátrica era exigida apenas daqueles que voariam em missão e hoje é exigida de todos os que ingressarão no programa, voando ou não. Além disso, cada astronauta tem uma videoconferência com os familiares uma vez por semana, além de aconselhamento com especialistas no solo para ajudar a resolver conflitos.


Marte
Uma viagem para Marte vai exigir muito de seus tripulantes. Mais do que qualquer astronauta jamais precisou suportar, mesmo aqueles enviados à Lua. Em uma missão que pode durar até três anos, isso se não acontecer uma emergência, muita coisa pode dar errado. Imagine se no meio da viagem um astronauta tiver apendicite? Ou entrar em depressão? No espaço você está nas mãos da sua equipe e se algo der errado, bem... a ficção científica já mostrou o que pode acontecer, é só assistir ao filme Pandorum.

O chamado overview effect já foi relatado por vários astronautas, que é a intensa experiência de ver a Terra em órbita ou da Lua. É aquele momento em que você percebe que tudo o que você conhece, sua família, amigos, os lugares que visitou, onde mora, onde trabalha, que tudo isso está contido naquele ponto azul tão frágil e tão delicado solto no espaço. É reconhecer a fragilidade da nossa existência e no quão pequenos são os nossos problemas diante de toda a imensidão do espaço.

Mas imagine que você está à bordo de uma nave rumo a Marte e a Terra fica cada vez menor na escotilha. Pense na distância entre você e aqueles que você ama. Pense em todos os riscos envolvidos nessa missão. Como fica a cabeça de um astronauta em um estresse desses? Desde 2012, a NASA vem testando a resistência de astronautas no HI-SEAS (Hawai’i Space Exploration Analog and Simulation), uma estação há 2500 metros acima do nível do mar, no Havaí, onde seis pessoas ficam isoladas em condições ambientais severas e com um atraso na comunicação de 40 minutos.

Os resultados mostram o que os russos já sabiam e que sem poder evitar os conflitos humanos, o jeito é escolher pessoas com grande capacidade de adaptação, resiliência, resistência, que trabalhe bem em equipe e que seja um bom colega de quarto. Além disso, a NASA se preocupa com questões de gênero e raciais entre seus tripulantes, que certamente são fatores de conflitos aqui, quanto mais em uma situação estressante como uma missão a outro planeta.

As expectativas baseadas no gênero dos astronautas é um fator importante na forma como homens e mulheres se comunicam e interagem uns com os outros, seja na comunicação verbal e não-verbal, na expressão e interpretação de emoções. As agências espaciais já notaram que equipes maiores, seis ou mais tripulantes, trazem maior coesão e integração entre os tripulantes, uma vez que cada um tenha características e conhecimento válidos para a missão. Uma tripulação mista consegue resolver melhor os conflitos e conversa melhor entre si.

Mas há também relatos de incidentes culturais entre equipes de países diferentes. Já nas missões norte-americanas na Antártica, muitas delas servindo de preparatórias para missões espaciais, mulheres relataram assédio sexual e comportamento grosseiro dos colegas homens. A cosmonauta Svetlana Savitskaya, por exemplo, relatou machismo dos colegas cosmonautas à bordo da Salyut 7 e Yelena Serova, primeira cosmonauta russa a ir à bordo da Estação Espacial Internacional, teve que ouvir perguntas na coletiva de imprensa sobre como ela cuidaria do cabelo e como faria a maquiagem em órbita. Anatoly Perminov, ex-diretor da agência espacial russa, chegou a dizer no passado que ter mulheres a bordo de uma nave espacial era "má sorte".

Então, até que possamos desembarcar astronautas no solo marciano, precisamos assegurar que esta equipe possa trabalhar junta, que possa deixar preconceitos de lado e que supere diferenças culturais, algo que se você parar para pensar é bem difícil de se fazer. Precisa ser uma equipe que trabalhe sob pressão, que possa tomar decisões com poucas informações, que possa ter calma em situações de estresse. Vamos torcer para que os programas espaciais consigam treinar adequadamente seus astronautas a fim de gerar missões bem-sucedidas e menos estressantes para todo mundo.

Até mais!

Leia também:
Psychology of Space Exploration, de Douglas A. Vakoch - NASA


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