Resenha: Children of Time, de Adrian Tchaikovsky

Este era um livro que eu queria ler há muito tempo e ele acabou perdido no meu Kindle por meses. Aí, vendo essas listas de leituras de ficção científica, vi uma indicação para ele e fui fuçar no meu dispositivo e surpresa!, eu já o tinha ali me esperando. Esta é uma jornada humana de séculos, de milhares de anos, onde dois povos lutam por seu lugar no universo.




O livro
A raça humana conquistou o espaço, criou uma tecnologia incrível, duradoura e está transformando outros planetas para colonização. Começamos a história em órbita de um desses planetas terraformados que receberá um contingente de primatas que serão transformados ao longo das gerações por um nanovírus. A Terra vem passando por mudanças políticas e climáticas significativas e os ânimos andam acirrados entre aqueles que são contra qualquer manipulação genética. A doutora Avrana Kern está prestes a dar início à missão no planeta abaixo, se gabando de seus feitos e de seu legado. Mas um atentado contra a estação vira seus planos do avesso. Seus primatas não sobrevivem à queda e Kern fica presa em um módulo de hibernação em órbita, pedindo socorro.

Resenha: Children of Time, de Adrian Tchaikovsky

A história segue dois pontos de vista: a dos sobreviventes da raça humana à bordo da nave Gilgamesh (milhares de anos depois) e o povo que se desenvolveu no planeta de Kern (também milhares de anos depois). E aqui entra um dos pontos altos do livro (não se preocupe, não é spoiler). O nanovírus que deveria transformar os primatas em seres sencientes acaba transformando... as aranhas. Aranhas e formigas também. A espécie Portia labiata é uma das que mais rápido se desenvolve e se torna inteligente. Sim, temos um planeta inteiro dominado por aracnídeos e insetos inteligentes capazes de criar tecnologia.

Adrian tocou em diversos aspectos ao criar o livro. A questão ambiental, por exemplo, que na Terra ia de mal a pior. Os sobreviventes da civilização humana, depois de milhares de anos, consegue dominar a tecnologia do "império", como eles chamam, e criam a Gilgamesh, onde uma tripulação em hibernação busca um novo lar. Eles acordam de tempos em tempos em busca de um planeta e se deparam com o verdejante planeta que eles não sabem ser habitado por aranhas tamanho família.

Esse é o problema da ignorância. Você nunca realmente reconhece o quanto não sabe das coisas.

(tradução livre)

Mesmo se passando milhares de anos entre os eventos, o autor criou alternativas narrativas para não deixar as leitoras perdidas. As personagens aracnídeas, por exemplo, possuem o mesmo nome, pois são os nomes de suas espécies ou de suas pioneiras, e elas carregam informações em nível genético para a geração seguinte. E a tecnologia humana à bordo da Gilgamesh permite que você viva milhares de anos em hibernação, acordando eventualmente quando há necessidade. Mas sabemos que a raça humana é idiota a ponto de criar atritos, ainda mais quando não se tem onde pousar, não se tem mais a Terra, a busca por um planeta continua... Acho que você também acabaria bem tensa numa situação dessas.

Lain, a engenheira-chefe e o classicista Mason são membros da tripulação principal da Gilgamesh e muitos eventos do livro ocorrem com eles, que dedicam sua vida a encontrar um planeta habitável. Tantos eventos distintos acontecem nas duas narrativas que é difícil escolher o melhor. E mesmo com todo o tema ambiental, com todo o medo de nunca encontrar um novo lar, os problemas da missão e o longo tempo que se passa, o livro é espantosamente otimista, um tom clarkeano que os fãs vão curtir muito.

Lidar com as aranhas poderia fazer o autor cair em estereótipos batidos da ficção científica, como antropomorfizar os bichos, mas não. As aranhas se comunicam por vibrações em suas teias e é uma sociedade matriarcal, onde os machos clamam por mais direitos, inclusive o de não serem mortos apenas por serem machos. Ficou tudo tão crível, tão bem escrito, que em determinados momentos você quer ler mais sobre as aranhas do que sobre os humanos perdidos. Adrian trabalhou a sociedade aracnídea de maneira brilhante, passando por vários estágios civilizatórios, como caçadores-coletores, antiguidade, idade média, moderna e até contemporânea. E acompanhamos também uma evolução na forma de pensar delas, como gradualmente abandonam o misticismo para alcançar uma sociedade racional e lógica.

E os humanos, bem... continuamos batendo cabeça pelas mesmas idiotices de sempre. A nave tem motins, tem mortes, tem problemas sérios com a tripulação em hibernação e o tempo está correndo contra eles. A nave não pode ficar mais tempo no espaço e encontrar um planeta habitável vem se provando extremamente difícil para eles. Este livro é um épico sobre a natureza da consciência dos indivíduos, sobre o instinto de sobrevivência, sobre a evolução dos seres contra todas as estimativas. Também temos a discussão sobre como é difícil entender o outro quando ele é tão diferente de nós, mas quem disse que não devemos tentar?

A edição é grande, são mais de 600 páginas e é uma pena mesmo que não tenha em português, pois é um livro incrível. Um livro épico mesmo, como eu disse acima. Por ser bem grande, ele perde ritmo algumas vezes e depois ganha de novo, mas nada muito grave, que te faça querer abandonar a leitura. E enquanto escrevia a resenha descobri que uma sequência está vindo ainda esse ano, Children of Ruin.

A vida não é perfeita, os indivíduos sempre serão falhos, mas a empatia - a pura incapacidade de ver aqueles ao seu redor como qualquer outra coisa além de pessoas - conquista tudo, no final.

(tradução livre)

Ficção e realidade
Um dos aspectos mais interessantes do livro é pensar na humanidade numa escala de milhares de anos. Nossa necessidade de sobreviver a qualquer custo pode nos levar a fazer as coisas mais imbecis e depois os outros é quem pagam o preço. Todos os personagens do livro são movidos pela sobrevivência e pelo medo do desconhecido. E quanto a Terra não pode mais nos abrigar, a raça humana é obrigada a se lançar no espaço, quase sem rumo, estudando os restos de uma civilização que eles nunca conheceram, sem saber o que os esperam. É um resumo de toda a nossa civilização até agora.

Adrian Tchaikovsky

Adrian Tchaikovsky é um escritor britânico de fantasia e ficção científica, tendo estudado zoologia e psicologia na faculdade.

Pontos positivos
Lain e Mason
Portia e Bianca
Através de gerações
Pontos negativos

Preço
Não tem em português

Título original em inglês: Children of Time
Autor: Adrian Tchaikovsky
Editora: PanMacmillan
Páginas: 609
Ano de lançamento: 2015
Onde comprar: na Amazon


Avaliação do MS?
Apesar do começo tão desastroso para a raça humana e as dúvidas que temos sobre como a Gilgamesh vai sair dessa, este é um livro surpreendentemente otimista. O autor desafiou alguns estereótipos do gênero entregando uma space opera maravilhosa, onde você se recusa a deixar os personagens quando tudo termina. Uma epopeia sobre a sobrevivência e sobre responsabilidades. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também.

MUITO BOM!

Até mais!🕷

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