Resenha: Stronger, Faster, and More Beautiful, de Arwen Elys Dayton

Livros que tratem de melhorias corporais logo costumam atrair a minha atenção. Com esse aqui não foi diferente. A capa foi a primeira coisa que me agradou. Não sei se fui com muita expectativa, mas sei que terminei o livro frustrada com a execução.





O livro
Este é um mundo que começa com uma proximidade muito grande do nosso tempo. Neste futuro próximo, a tecnologia de engenharia genética e implantes corporais está bem próxima. Transplantes múltiplos podem salvar vidas, pessoas acidentadas podem ter parte do seu corpo reconstruída com partes sintéticas e levarem uma vida praticamente normal. Porém não é um mundo calmo. Líderes religiosos, especialmente o reverendo Tad Tadd, é o mais fervoroso opositor dessa prática, comparando as pessoas que implantam ou transplantam órgãos e partes do corpo a demônios.

Resenha: Stronger, Faster, and More Beautiful, de Arwen Elys Dayton

O livro não acompanha um personagem ou um grupo de personagens. Na verdade cada capítulo trata de uma pessoa ou pessoas que tiveram suas vidas impactadas pela tecnologia que está avançando e nos levando cada vez mais distante no futuro, ainda que a autora não especifique datas. E é aqui que meu primeiro problema começa. Como os personagens mudam a cada capítulo, chegou uma hora em que eu não me preocupava com nenhum deles. Gosto de livros em que eu posso acompanhar a jornada dos personagens, não quero que eles desapareçam do nada. Essa é uma estrutura que não me agrada. O primeiro capítulo fala sobre um rapaz cuja irmã gêmea está confinada numa cama, prestes a morrer e doará seus órgãos ao irmão, que ainda pode ser salvo. Esse arco acaba, começa o arco da Milla, que teve o corpo reconstruído depois de um acidente e tem um péssimo encontro com um rapaz da escola. Acaba esse arco, começa outro...

Mas OK, é uma coisa que não me agrada, não quer dizer que todos os livros assim serão iguais, nem que outras pessoas não possam gostar. Mas mesmo que o livro não trouxesse personagens com os quais a gente pudesse empatizar e acompanhar, ao menos as discussões poderiam ser aprofundadas e tratar da nossa humanidade, dos limites da tecnologia, de nossa essência enquanto ser humano e até onde podemos ir nas modificações corporais. Há toda uma discussão de bioética, de medicina, de limites da tecnologia que podem ser discutidos e tratados.

Que sinto que não foram. Ou não foram com a profundidade que merecia ter sido. O antagonista, o reverendo Tad Tadd, que em princípio seria um fio norteador do enredo, é apenas um cara que invadia quartos de hospitais para gritar com as pessoas, como se fosse um exorcista. A autora se vale de bullying, encontros em drive-ins, engenharias genéticas bizarras, gângsters russos para tentar construir uma narrativa que não vai pra frente. Esses estereótipos e as análises rasas que nunca evoluem me frustraram bastante durante a leitura, que pareceu durar uma eternidade, já que nada se resolve de maneira definitiva.

O que é possível ressaltar da história é como essa tecnologia criou uma categoria de sub-humanos que acabam sendo explorados com rapidez pelos poderosos. Um dos riscos da análise genética de perfis é a de não contratar pessoas com genes para doenças genéticas, ainda que elas nunca venham a desenvolvê-las. Aqui a autora extrapolou ainda mais isso essa questão, onde pessoas perdem seu status de humanos e são transformados em apenas trabalhadores braçais, sem nenhum direito. Há também a questão da manutenção do poder nas mãos de poucos poderosos, que acabam tendo o direito de vida e morte sobre as pessoas apenas por possuírem uma determinada tecnologia.

Isso significa que os humanos, como raça, permitiram que a imaginação e a beleza se infiltrassem em suas vidas a cada nova geração? Ou eles destruíram a imaginação e a beleza, capturando-as e codificando-as? Nesse caso, eu sou o resultado final?

(tradução livre)

O final acaba deixando uma certa esperança de que a humanidade acabará encontrando um caminho livre da tecnologia, mas senti que o final está aberto demais para interpretação, então realmente não sei se terá uma continuação ou não.


Ficção e realidade
Não sei o quão longe nós estamos de uma realidade como a deste livro. Também não sei até onde o ser humano iria pela modificação corporal. Modificar o corpo é algo tão antigo quanto a própria civilização humana. São brincos, tatuagens, chegando aos apliques, implantes e próteses dos dias de hoje. Caso as mudanças corporais drásticas que vemos neste livro ficassem acessíveis para as pessoas, elas fariam? Tipo, três braços, quatro olhos, capacidade de fazer fotossíntese, seis pernas... Teríamos limites? E a humanidade, como fica? Como ficam as pessoas que nada querem ter a ver com isso, elas serão exiladas, serão vistas como esquisitas? Tem bastante coisa para se pensar a respeito.

Arwen Elys Dayton

Arwen Elys Dayton é uma escritora norte-americana ficção científica, fantasia e ficção especulativa. Já trilogia Seeker, de fantasia, já foi publicada no Brasil.

Pontos positivos
Atual
Discussão sobre bioética

Pontos negativos
É chato
Arcos dos personagens
Discussões rasas

Título: Stronger, Faster, and More Beautiful
Autora: Arwen Elys Dayton
Editora: Delacorte Press
Páginas: 384
Ano de lançamento: 2018
Onde comprar: na Amazon


Avaliação do MS?
Uma pena. Eu comprei a ideia do livro, tentei entrar na onda, mas quando sentia que a autora finalmente ia discutir alguma coisa, o arco dos personagens acabava e ela começava outro. Foi assim no livro inteiro, então chegou uma hora que eu simplesmente não ligava mais se alguém vivia ou morria ou ganhava uma perna a mais. Três aliens.

É bom, mas...

Até mais!

Já que você chegou aqui...

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1 Comentário

  1. Quase nunca deixo de ler ou assistir nada por causa de críticas negativas... menos quando essas críticas veem da Capitã, toda vez que fui contra uma dica aqui do Momentumsaga me arrependi e toda vez que mergulhei em algo por um toque deste blog foi maravilhoso! Tu é foda Capitã!

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