Resenha: The Geek Feminist Revolution, de Kameron Hurley

Este é mais um daqueles livros que precisam de uma tradução, mas ninguém fez ainda, sabe? Quer dizer, soube que chegaram a cogitar uma tradução, mas imagino que o "feminist" na capa possa ter incomodado. Se você lê em inglês, este livro é um conjunto de ensaios essenciais para se compreender a jornada da escritora, feminismo, especialmente na internet e cultura pop.



O livro
Vamos colocar desta forma: se você acha que há algo - qualquer coisa - que as mulheres não fizeram no passado, você está errado.

Kameron Hurley ainda não foi publicada no Brasil e, sinceridade, não entendo porque ainda. Espero que já estejam cogitando trazer algumas de suas obras, como The Stars Are Legion, pois sua escrita é uma força da natureza. Estes ensaios, 36 no total, sendo que 9 foram escritos especialmente para o livro, abrangem os assuntos que muitas mulheres nerds e/ou escritoras conhecem bem e discutem entre si diariamente.

Resenha: The Geek Feminist Revolution, de Kameron Hurley

Dividido em quatro partes, cada uma atende a uma demanda específica da autora. Level Up fala da importância de se persistir e insistir na escrita, a fim de se melhorar cada vez mais e de vencer seus medos a respeito. Na parte Geek, existem ensaios falando sobre o fandom, sobre a cultura nerd em geral. Em Let’s Get Personal temos ensaios bem pessoais, as lutas pessoais dela, a depressão, que acabam refletindo em quem lê e em Revolution a autora discute os problemas do fandom, os trolls da internet, e convoca as pessoas para uma revolução.

Um de seus ensaios mais famosos, We Have Always Fought, ganhador do Hugo Awards em 2014, está no livro também, nesta última parte; um ensaio poderoso que mostrou o quanto as mulheres sempre estiveram presentes, mas seus atos, ações, vontades, invenções e criações foram ignoradas, subestimadas ou completamente apagadas da existência.

Metade do mundo é composto por mulheres, mas é raro ver uma narrativa que não fale de mulheres como pessoas que tiveram ajuda para fazer algo, ao invés de serem pessoas que fizeram algo. Frequentemente, mulheres são descritas como filha de um homem. A esposa de um homem.

Tendo enfrentado todo tipo de desafio, como relacionamento abusivo, desemprego, falta de dinheiro e depressão, Kameron nos leva pelos caminhos da escrita e da criatividade. E nos diz que não, não será fácil. Sim, você vai querer largar tudo para o alto. Você vai fazer? Aí depende exclusivamente de você. A principal lição a se tirar destes ensaios é sobre persistência. Sobre perseverança; sobre insistir em insistir, firmando seus pés no campo onde você está e lá se manter.

Basicamente é isso o que as mulheres fazem a vida inteira. Por sermos mulheres, somos vistas como inferior apenas por isso. Sendo assim, um erro nosso acaba sendo um erro de todas as mulheres do mundo, não um erro individual. Especialmente se você é mulher, nerd, escreve, está na internet, essa é uma luta diária contra o mundo que aponta o dedo e diz que você não sabe o suficiente, não é boa o suficiente, não consegue tanto quanto um cara. E as comparações são imediatas com outras mulheres.

Uma preocupação de algum leitor que veja o título e o conteúdo pode ser se ela ataca os homens. Não, mas ela aponta diretamente para a sociedade patriarcal que sustenta um sistema de opressão e que mantém mulheres neste patamar generalizante, onde somos vistas como inferiores. A autora vai fazer você, homem, se desafiar, a se colocar no lugar de uma mulher e quem sabe se sentir um pouco culpado ao reconhecer alguns comportamentos e falas, não importa o quão desconstruído você acha que seja.

Eu li o ebook, mas adquiri numa época em que ele estava bem barato. Na Amazon você encontra a edição física, em brochura simples e papel comum e uma edição em capa dura que está bem cara. Reforço aqui mais uma vez: por favor, editoras brasileiras, traduzam a Kameron Hurley!


Ficção e realidade
Minha vida na escrita sempre se resumiu à persistência. Eu escrevia contra tudo e contra todos, inclusive quando me diziam que era inútil, que nunca serviria para nada, eu estava lá, o nó na garganta, as lágrimas nos cílios, escrevendo furiosamente. Mesmo nos hiatos em que eu não podia escrever, eu estava pensando em escrever. Tinha um caderninho e continuava minhas histórias à mão, sentada numa padaria, esperando a hora de ir trabalhar. Escrevia no fim dos meus cadernos da faculdade quando estava com a mente cansada demais para estudar. Parar de escrever nunca foi uma opção, apesar de eu já ter me frustrado demais e chorado demais por isso.

Os ensaios de Kameron se bateram de frente comigo em muitos momentos. Senti que tivemos experiências, muitas vezes, semelhantes. E a questão é simples: somos mulheres tentando fazer da escrita um meio de vida em um mundo que não nos quer lá. Essa é a questão que ela aborda no livro tantas vezes. E é por isso que ela martela o tempo todo sobre a persistência.

Kameron Hurley

Kameron Hurley é escritora, nascida nos Estados Unidos, tendo vivido em vários lugares, persistindo e insistindo na escrita, especialmente quando esteve desempregada. Já foi indicada a vários prêmios, tendo ganhado o Hugo Awards entre outros.

As mulheres da minha família eram matriarcas trabalhadoras. Mas as histórias que via na TV e no cinema e até em muitos livros diziam que elas eram anomalias.

Pontos positivos
Ensaios
Cultura pop
Escrita
Pontos negativos

Não tem em português


Título: The Geek Feminist Revolution
Autora: Kameron Hurley
Editora: Tor
Páginas: 288
Ano de lançamento: 2016
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Vi algumas resenhas se referirem aos ensaios como "raivosos". Taí uma maneira machista de se referir ao livro, pois um homem nunca é raivoso; ele é assertivo, ele é direto, ele é duro na queda. As mulheres, bem, são loucas, histéricas, raivosas. Como eu disse no começo, Kameron escreve como uma força da natureza. Tal como um furacão, você apenas pode se preparar para aguentar a tormenta e aprender com ela, mas nada pode pará-la. Essa é a escrita das mulheres, essa é a revolução que estamos fazendo. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais! 💪

Povoar um mundo com homens, heróis homens, homens e suas 'mulheres, gado e escravos' é um ato político. Você está fazendo uma escolha consciente em apagar metade do mundo.

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