Resenha: A Balada Do Black Tom, de Victor Lavalle

Um livro curtinho, mas com uma trama sufocante e intensa, vencedor de três prêmios literários e finalista do Hugo, do Nebula e do Locus. Baseado no conto racista de HP Lovecraft, O Horror em Red Hook, Victor reconta a trama de maneira brilhante não só para homenagear o legado de Lovecraft como também a sanar os problemas do conto original e trazer o enredo para o século XXI. A edição em capa dura da Morro Branco contribui para deixar o livro ainda melhor.



Parceria Momentum Saga e
Editora Morro Branco


O livro
Estamos no Harlem, em Nova York, em 1920, a Era do Jazz. É aqui que vive Charles Tommy Tester, um rapaz negro, mais conhecido pelos vizinhos e amigos como Tommy. Apesar de amar a música, Tommy é um trambiqueiro; ele mesmo confessa que não tem talento para o violão. A vida não é fácil, é na verdade uma luta diária e seu pai o adverte para tomar cuidado com os golpes que aplica por aí. Mas sem os golpes não tem comida na mesa. De vez em quando, Tommy faz entregas de objetos estranhos para quem pagar melhor. E é aí que a coisa muda: um ricaço branco, chamado Robert Suydam, quer pagar um valor altíssimo para que Tommy toque violão em uma festa.

Resenha: A Balada Do Black Tom, de Victor Lavalle

Como disse o site da National Public Radio, este livro é um tributo e uma crítica a Lovecraft. Victor é fascinado pelos mundos criados pelo autor, com seus seres impossíveis e HPL se tornou uma de suas inúmeras referências na carreira de escritor. Conforme amadureceu, aprendeu muita coisa e leu outros autores, Victor se viu surpreso, talvez até perplexo, ao perceber que os enredos que o fascinaram na juventude eram ofensivos, racistas e xenófobos, ainda mais para um homem negro.

A Morro Branco fez um excelente trabalho ao colocar o conto original de Lovecraft no final, sem suavizar em nada a escrita do autor para que você, enquanto estiver lendo, possa tirar as próprias conclusões sobre as colocações xenófobas mais que óbvias do enredo. É um conto que ecoa nos dias atuais, com todo o ódio contra imigrantes, botando na conta dos não brancos, de gente de fora, por todas as mazelas que o bairro sofre.

Victor percebeu aqui a oportunidade de recontar essa história da perspectiva de um homem negro. Ao reimaginar o conto, ele pode dar-lhe a voz e o tom de suspense, por vezes sufocante e arrepiante, com todos os tons de mistérios que os fãs de Lovecraft gostam. O Black Tom do livro é Tommy, que liberta um mal ancestral com os acordes de seu violão. Que alimentará a noite do Harlem com terror. Mas ele não faz isso só porque acha legal, porque quer, existe um motivo muito forte para Tommy partir para cima dos brancos.

Algumas pessoas sabem de coisas sobre o universo que ninguém deveria saber, e podem fazer coisas que ninguém deveria ser capaz de fazer.

Página 71

Victor se apropriou da narrativa de Lovecraft do conto original para recriar o enredo de forma a falar da vida do negro nos Estados Unidos. Com uma magia sombria e sede de vingança, o protagonista está totalmente imerso no universo lovecraftiano, ainda que seja totalmente original em sua forma de contar a história. Tudo isso só foi possível pela forma excelente com a qual Victor narra as experiências do Black Tom. E não foi fácil passar pelas discussões explícitas feitas pelo autor e depois encontrar o racismo de Lovecraft no final, autor por quem eu não nutro muita simpatia, apesar de achar o trabalho que fez fascinante.

A edição da Morro Branco é em capa dura, acompanhada de um marcador de página. A primeira parte do livro que é bem pequeno, você pode ler em um dia, tem A Balada do Black Tom. No final, em páginas pretas, está o conto de Lovecraft, O Horror em Red Hook, com uma introdução da editora justificando a decisão de colocar o conto junto da obra que o reinventa.


Ficção e realidade
É muito difícil para algumas pessoas, aquelas com empatia pelo menos, descobrir que seus artistas favoritos são passíveis de atos execráveis, de violência, racismo, misoginia e homofobia. A gente se pega pensando quanto desses temas nós absorvemos por consumir esta literatura, como certos conteúdos são ofensivos e como tem gente que não achava nada demais o autor ser desta forma, desculpando por ser "da época". Não dá para desculpar não, sinto muito. Mas é possível sim observar estar obras com um olhar crítico e daí extrair o que há de melhor, se for possível. A questão de continuar ou não consumindo as produções de artistas com tal passado é de cada um.

Victor Lavalle

Victor Lavalle é escritor de contos, novelas e romances, escrevendo para várias revistas. Nascido e criado no Queens, em Nova York, hoje é professor da Universidade Columbia.

Pontos positivos
Protagonista
Reinvenção de Lovecraft
Discussão sobre racismo e pobreza
Pontos negativos
Pode ser meio lento em algumas partes
Racismo e xenofobia


Título: A Balada Do Black Tom
Título original em inglês: The Ballad of Black
Autor: Victor Lavalle
Tradutores: Petê Rissatti e Giovana Bomentre (O Horror em Red Hook)
Editora: Morro Branco
Páginas: 190
Ano de lançamento: 2018
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Sou sincera em admitir que não curto HP Lovecraft, apesar de admirar seus universos cósmicos e até gostar de um conto ou outro. Não é um autor que eu pegue numa tarde para ler. Quando este livro chegou, admito que me senti intimidada, mas a escrita de Victor é tão boa, você embarca nesse horror cósmico de tão bom grado, que o livro deixa uma sensação de quero mais. Mas prepara-se, a viagem não será nada fácil. Quatro aliens e uma forte recomendação para você ler também.


Até mais! 🐙

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