O problema sexual da Dra. Beverly Crusher

Sim, coloquei um título polêmico para te atrair até aqui. Sim, você, fã de Star Trek e da Nova Geração. O problema não é exatamente da personagem e sim do roteiro falho de The Host, episódio 23, da 4ª temporada. Esse é um dos meus episódios favoritos, mas também um dos que mais me incomodam na Nova Geração pela oportunidade perdida de se falar abertamente sobre atração sexual e gênero na ficção científica. Este também é um dos episódios mais discutidos de toda a história de Star Trek.

O problema sexual da Dra. Beverly Crusher

Leia também: Como Star Trek tratou questões LGBT?

The Host fala sobre o romance da Dra. Crusher com o charmoso embaixador Odan. Mas em uma negociação que deu ruim, ele é mortalmente ferido e descobrimos que Odan na verdade é um Trill, uma espécie alienígena onde alguns escolhidos carregam um simbionte, que partilha suas experiências com o hospedeiro. Para continuar as negociações, o simbionte é temporariamente transferido para o corpo do comandante Riker, junto dos sentimentos que Odan têm por Beverly. No final, quando outro Trill é enviado para receber o simbionte Odan, Beverly descobre que é uma mulher. E quando Odan tenta reatar o relacionamento, Beverly recua, dando a velha desculpa do "não é você, sou eu".

O roteiro foi mal escrito, a questão é essa. Para a época em que foi lançado, nos começo dos anos 90, na TV aberta e conservadora dos Estados Unidos, o episódio causou um bafafá danado entre a audiência. E é bom que cause discussão, mas a franquia não melhorou nos episódios e séries seguintes. É possível trabalhar com metáforas alienígenas, como Star Trek fez diversas vezes, para discutir todo tipo de pauta, mas chega uma hora que é preciso sair da metáfora e começar a pisar no chão duro da realidade.

O episódio deixa muita gente dividida com a reação de Beverly. Ela deveria ter desconsiderado a aparência feminina de Odan, assumindo que o amor é um sentimento que transcende a forma física das pessoas ou ela apenas é uma pessoa que não consegue separar o sentimento romântico do gênero do amante? É preciso lembrar que o roteiro não teve problemas em jogar Beverly nos braços de um oficial superior e amigo de longa data, mas quando uma vagina está na equação, ela teve que recuar. Percebe como ficou mal escrito?

Em defesa da Dra. Crusher, ela se ressente de Odan por não ter contado a ela a respeito desta peculiaridade de sua espécie. E é uma confusão extremamente compreensível do ponto de vista da médica da Enterprise e da espécie humana heterocisnormativa onde a série surgiu. Para os Trill, por sua vez, o sentimento é universal, eles não têm preconceitos com relação ao gênero da companheira ou companheiro, como vemos no caso de Jadzia Dax e Lenara Khan, em Deep Space 9. Seriam os Trills os primeiros pansexuais da ficção científica?

Acontece que Beverly, obviamente pela forma como o episódio acaba, não é pansexual. Em um determinado momento, ela se pergunta, enquanto comenta com a conselheira Troi, o que a fez se apaixonar por Odan: seus olhos, suas mãos, sua boca? Tudo aquilo se foi com a mudança de hospedeiro, inclusive em Riker. Estas são perguntas bem pertinentes, afinal o quanto de nossa atração sexual é baseada na personalidade e na aparência da pessoa?

Mas aí entramos em outra falha do enredo. Se ela pode se apaixonar por um alienígena, e a galera faz isso o tempo inteiro, em vários episódios, não pode se apaixonar por uma mulher? As regras de gênero, sexualidade e atração são todas iguais em todas as raças extraterrestres da galáxia? E se a raça Trill não denotasse gênero, fosse andrógina, ela teria problemas para se envolver com o novo corpo de Odan?

A audiência da época talvez não estivesse preparada para lidar com questões tão primordiais de sexualidade humana ou os roteiristas, muito provavelmente, não tivessem condições de lidar com tais questões ou a desconheciam completamente. Quem sabe as duas coisas. Houve uma grande oportunidade de discutir os limites e as limitações da sexualidade humana, de gênero, da atração física entre os indivíduos, mas o que ganhamos no final é uma Dra. Crusher incomodada e desconfortável com a evidente atração sexual de Odan, agora em um corpo feminino.

Odan em um corpo de mulher

Novamente, o problema é de roteiro. Não teria problema algum em Beverly ser heterossexual e ter atração apenas por corpos masculinos, se ela não desse aquela resposta de meia pataca e sem sentido do final. Beverly comenta que não teria condições de entrar em um relacionamento amoroso com alguém que muda de corpo o tempo inteiro. Beverly, qual é, miga? Os Trills não trocam de corpo a cada semana, foi um acidente de percurso.

O mesmo acidente de percurso acontece com Jadzia Dax. Dax, o hospedeiro, estava tão instável depois da morte de Jadzia que eles transferiram o simbionte para o primeiro Trill que encontraram, Esri, uma mocinha bonitinha, tímida, insegura, que faz Bashir cair de amores por ela mais uma vez. Bashir teria se apaixonado por Esri se ao invés de uma garota bonitinha, fosse um Trill másculo, de barba, com 1,90 de altura? Capaz que a solução do enredo fosse semelhante à que deram para a Dra. Crusher.

A falha de Star Trek neste que poderia ter sido um episódio ainda maior do que foi em não explorar as preferências sexuais da doutora, nem mesmo falar de como o gênero e a atração sexual estão interligados. Em uma raça humana evoluída, como a que prega toda a franquia em todas as séries e filmes, Beverly não teria ficado enojada da proposta de Odan. Elas simplesmente embarcaria no relacionamento ou apenas diria que com ela não rola daquela forma. A espécie humana não tem uma única forma de se relacionar; somos multifacetados, complexos, complicados em várias esferas. E ao invés de uma Beverly empática e sensível, tivemos uma mulher fria e distante, completamente indiferente a tudo o que a franquia nos ensinou.

Até mais. 🖖

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Comentários

  1. Confesso não assistir a serie Star Trek, sei que deveria e estar na minha lista de filmes a assistir.
    Ler seu post foi interessante por dois motivos principais:
    1- aguçar ainda mais minha vontade de assistir Star Trek.
    2- Quando for assistir olhar com mais reflexão sobre as questões que estão envolta da série. Como você falou provavelmente os roteiristas não estavam preparados para este olhar sobre a sexualidade humana.

    Gostei do seu blog, vim pelo post O que é tecnologia. Acredito que sua formação e gostos pessoas tornaram este espaço diferente de muitos sites e blogs, o conteúdo é muito bom. Abraço.


    Te convido a conhecer o meu.

    https://movimentocognitivo.blogspot.com

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  2. Vim correndo para cá achando que você ia falar sobre o episódio que todos odeiam e eu adoro: Aquele em que a doutora Crusher tem , pelo que parece ser, um orgasmo pela primeira vez. E O Capitão Picard vem enfrentar esse alienígena, aparentemente enciumado.

    No mais adorei a postagem, também senti essa sensação de "como é? para cima de mim?" quando terminou esse episódio...

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