O tão propagado talento

Ahh, o talento! Coisa mágica e forte esse talento! Ele separa os meros mortais dos gênios. É claro que pra você ser bem sucedido em qualquer coisa, mesmo que seja pra amarrar o tênis de maneira eficiente e firme, você tem que ter tALenTo.

Ou não?

O tão propagado talento

Talento é uma palavra perigosa. Você pode usá-la para separar as pessoas de acordo com o que você acredita que seja talento. E se talento é medido por uma régua particular, provavelmente ninguém o tem. Quantas vezes vimos por aí e até falamos as mesmas coisas?

"Ahh, odiei esse livro, essa pessoa não tem talento pra escrever, nem devia tentar."

"Sucesso na vida é só pra quem tem talento, desiste disso."

"Nossa, fulano é talentoso, né? Vive ganhando prêmios."

"Pra ser professor tem que ter talento!"

Quando escuto as pessoas falando sobre "talento", o que eu entendo é que elas estão dizendo que para algumas pessoas a escrita é mais fácil do que para outras e isso significa que apenas aquelas que acham a escrita algo fácil devem tentar. Em geral, o "talento" existe porque 1. aquela pessoa gosta de escrever e por gostar ela vem fazendo isso há mais tempo que a maioria. Muito ocasionalmente significa que 2. descobrir como escrever um livro requer bem menos esforço para os "talentosos", apenas porque eles já quebraram a fórmula e a executam em apenas alguns passos.

Adaptado de The Geek Feminist Revolution, de Kameron Hurley

Eu comentei pelas redes sociais que a continuação de Deixe as estrelas falarem estava com mais de 21 mil palavras, coisa que eu devo ter escrito em menos de uma semana. E um comentário chegou pelo stories, lá no Instagram: "nossa, queria ser escritora, mas não tenho talento."

De tanto a gente ouvir que artistas possuem talento, algumas pessoas passaram a acreditar que existem os artistas e existem os mortais e suas vidas mundanas. Pois o que vai explodir a mente de muitas pessoas é: escrita se ensina. Assim como a didática se ensina a quem quer lecionar. Assim como a pintura se ensina a quem quer pintar.

Aptidão é diferente de talento. Se eu precisar pregar um botão, vai parecer que tenho duas mãos esquerdas. Eu não tenho a aptidão para a costura, mas aposto que se eu tivesse que pregar um botão em um caso de urgência, pegaria agulha, linha e faria o serviço. Se vai ficar bom, é outro papo. Mas de tanto praticar, eu posso acabar uma exímia pregadora de botão.

A principal diferença entre um escritor iniciante de um Stephen King é que King escreve há mais tempo. Você não pode, nem deve, usar os outros como régua para medir o que você faz. Eu admiro muito a forma como alguns escritores escrevem e eles servem de intensa inspiração e treino pra mim. Mas se hoje eu escrevo com facilidade, houve uma época em que não era assim. De tanto escrever coisa ruim, eu melhorei e passei a escrever coisas boas.

Talento não é essa coisa misteriosa e iluminada que desce sobre a cabeça de uns poucos letrados. Troque TALENTO por FACILIDADE e você vai ver que não tem muita diferença. Quando a atriz Louise Brooks, grande diva do cinema mudo, resolveu escrever sua autobiografia, ela sabia que não tinha o conhecimento necessário, nem a facilidade para sentar e escrever sobre sua vida. O que ela fez? Pegou livros de autores que gostava e começou a copiar frases, para compreender o ritmo e a forma como as palavras eram colocadas. Em seguida, ela pegava sua vida e encaixava nas frases copiadas, seguindo o mesmo ritmo. Com o tempo, ela compreendeu a melhor maneira de compor sentenças e conseguiu escrever seu livro.

É por isso que a gente insiste tanto na máxima: pra escrever bem tem que ler. Pense nos livros de outros autores como são os periódicos científicos. Um médico que assine o The Journal of Pediatrics vai ficar sabendo das novas descobertas na área, nas novas drogas contra o câncer infantil, as novas terapias para doenças degenerativas. Para os escritores, o journal nada mais é do que o trabalho de outros escritores.

O que dizer que Maria Carolina de Jesus? Quarto de Despejo é uma das obras mais importantes da literatura brasileira, um tapa na cara da sociedade meritocrática e racista que temos. Há quem diga que Carolina não tinha TALENTO. Ora essa! Como não?! Carolina podia não ter o estudo formal, nem um teto próprio sobre a cabeça, nem a segurança financeira e sentimental para escrever, mas isso não lhe tira o livro incrível que ela escreveu à mão, nas madrugadas da favela.

A questão é: você quer mesmo, de fato, seguir esse caminho? "Ahh, queria ser escritora, mas não tenho talento pra isso." Escrita se aprende. Mexer no Word se aprende. A questão é, você quer mesmo? Para o que é importante, a gente sempre encontra tempo. Vai ter muita gente pra te desencorajar, vai ter muita gente pra dizer que isso é perda de tempo, vai ter gente dizendo que o que você escreve não é literatura, vai ter gente dizendo que isso não dá dinheiro. Se você escrever na internet, alguém vai te julgar por ser mulher, negro, gay, trans*, não-binário, bissexual, pansexual, palmeirense, loira, por gostar de K-pop e por criticar a série alheia.

Mas você vai persistir, não por ter talento, apenas porque você gosta de escrever. Não vá se comparar com quem escreve e taí publicando desde o guaraná de rolha, porque como disse a Kameron Hurley, pra essa escritora o processo é mais fácil apenas por ela fazer há muito tempo. É nisso que você tem que pensar e praticar, praticar, praticar, falhar, cair, levantar e ainda assim sentar e escrever no dia seguinte.

E com o tempo você vai notar que, se antes você se afogava na frente da tela em branco, agora você navega pelas frases. O mar bravo torna os marinheiros habilidosos. E qualquer atividade em que nos arriscarmos será assim. Aquela receita de bolo que antes precisava ser seguida à risca no caderninho, agora você tem de cor na cabeça. Apenas isso, pratique. Pratique muito. Faça essas horas todas na frente do computador ou do caderno valerem à pena. Alguém sempre estará por perto pra ler o que você faz.


Até mais! ♡

Já que você chegou aqui...

Comentários

  1. olá, eu acompanho esse site há um bom tempo, quase um ano (ou talvez mais). infelizmente nunca tive coragem pra comentar algo. de qualquer forma, só queria dizer que te acho fantástica 🚀

    ResponderExcluir

Postar um comentário

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, com Desconhecido ou Unknown no lugar do nome, em caixa alta, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.

O mesmo vale para comentários:

- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.

A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.

Form for Contact Page (Do not remove)